Quando o planeta já não mais podia suportar a humanidade, uma luz brilhou no horizonte e subiu aos céus.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

43. Passado, Governo, Presente

Quando Thompson continuou a nos contar sua história, Pedra já havia caído exausto em um sono profundo. A barriga do homem subia e descia com dificuldades, erguendo e baixando lentamente a mão que apoiava sobre as bandagens tingidas de sangue. Anne e eu ajudamos a colocá-lo na única das camas do alojamento que parecia estar limpa e o cobrimos com um cobertor.

-Bem, -continuou Thompson - Pedra e eu éramos amigos desde os tempos da graduação. Ele se formou em Engenharia Computacional e eu em Engenharia Eletro-Robótica. Fazíamos parte de nossas pesquisas de mestrado juntos, já que eu precisava de processadores específicos para os carregadores de células de energia, enquanto ele precisava de um sistema que testasse certos pontos da capacidade dos processadores que ele pesquisava. Com nossas pesquisas estávamos abrindo as portas para obtermos células de energia que se auto-carregavam com quase qualquer coisa, como variações de temperatura, movimento, luz solar e lunar, variações de campo elétrico e até mesmo variações do campo magnético da Terra. Agora imaginem uma arma portátil que não descarrega praticamente nunca, ou um pequeno robô espião que nunca pára. Era isso o que aqueles homens que me abordaram um dia tinham em mente. Eu e Pedra poderíamos ter utilizado nossas pesquisas para fornecer energia ilimitada para a maioria das coisas pequenas e portáteis, como relógios, comunicadores, computadores de baixa energia... Mas eles tinham outros planos. -Fez então uma pausa, como se reavaliasse os anos que haviam se passado, e onde tinha chegado com tudo aquilo. Seu rosto e sua voz transpareciam um misto de amargura e raiva. Anne e eu apenas ouvíamos atentos, pois aquilo explicava muito mais do que apenas a vida de um sobrevivente das Explosões. Explicava quais eram as atitudes governamentais antes de tudo acontecer. Continuou. -Como eu disse, recusei as primeiras ofertas, já que emprego estável e dinheiro eu tinha, mas quando as cifras passaram dos seis zeros ao ano, mudei de idéia. Era a chance de ter tudo o que eu desejava para mim e sonhava para minha família. Logo soube que Pedra também tinha aceitado, e em pouco tempo estávamos pesquisando diretamente para o Governo. No primeiro ano deixaram que nos focássemos nas pesquisas, e todo e qualquer pedido de verbas era prontamente repassado aos nossos projetos, ignorando, de algum modo, toda a burocracia que havia -ou deveria haver- em torno disso. Mas no segundo ano, quando os resultados com as células começavam a aparecer, eles nos colocaram em períodos imensos de treinamentos intensivos de sobrevivência, camuflagem, espionagem e tiro. E quando questionávamos qual a utilidade de cientistas aprenderem a atirar e sobreviver em terreno hostíl, diziam apenas que fazia parte do processo. Mas a verdade era que eles estávam nos preparando para...

Uma série de bips, como os de um alarme, dispararam no bolso do uniforme de Pedra. Thompson puxou um pequeno aparelho, pouco maior que a palma de sua mão, e apertou um botão. Imediatamente a tela, que era praticamente todo o aparelho, se ligou e o alarme parou de apitar. Podíamos ver as rodas de um veículo passando e jogando neve para os lados, mas não conseguíamos identificar quase nada. Com outro aperto de botão o ângulo de visão mudou, agora de uma câmera colocada mais acima, provavelmente do topo do prédio, e pudémos ver três veículos vindo pela mesma estradinha que havíamos tomado algumas horas antes.

-Merda! -Xingou Thompson, quase derrubando o aparelho. -Nossos coleguinhas do Governo estão aqui...

Anne tentou dizer alguma coisa mas as palavras entalaram em sua garganta e ela apenas tossiu, meio atordoada.

-O Governo o que?! Mas esses veículos... -não encontrei palavras para terminar a frase.

-Sim, são os Deuses.

terça-feira, 19 de maio de 2009

42. Pedra

A sala para a qual levamos o homem ferido parecia saída de um filme de terror, daqueles que eram produzidos antes da Explosão. Ela costumava ser um pequeno pronto-socorro, feita para realizar procedimentos médicos simples e emergenciais, nada muito complicado. Mas agora, com os instrumentos enferrujados, equipamentos quebrados e sem conservação, sem medicamentos e médicos treinados, o lugar servia, no máximo, para torturar algum desafortunado. E, ainda assim, Anne insistiu para que a deixássemos olhar o ferimento.

-Pior não pode ficar -brigou ela, quando tentamos dissuadi-la a tentar ajudar - portanto ou param de me atrapalhar, ou saem daqui!

Ela limpou uma pinça e uma agulha usando o conteúdo de uma garrafa que estava por lá, e que, como cheirava a álcool, provavelmente não infeccionaria ainda mais o ferimento. Logo descobrimos que Anne sabia o que fazia. Afinal tinha sido uma ótima idéia deixá-la no comando. Ela limpou o sangue que se esparramava para fora da ferida e colocou lentamente a pinça pelo buraco da bala. O pobre homem estava praticamente inconsciente, mas ainda torceu o rosto e grunhiu quando Anne finalmente tirou o estilhaço que havia se alojado em sua barriga.

-Não dá pra ver se algum órgão foi atingido, mas, de qualquer forma, eu não poderia fazer muita coisa mais por ele.

Anne não parecia muito segura se conseguiria salvar seu paciente, mas fez o melhor que pode. Suturou o ferimento com o único pacote de linha ainda lacrada e enfaixou-o com o resto de gaze e bandagens que encontramos. Quando terminamos,a pobrezinha suava frio e estava exausta, mas parecia contente com o resultado. Deixou escapar um leve sorriso de satisfação, antes de escondê-lo novamente.

-Você fez um ótimo trabalho, Anne -disse com sinceridade e surpresa, ignorando a vergonha de falar com ela. -Mas antes de você nos contar onde aprendeu essas habilidades, acho que Thompson precisa nos esclarecer algumas coisas, não é?

Thompson já empurrava a maca onde colocamos o homem ferido para o corredor. Mesmo sem dizer nada, sabíamos que ele se preparava para nos contar mais sobre seu passado. Com uma cara meio de dor e meio de insegurança começou:

-Ok. Vocês venceram, e já era mais que hora de eu contar-lhes quem eu sou de verdade -Thompson despejou as palavras sem titubear, sempre olhando adiante, enquanto continuava empurrando a maca pelos corredores daquela enorme construção. - Quando tudo começou, ou acabou, pra ser mais exato, eu tinha um pouco mais que a idade de vocês. Estava no último ano do meu mestrado, bem aqui nesse prédio. Tinha uma linda mulher, uma filha que mais parecia uma princesa -seus olhos brilhavam enquanto falava, lutando contra as lágrimas que tentavam escapar de sua máscara de seriedade - de tão maravilhosa que era. Eu tinha emprego aqui, mas queria mais pra minha vida e pra minha família, queria garantir-lhes um futuro digno. E quando a oportunidade surgiu, não a desperdicei. Foi numa noite, quando saia da sala do meu orientador, que eles aparecerem. Dois homens bem vestidos, cabelos arrumados e barbas perfeitamente feitas. Começaram com um papo sobre minhas boas notas e minhas pesquisas com recarregadores de células de energia. Disseram que precisavam de gente inteligente e decidida como eu ao lado deles. Claro que a princípio, além de obviamente assustado e desconfiado, neguei participar de qualquer coisa, mas quando começaram a falar de números, mudei de idéia imediatamente.

Entramos em um salão principal, cheio de grandes colunas e chão de mármore. De um lado havia uma grande porta de madeira, que parecia ser a entrada principal do prédio. No meio havia uma recepção toda de madeira trabalhada, com papéis e canetas ainda dispostos sobre o balcão, tudo coberto com uma generosa camada de poeira. Pelas placas que pendiam no teto deduzi que Thompson nos guiava para a ala dos dormitórios. Ele ficou em silêncio ao cruzar o saguão, admirando cada detalhe, provavelmente tentando lembrar-se das muitas coisas que lhe aconteceram naquele lugar.

-Vamos, Thompson. Conte a eles logo quem somos... -sussurrou o homem na maca.

-Contarei, Pedra, contarei.

terça-feira, 5 de maio de 2009

41. Feridas e Cicatrizes

Ficamos estáticos, mal respirando. Os segundos seguintes demoraram a passar. Era como se o mundo tivesse parado de girar, preso àquele momento, em silêncio. Mas eu ainda podia ouvir o estrondo ecoando em meus ouvidos, minhas pernas lutavam para pararem de tremer e meu coração tentava abrir um buraco em meu peito e fugir. Thompson olhava da porta para o corredor, tentando não ser pego de surpresa. Seu coração batia tão forte que se podia ouví-lo naquele silêncio, e mesmo assim, à luz fraca que deslizava pela fresta da porta, ele não demonstrava medo algum. E quando a sombra voltou adiante da porta, ele apenas segurou firme a arma e se preparou.

Com um barulho metálico a tranca foi aberta. Lentamente a porta se abriu, deixando jorrar luz escada abaixo. Uma cortina brilhante se formou na poeira que flutuava e rodopiava no ar praticamente parado. Thompson ergueu rapidamente a arma e disparou apenas uma vez. O lampejo refletiu em seus olhos, apenas fúria saía deles. E antes mesmo que eu pudesse entender, ele se projetou escada acima, pulando os poucos degraus que faltavam e se jogou contra a porta. Com um baque surdo quem estava do outro lado foi arremessado. Quando corri escada acima Thompson já tinha um dos pés no peito da pessoa e sua AK-47 apontada para seu rosto. Havia um corte na testa do homem caído e um filete de sangue escorria-lhe pela orelha. Ele não era velho, mas duas décadas de um mundo podre tinham levado sua juventude embora.

O rosto do pobre homem era cheio de cicatrizes, seus braços tinham marcas horrendas e pedaços faltando ou sobressaindo, dois dedos da mão esquerda tinham sumido e havia um curativo mal-feito em sua perna esquerda. Na mão direita segurava uma pistola, saindo debaixo de suas costas se podia ver o cabo de uma metralhadora, e em sua bota havia uma faca. Uma mancha vermelha de sangue crescia em seu uniforme azul e se espalhava por toda a região da cintura.

-Sua mira e seus reflexos continuam muito bons, mesmo depois de tantos anos - tossiu o homem, cuspindo parte do sangue que escorria do corte em seu lábio. Então sorriu maliciosamente e continuou. -Achei que nunca mais veria o garotinho mirrado, com medo do escuro, que vivia fugindo das aulas de primeiros-socorros.

-Tinha medo de lembrar de sua mãe gritando de prazer, nas noites em que passei com ela. -Faltou Thompson, comprimindo o cano da arma no ferimento aberto na barriga do sujeito, com expressão de poucos amigos. -Talvez devesse ter suturado sua boca e cortado fora seu pau quando tive chance.

-Thompson, seu puto! -Gargalhou o homem, com os dentes pintados de sangue. -Minha mãe tinha quase sessenta anos!

-Eu sei, por isso tinha medo. -E tirou o pé do peito do inimigo caído, ajudando-o a se levantar. E sem alterar sua expressão, falou. -E da próxima vez não vou errar o tiro.

-Mas você acertou, oras... Esse sangue todo que o diga! Meu coração não para de bombeá-lo para fora, e minha boca já tomou quase um litro dele!

-Se tivesse acertado, a porta não teria absorvido o impacto e você estaria perguntando a sua mãezinha se ela sente saudades de mim neste exato momento.

-Desgraçado... continua igualzinho!

E eu e Anne não dissemos palavra, boquiabertos.

terça-feira, 21 de abril de 2009

40. Poeira e Umidade

Com um chute a grade de proteção da pequena janela voou alguns metros, aterrissando na neve fofa. Thompson então empurrou a pequena janela e se espremeu para dentro. Um cheiro forte de mofo e ar parado saía pela abertura e impregnava mesmo nossos narizes entupidos pelo frio.

-Andem logo, ou vou ter que recolher os corpos de vocês... e não sei se vou me preocupar com isso. -Thompson não parecia estar brincando, mas ele nunca parecia, e mesmo assim eu nunca conseguia achá-lo arrogante ou carrancudo demais. Ele simplesmente não queria que fôssemos moles, e por isso fingia não se importar com nada além de si mesmo.

-Tem sangue aqui, vejam. -Apontei para a lateral dos degraus que levavam à porta de serviço. Mas apenas Anne estava ouvindo, enquanto Thompson tinha sumido na escuridão. -Acho que alguém lavou a parte de cima, mas se esqueceu de limpar o que escorreu pelos lados.

-Brrr...! -Tremeu Anne, fazendo careta para o sangue. -Vamos entrar logo, sinto-me observada.

Ajudei Anne a entrar pela janela e fui em seguida. O cheiro lá dentro era ainda mais forte, a ponto de me causar náuseas. Mal se podia enxergar sua própria mão diante do nariz, quanto mais o que havia ao redor. Thompson tirou então uma lanterna de sua mochila e iluminou a escuridão. Estávamos em uma espécie de depósito, cheio de caixas e prateleiras, todas amontoadas ou jogadas pelos cantos. Poeira era o que não faltava e, unida à umidade que penetrava pelas paredes não impermeabilizadas, criava tapetes escorregadios por todos o chão. Anne e eu tínhamos guardado as armas, mas Thompson mandou que as mantivéssemos preparadas. Caminhamos por entre os esqueletos do que um dia foram mesas e cadeiras e finalmente chegamos a uma porta, escondida atrás de um armário caindo aos pedaços.

-Não preciso lembrá-los para fazerem silêncio, não é? -Falou, já girando lentamente a maçaneta da porta. Apagou a luz da lanterna e puxou a porta, de modo a abrir apenas uma fresta. Uma lufada de ar entrou zumbindo e saiu pela janela. -Nuke, feche aquela janela já. Não queremos portas batendo por causa de correntes de vento.

Fechei a janela e voltei lentamente, andando com cuidado para não escorregar ou tropeçar em alguma coisa. Por mim, teria preferido o risco de uma porta bater à sufocar com aquele cheiro, mas eu não ia discutir com Thompson naquele momento em hipótese alguma. Juntei-me a eles e adentramos. Thompson ligou novamente a lanterna e olhou com mais atenção. Estávamos no final do corredor, haviam portas iguais dos dois lados, mas a maioria estava fechada. Na outra ponta havia uma escada, que subia e sumia de vista, provavelmente levando ao andar principal. Caminhamos lentamente, evitando fazer barulho e fomos direto até a escada. Thompson checou o interior de cada porta aberta com sua lanterna, mas eu e Anne passávamos sem olhar, como se temêssemos que alguma coisa pudesse nos puxar pra escuridão. Já subíamos os primeiros degraus quando Thompson parou abruptamente.

-Esperem, tem alguém do outro lado. -E assim que ele terminou de sussurrar a frase, uma sombra pode ser vista passando pela faixa de luz que se expremia por debaixo da porta no topo da escada. Thompson apontou sua arma e desligou a lanterna. -Abaixem-se, se a porta abrir vou atirar.

A sombra simplesmente passou pela porta, mas atrás de nós uma estante caiu em alguma das salas, fazendo o chão tremer e um som ensurdecedor encher o corredor. Anne gritou de imediato. E, ainda sussurrando, ouvi Thompson amaldiçoar os deuses.

-Merda! -Foi tudo que consegui dizer, comprimindo os olhos e esperando a adrenalina tomar conta de meu corpo.

sábado, 18 de abril de 2009

39. Tiros na Neve

Estávamos todos observando atentamente as janelas, esperando ver alguma coisa. Thompson e eu concordamos em parar o carro ao lado de um dos prédios, evitando assim as janelas sem tábuas. Foi então que Anne gritou, apontando para uma das janelas.

-Ali, tem alguém ali! -E assim que ela apontou para uma das janelas do terceiro andar, algo brilhou na escuridão, refletindo a fraca luz que penetrava pelas nuvens cinzas que cobriam permanentemente os céus.

-Acelera Nuke, vão abrir fogo! -E antes que eu pudesse raciocinar direito o que ele tinha dito, já estava acelerando e jogando o carro pela lateral do prédio. Mal evitamos a linha de visão das janelas ouvimos os disparos. Ainda tive tempo de olha pelo retrovisor e ver os buracos na neve, com pequenas núvens de vapor subindo em rodopios.

-Puta merda! -Desabafei em voz alta. -Filhos-da-puta! Atiraram em nós, sem nem saber quem somos!

Por alguns instantes ficamos estáticos. Ninguém queria sair do carro, porque alguém do lado de fora estava atirando, mas ninguém queria ficar ali, preso em uma lata de aço esperando morrer. Thompson foi o primeiro a descer. Passou pelo carro e subiu na neve acumulada na parede do prédio, aproximou-se da quina da parede e tentou olhar pela esquina. Não demorou e mais núvens de vapor subiam de novos buracos na neve, enquanto lascas do acabamento da parede voavam. Thompson estava meio assustado, provavelmente não tinha esperado encontrar briga naquele lugar, e agora tinha o dedo no gatilho de sua AK.

-Vamos dar a volta, se ficarmos aqui morreremos. -Eu já estava descendo do carro, segurando desajeitadamente a pistola que ele havia posto em meu colo. Estava com medo, admito, mas a cada estava me acostumando mais com ele, e naquele momento já não era mais do que outro tipo de adrenalina correndo em minhas veias. É certo que o medo salva vidas, afinal, nos impede de corrermos riscos absurdos, que certamente nos matariam. Mas, pra mim, o medo de algo sempre deu forças para enfrentá-lo, e provavelmente isso salvou minha vida mais vezes do que se tivesse me dado forças para apenas correr. Thompson tinha corrido pela lateral do prédio e estava na outra quina, olhando pela esquina e nos fazendo sinal para o acompanharmos. -Por aqui, tem uma entrada naquele canto, tenho certeza.

-Como ele sabe? -Perguntou-me Anne, enquanto corríamos até ele, tropeçando e atolando os pés na neve fofa.

-Não faço idéia... nenhuma.

Atravessamos um espaço de cerca de vinte passos entre dois prédios. Havia muitas janelas, mas aparentemente não havia nenhuma sem tapumes, e isso nos deu coragem suficiente para atravessar o vão entre as construções. Nos abrigamos debaixo de um telhado de alumínio parcialmente desabado, que cobria uma porta de serviço. Como eu já esperava, a porta estava trancada, e provavelmente bloqueada por dentro. Mas Thompson sequer se importou em testar se a porta capenga estaria aberta, simplesmente começou a remover a neve ao lado da porta com a ajuda do cabo da AK-47. Depois de remover a neve e um amontoado de entulhos pudemos ver o que ele procurava: uma janela de subsolo.

-Vamos entrar por aqui.

-Você já esteve aqui?

Olhei-o, inquisitivo e sem dizer palavra. E ele, com naturalidade, respondeu sem sequer piscar:

-Claro. Agora andem logo.

domingo, 12 de abril de 2009

38. Armas em Punho

Diferente de Anne e Thompson, eu não me sentia muito confortável em me aproximar daquele complexo. Não que ele parecesse ameaçador ou pudesse abrigar inimigos - apesar de parecer muito óbvio que abrigaria - mas era a primeira construção que eu via, em toda minha vida, que parecia intocada pela Explosão, parada eternamente no tempo. Havia neve acumulada nas paredes e nos tetos, nos parapeitos das janelas pendiam ponteiras de gelo escurecidas pela sujeira. Haviam dois veículos parados ao lado de um grande portão de ferro, como em uma garagem antiga. O maior deles, um trator amarelo, tinha a frente modificada para remover neve, enquanto o outro parecia um mini tanque de guerra. As paredes, feitas de grandes blocos de concreto, foram um dia pintada de branco, mas agora descascava sob a passagem dos anos. Grandes janelas, em sua maioria tapadas com tábuas e placas de metal, eram enormes e deviam iluminar todo o interior dos prédios.

Eu ainda estava absorvendo aquela visão inédita quando percebi que o carro estava descendo a colina. Thompson tinha se cansado de esperar que minha admiração passasse e tinha soltado o freio de mão, e só percebi quando já estávamos ganhando velocidade. Pressionei de leve o pedal do freio, para que não derrapássemos, e deixei que o carro deslizasse lentamente até o fundo do vale, enquanto ainda observava cada detalhe da magnífica estrutura. Thompson não estava preocupado com minhas sentimentalidades e tirou-me novamente de meus devaneios colocando uma pistola em meu colo, passou outra para Anne e engatilhou sua metralhadora, uma antiga AK-47 - que, ainda hoje, é uma das melhores armas que existem.

-O que faremos com isso?! -Bradou Anne, completamente desnorteada e visivelmente assustada com a arma em suas mãos. -Eu não sei nem atirar pedras em uma casa!

-É, eu também não sei atirar! -Completei.

-Vão aprender logo, vejam. -Falou Thompson, com sua calma impossível diante de situações de desespero.

Em uma das janelas mais altas uma sombra acabara de se mecher e desaparecer na escuridão.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

37. Desvios

-Thompson. Estamos dirigindo a horas, e esse já é o segundo dia. -Mas Thompson estava cochilando, roncando baixinho, e não tinha ouvido. Cutuquei-o para que acordasse e então repeti. - Já estamos na estrada faz horas. Mark tinha dito que eram apenas 300 quilômetros até Amrak, mas aposto que já andamos mais que isso.

-Sim, você está certo. Mas onde paramos para descansar ontem, na hora do almoço, tomamos um desvio. -Falou Thompson, sem tirar os olhos da estrada. -A estrada em que deveríamos estar, que segue o leito do rio, foi bloqueada e desviada para esta. Percebi que havia algo errado, mas não quis assustar ninguém. E, além do mais, essa estrada parecia estar em melhores condições do que aquela estaria.

-Mas você sabe pra onde estamos indo, não é? -Perguntei alarmado. -E porque não nos contou antes?

-Não. Sei que devia ter contado, mas como disse, preferi não assustar você e a Anne. Mas isso não importa, realmente. Ontem a noite conversei com os garotos que estavam nos acompanhando e chegamos a conclusão de que o melhor era que nós seguíssemos por aqui. -Apesar de parecer um pouco desconfortável por não ter nos contado, Thompson parecia confiante na decisão de não retornar a Tradeport e seguir pela rota alternativa. -Eles me contaram que os mercadores que chegam à Tradeport fazem esse caminho já a alguns meses, mas que ninguém se deu ao trabalho de avisar ao sherife Mark que a rota original está bloqueada.

-Como assim? Porque esconder que alguém fez isso?

-Eles temem que, se Mark souber do bloqueio, vai querer removê-lo. E, além de muito trabalho, isso significa descobrir o responsável e impedir que ele refaça o bloqueio. Sabemos, pelo que vimos hoje, que os Escravizadores estão metidos nisso, mesmo que apenas oportunamente, e mecher com eles é pedir guerra.

-É, sei como é... Já fui escravo e isca pra escravizador... Lembra?

-É verdade, tinha me esquecido. -Thompson ficou em silêncio por um tempo. Pensei que ele estivesse imaginando um confronto contra os Escravizadores, mas pouco depois ele falou, animado. -Vire aqui, reconheci onde estamos!

Eu estava dirigindo com gosto, a mais de 100 km/h, e fui pego de surpresa pela ordem de Thompson. Virei o volante com vigor demais, e logo depois estávamos rodando pela neve e gelo. Por pura sorte o carro não atolou na neve e pudemos seguir pelo pequeno desvio soterrado de gelo que havia entre um punhado de árvores mortas. Andamos por certa de 30 minutos, até que a estradinha precária, ladeada por pedras e restos de árvores, terminou em uma longa descida. Adiante de nós, no fundo de um pequeno vale, havia um imenso complexo de construções enormes. Em um portão de grade arruinado havia os resquícios de uma placa. "Propriedade Governamental - Proibída a entrada", dizia.

-Anda logo Nuke, vamos descer. Estou congelando aqui! -Falou Anne, pela primeira vez desde que escapamos dos Escravizadores.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

36. Escombros e Gelo

Os escravizadores deviam estar nos observando desde o dia anterior. Sabiam que nossos veículos não eram os adequados para andar sobre montanhas de neve, e que isso nos forçaria a ficar na estrada. Mas, depois de uma tempestade de neve, mesmo as estradas ficavam intransitáveis a veículos comuns sem esquis, e essa era a maior vantagem deles. Veículos com limpadores de neve constantemente mantinham as estradas livres de neve, mas podia levar dias até que um desses percorresse aquele caminho e a deixasse limpa, até que a próxima tempestade a inutilizasse novamente. Nossos carros tinham correntes em volta dos pneus, mas a neve fofa era intransponível para eles.

Eu mal sabia dirigir em uma rua limpa e sem obstáculos, quanto mais em uma estrada cheia de neve e gelo, mas mesmo assim só pensava em pisar fundo no acelerador e sair dali. Levei poucos segundos para arrancar com o carro depois que Anne e eu entramos. Thompson ainda corria colina abaixo e praticamente se jogou porta adentro quando passamos por ele ainda acelerando. Eu estava me esforçando ao máximo para manter o carro na estrada, mas Thompson segurou o volante com uma das mãos e girou-o com força, fazendo o carro sair da estrada e subir o pequeno barranco de entulhos e terra que havia do lado.

-Mas que porra é essa que você tá fazendo? -Berrei de imediato, tentando fazer o carro voltar para a estrada. Mas Thompson segurava o volante firmemente, e falou com força, mas sem gritar:

-A neve se acumulou na estrada e está fofa. Aqui há mais gelo e detritos, onde as correntes podem conseguir apoio para não deixar os pneus girarem em falso. -Em principio não acreditei, mas logo estávamos andando mais rapidamente, ainda que com muitos trancos e solavancos. -Não acelere tanto, e reduza uma marcha. O motor precisa de mais força que velocidade, por enquanto.

Certo, certo! -Meu coração estava disparado, tentando abrir um buraco em meu peito para fugir. E quando eu pensava que não poderia haver mais descargas de adrenalina em meu sangue, Anne gritou ainda mais alto do que já vinha gritando enquanto fugíamos.

-Os escravizadores pegaram eles! -Exclamou desesperada, apontando pelo vidro traseiro para o outro carro, ainda parado no meio da estrada. Os veículos dos escravizadores os haviam bloqueado e agora rendiam seus ocupantes, que eram surrados até que caíssem no chão.

-Temos que voltar!

-Não podemos. Condenaríamos a nós mesmos se voltássemos. Vamos fugir antes que queiram nos perseguir. -Continuou serenamente Thompson, segurando novamente o volante, para que eu não fizesse a estupidez que tinha em mente, de voltar e tentar ajudar.

-Vamos voltar! POR FAVOR! -Implorou Anne. Mas tiros passaram assobiando pelo carro, corroborando a decisão de não voltarmos. Dois dos disparos acertaram a lataria do porta-malas, fazendo-nos abaixar as cabeças. Mas logo fizemos uma curva e estávamos fora de mira.

Depois de algum tempo tínhamos apenas o barulho das correntes se agarrando aos escombros no chão e os soluços contidos de Anne em meio ao seu choro silencioso. Lembro de ter criado coragem para olhá-la pelo espelho retrovisor, mas depois de ver seu rosto cheio de lágrimas e seus lindos olhos vermelhos de choro, desejei ter guardado na memória apenas seu sorriso do dia anterior.

segunda-feira, 30 de março de 2009

35. Carteira de Motorista

Aquela manhã acordou particularmente fria e desanimadora. Uma densa camada de núvens continuava, como em todos os dias de minha vida, escondendo o sol. O vento cantava melancólico como sempre, e com ele vinha o inconfundível cheiro dos lobos que viviam vagando pelas colinas. Eu achava que carros eram apenas bonitos, mas que todo o resto que diziam sobre eles, principalmente vindo de homens com alto teor de álcool no sangue, era besteira. Mas eu estava enganado. Muito enganado.

A viajem não deveria levar mais que algumas horas. Pelo menos não vinte anos antes. Mas naqueles tempos mal se podia diferenciar o que um dia foi uma estrada do que sempre foi chão, e vencer 300 km era uma marca razoávelmente grande. Thompson dirigiu os primeiros 100 km, sempre me dando dicas de direção e segurança. Logo atrás de nós seguia uma caminhonete com outros quatro homens, quase tão jovens quanto eu. Eles deveriam ter voltado depois de algumas horas, mas fizeram questão de passar a primeira noite conosco e voltar ao amanhecer para Tradeport. E assim fizemos.

A noite foi longa. Uma tempestade de neve chacoalhou os carros horas a fio, impedindo de nos recuperarmos das várias horas trancafiados e apertados em uma lata com janelas. Mesmo assim dormi bastante, afinal, um banco acolchoado de carro sempre será melhor que uma cela úmida e fria ou um saco de dormir surrado. Quando acordamos todos tínhamos olheiras enormes. Anne, que não tinha dito muito durante toda a viajem, e havia apenas olhado o horizonte pensativa, parecia a mais animada de todos nós, e forçou todos a se abraçarem e se despedirem com alegria e entusiasmo. Mas só de pensar de desatolar os carros da grande quantidade de neve que havía acumulado, a animação contagiante havia passado rapidamente.

-Mas que droga. Devíamos explodir essa neve ao invés de cavá-la! - Dizia Anne, a cada vez que erguia uma pá de neve a jogava para trás. -Onde eu estava com a cabeça de não deixar meu tio dar a vocês o lança-chamas que ele prometeu?


-Você o que? -Falei sem gaguejar. E então continuei, sem jeito. -Ele ia mesmo nos dar um lança-chamas?

-Claro que não! Daaaã! -Zombou ela, iluminando o rosto com um sorriso inesquecível.


Eu tinha vergonha de conversar com Anne quando Thompson estava por perto. Não porque ele pudesse ouvir, mas porque ele constantemente me fazia caretas e dava tapas em minhas costas para que eu falasse com ela. E isso apenas aumentava mais minha timidez. Eu poderia ser fanfarrão com homens armados e maiores que eu, mas com mulheres dificilmente tinha tido chances de conversar, e quaisquer duas palavras saiam engasgadas. E depois daquela zombaria, já esperava que Thompson aparecesse de lugar nenhum e fizesse mais chacota de mim. Mas não fez. Ao invés de disso pudemos ouvir apenas seus gritos:

-Corram, seus desgraçados! Corram! - berrava Thompson, enquanto corria colina abaixo desenfreadamente. -Os Escravizadores estão chegando!

A alguns metros de nós os homens que nos acompanhavam empunharam suas armas e entraram no carro, gritando para que saíssemos de lá.

Saímos. E nos instantes seguintes tirei minha carteira de motorista.

sábado, 14 de março de 2009

34. Anne

Thompson passou aquele dia todo me ensinando noções básicas de direção. Eu achava mais fácil que ele simplesmente dirigisse, mas fui convencido de que era melhor que nós dois soubéssemos guiar um carro. Muita coisa eu já havia aprendido com meu pai, muitos anos antes, mas nunca tinha tido oportunidade de assumir o volante de veículo algum. Eu estava ansioso para começar a dirigir de verdade, mas os primeiros metros que percorri foram cheios de solavancos e freadas bruscas.

-Vejo que está progredindo bem! - falou Mark animado, tentando disfarçar sua verdadeira opinião sobre meu fiasco de direção. Era final de tarde e a pouca luz que iluminava o dia sumia rapidamente.

-É... bem... pelo menos consegui não bater o carro ainda. - Resmunguei sem jeito. -E sobre o atentado, já descobriram algo?

-Ainda não sabemos quem foi, mas temos suspeitos - falou. - De qualquer forma, temos coisas mais importantes para tratar. Essa é minha sobrinha, vocês a levarão a Amrak.

Tirei meus olhos do câmbio, onde tentava engatar a marcha do carro, e olhei para Mark. Foi então que a Terra parou de girar. Os últimos raios de sol que se espremiam pelas nuvens. A brisa terminou sua melodia e silenciou. Um lobo uivou na escuridão. Ao lado do padre-sherife havia um anjo, de cabelos dourados como o sol, olhos azuis como céu e a pele branca como a neve mais pura. E ainda que eu nunca tivesse visto o sol ou céu, sabia que ela os levava consigo.

-Ela é linda, não é? - cochichou Thompson ao meu lado, mas levou um longo tempo até que meu cérebro captasse a mensagem e a processasse. -E pode tirar o pé do acelerador, que a marcha não está engatada e esse cheiro de fumaça tá me incomodando.

-Ãh??

-Vocês devem partir ao amanhecer. Não quero correr riscos à toa. Alguém pode acabar reconhecendo vocês por aqui, e uma caravana que chegou enquanto vocês estava presos nos trouxe informações de que um grupo dos Piratas da Neve anda rondando a região. -Ele falava alto, para que pudéssemos ouvi-lo por cima do barulho que o carro fazia enquanto eu o acelerava sem parar. Sua voz era séria, mas não parecia muito preocupada. -Mandarei uma patrulha acompanhá-los nas primeiras horas. E então seguirão viajem sozinhos.

-Sim, senhor -falou Thompson, em tom honroso, enquanto desligava a chave e a tirava do contato.

-Ãnnh? -Balbuciei. E então finalmente consegui formular uma frase. -Como você se chama?

-Anne.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

32. Desculpas

-Espere, Nuke! Onde você vai?

-Vou embora, oras! Você está morto. Esse padre, sherife ou sei lá o que não pára de falar. E eu não estou a fim de ouvir. Minha cabeça dói e meu braço está formigando- falei sem hesitar.

-Está formigando porque você está deitado em cima dele.

-Deitado?

E então a neve que cobria a grama derreteu. A grama murchou até desaparecer. As estacas da cerca foram sugadas para debaixo da terra. As tábuas da varanda se recompuseram e formaram um chão plano. Paredes surgiram e janelas se abriram nelas. Um homem estava sentado em uma cadeira, enquanto um outro permanecia de pé, me encarando com um sorriso, ao lado da cama onde eu estava deitado.

-Nuke?

-Thompson? -falei engasgado, sentindo a garganta raspar.

-Pensamos que você fosse ficar alucinando a noite toda. Eu e Mark conversamos enquanto você dormia, e pelos seus gritos acho que você podia nos ouvir - Thompson tinha sua cabeça no lugar, e não parecia muito abalado. Eu ainda não entendia as coisas direito, mas isso viria a seu tempo.

-Não tivemos chance de nos apresentar. Meu nome é Mark, padre-sherife de Tradeport. - e aproximou-se da cama, esticando a mão para me cumprimentar. Eu fiz um esforço para erguer o braço não adormecido, mas havia uma agulha colocada em uma de minhas veias, e soro descia por um fino tubo de plástico, de modo que ao movimentá-lo uma dor lancinante me fez baixá-lo outra vez. - Tudo bem, não se esforce demais. Não me admira que seu corpo tenha enfraquecido tanto naquela cela. Desculpe-me por isso.

-Você nos deixa preso por dias e dias num cela imunda, cheia de ratos para dividirmos o lixo que vocês nos davam para comer, fazendo-nos defecar e dormir no mesmo lugar, e agora quer que eu o desculpe? - A raiva que eu queria ter sentido quando achei que Thompson estava morto agora brotava de mim como uma tempestade, e a dor que sentia em meu corpo ia desaparecendo sob efeito da adrenalina que percorria abundante minhas veias. - Eu seria capaz de matar você por muito menos! Se eu puser minhas mãos em você...!!

-Acalme-se, Nuke!! - falou Thompson, quase gargalhando de minha atitude. -Sei que você está com raiva, e tem motivos pra isso, mas ouça-nos primeiro! Mark nos aprisionou, sim. Nos fez passar fome, frio e tudo mais. Mas ao fazer isso ele nos salvou. As pessoas, tanto daqui quanto de qualquer outro lugar, precisam ver que os erros e crimes cometidos são punidos, do contrário sentirão-se seguros de sair impunes e cometerão outros crimes. Quando nos acusaram de termos envenenado as bebidas Mark mandou que fossemos presos, para manter a ordem e evitar que fossemos linchados ali mesmo.

-E daí? Porque nos deixou lá por tanto tempo, para depois não nos arrancar a cabeça? - falei quase gritando, indignado. - E quem, diabos, perdeu a cabeça naquele palanque? Ou eu estava alucinando, já?

-Admito que teria deixado vocês morrerem, como mereciam. - Começou a falar o Sherife, interrompendo Thompson que já tinha aberto a boca para recomeçar a falar. -Mas o anjo protetor de vocês é forte, e fez com que as coisas mudassem de rumo. Antes de jogar as bebidas fora, pensei em dar uma olhada nelas. E qual não foi minha surpresa ao encontrar vestígios e marcas dos Piratas da Neve. Não demorou muito pra que um dos médicos que eu tenho ao meu dispor aqui constatasse que o envenenamento da bebida tinha sido feito havia muito tempo. -Eu queria levantar e dar um murro na cara daquele velho religioso, mas sua voz era confortante, e de algum modo me prendia na cama. -Assim que soube disso fiz questão de tirá-los daquele buraco, para isso armei uma execução. Desfilei com vocês até o palanque, para que todos os vissem, e depois, na hora de cortar cabeças, enviei dois outros prisioneiros, com capuzes cobrindo os rostos.

-Humm... - resmunguei, ainda tentado a um soco direto e limpo.

-Por isso quero me desculpar, e oferecer a vocês dois que...

Mark, o Sherife e sacerdote de Tradeport não teve tempo de terminar de falar. Do lado de fora um estrondo imenso ecoou por cada canto da cidade, e um tremor fez tremer paredes e janelas. Gritos e pedidos de ajuda se espalhavam como fogo em palha, enquanto uma nuvem de fumaça se erguia do meio da praça de mercadores.

-Senhor! Senhor! Precisamos do senhor na praça central imediatamente! - Gritou um dos guardas da cidade, que entrou ofegante pela porta. Havia um corte fundo em seu rosto e suas mãos estavam cobertas com sangue e fuligem.

33. Dirigir

Mark não deixou que nós o acompanhássemos até a praça, já que certamente seríamos reconhecidos. Ficamos no quarto, tentando entender alguma coisa do que havia acontecido do lado de fora, mas o local da explosão estava fora de vista. No tempo em que ficamos olhando apenas algumas pessoas apressadas passaram, correndo para verem o que havia acontecido. Os apitos dos guardas podiam ser ouvidos, e provavelmente havia alguma confusão ainda no local. Depois de duas longas horas o sherife voltou. Estava acompanhado de um de seus médicos, que estava sujo de cima a baixo com sangue e poeira.

-Acidente ou atentado. Ainda não sabemos. Uma caixa de dinamites explodiu, matando o vendedor e três outras pessoas. - Falou desanimado o sherife, que agora era mais padre que sherife. -Posso penas rezar por suas almas e punir os responsáveis. Há muitos feridos também, mas a maioria sem gravidade.

-Se pudermos fazer algo para ajudá-lo, senhor. - Falou Thompson prestativo. -Podemos tentar.

-Sim, vocês podem. -E ao dizer isso saiu pela porta, fazendo um gesto para que o seguíssemos. O médico então retirou as bandagens que prendiam a agulha em meu braço e me ajudou a levantar da cama. Minhas pernas estavam bambas e teimavam em não me obedecer, mas esforcei-me para seguir Mark até a porta dos fundos de sua enorme casa. Ele parou do lado de fora da porta e apontou algo. -É com isso que vocês vão me ajudar.

Manquei até a porta e olhei para fora. Thompson já estava lá, boquiaberto. Estacionado ao lado de uma porta de garagem aberta estava o carro mais bem conservado que eu já havia visto. Veículos de guerra, modificados ou originais, eram comuns, mesmo em bom estado. Mas carros eram difíceis de se manterem conservados, já que não serviam para guerra e portanto não mereciam cuidados maiores. Thompson disse que se lembrava do nome do carro, mas eu pedi que ele não falasse. Aquele carro não pertencia mais ao passado, e portanto seu nome não precisava ser lembrado. Eu queria em minha memória apenas aquilo que podia ser observado e admirado.

-Encontrei esse carro anos atrás, enquanto vagava por esse mundo destruído. Estava em uma estrada de terra secundária, atrás de alguns arbustos. Havia um homem morto dentro, com os miolos espalhados pelo vidro. Haviam algumas notas de dinheiro, daquelas usados na época, espalhadas pelo chão do lado do passageiro, e a porta estava aberta. -Mark olhava fixo para o carro, com o olhar vazio, enquanto se esforçava para lembrar os detalhes da ocasião. Sua voz era novamente de sherife, e seu lado padre tinha voltado a se esconder. -Encontrei uma arma alguns metros dali, uma mochila vazia e uma montanha de dinheiro levada pelo vento e espalhada na neve manchada de sangue.

-Alguém matou o motorista, fugiu com o dinheiro e morreu em seguida. -Arrisquei um palpite.

-Sim, muito provavelmente. Mas e o corpo de quem fugiu, o senhor não o encontrou? - Completou Thompson.

-Não. Procurei por algum tempo, mas não encontrei nada. Este mistério nunca desvendei. Depois de procurar tirei o homem morto do carro, limpei como pude seu sangue e continuei viajem, até que o combustível acabasse. Eu o escondi em um bosque e cobri com neve. Voltei apenas quando, depois de muitos anos, encontrei um vidro novo para ele. E o carro continuava lá, intocado em seu esconderijo de gelo. Trouxe-o para cá e o reformei.

-E o que faremos com ele, senhor?

-Irão até Amrak. Cerca de trezentos quilômetros descendo o rio. É a maior cidade existente em muitas centenas de quilômetros. Moram lá cerca de 150 mil pessoas, talvez mais. Vocês levarão uma carga para mim, e a entregarão a uma mulher.

-Certo, senhor. -Quase não prestei atenção ao que respondi. Estava imaginando qual seria o tamanho de uma cidade com tantas pessoas, e como faziam para protegê-las, alimentá-las e contentá-las.

-Sabe dirigir? - Perguntou o sherife a mim. Levei alguns instantes para entender a pergunta e lançar-lhe um olhar perdido.

-Não.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

31. Louco

Quando a lâmina foi solta o mundo silenciou. Era possível sentir as pessoas prendendo a respiração do lado de fora. Um corte rápido e um baque seco. Gotas de sangue escorreram pelas tábuas e pingaram em minha venda. Queria ter sentido raiva, mas sentia apenas remorso por não ter me despedido de Thompson. Seu sangue escorria quente em meu rosto e eu sabia que minha vez estava chegando.

-Cinco segundos - gritou uma voz acima de mim, no palanque. - Apenas cinco segundos, senhoras e senhores! Esperamos que o próximo dure mais, ou as apostas de hoje terão sido em vão! Que tragam o próximo safado que vai morrer aqui hoje - continuou a voz, em meio a uma gritaria e uma onda de aplausos.

-Vamos andando - falou a voz do Sherife à minhas costas - não dê um pio, ou arranco-lhe os dentes.

Deixei-me ser guiado e não disse palavra - não que eu me importasse de perder os dentes, afinal, logo em seguida eu perderia toda a cabeça mesmo - mas depois de tudo o que gritei nos dias em que ficamos enjaulados eu já não tinha mais nada a dizer. Do lado de fora o vento frio que cortava Tradeport naquela manhã parecia se despedir de minha presença. Os gritos das pessoas que assistiam a execução tinham cessado e apenas murmúrios podia-se ouvir aqui e ali. Todos aguardavam a próxima cabeça a rolar. Subi uma escada de madeira e dei alguns passos. Um chute em minhas pernas me fez ajoelhar. Eu não ousava me mecher. Todos os meus sentidos pareciam ter deixado meu corpo, e a única coisa que eu sentia era a neve derretendo sob meus joelhos. Segundos que levavam horas se passaram, e então finalmente tiraram minha venda.

-Desculpe ter de fazê-los passar por isso. Essa cidade precisa de regras rígidas, ou cada vigarista e salafrário dessa cidade vai querer tirar mais proveito do que outro - era o Sherife falando, com o rosto sério de sempre, mas com uma calma na voz que até parecia outra pessoa. - A maioria dos que vem aqui são boas pessoas. Sempre assustados, perdidos ou feridos, mas boas pessoas. E, como a maioria nesse mundo, precisando apenas de duas coisas: um lar e um objetivo. E é isso que eu lhes dou. Ofereço proteção a todos os que aqui estão, e depois que percebem que estão realmente seguros, ofereço-lhes a Palavra de Deus - o padre-sherife estava sentado em uma cadeira de balanço, que vinha e voltava no mesmo lugar, rangendo baixinho. Eu estava ajoelhado no que um dia foi uma bela varanda de madeira, mas que depois de duas décadas sem cuidados parecia apenas um amontoado de tábuas. Senti-me tentado a levantar e correr, pular a cerca de madeira que fechava o jardim coberto de neve e deixar que o primeiro guarda me acertasse um tiro no meio do peito. Mas aquele homem sentado não parava de falar, e eu queria saber onde ele iria parar. -As pessoas são muito fáceis de se entender. Elas podem ter sonhos diferentes, gostos e vontades diversos, mas no final precisam apenas de um motivo para se manterem vivas. O fogo queimou tudo o que conheciam, a neve e o vento soterraram os escombros do seu passado e o desespero humano destruiu qualquer vestígio do que sobrou. O que lhes restou? A fé, claro! Memórias se perdem, se apagam. Mas a fé, não. Essa jamais se esquece.

-Onde está Thompson? Porque ainda estou vivo? - perguntei. Já sabia a resposta, mas ainda assim queria ouví-la, para que soubesse que tudo era realmente um sonho louco e que a loucura tinha chegado ao limite. Mas não houve resposta. Em vez disso ele continou falando, como um louco faria.

-Eu não poderia ser padre, sabe? Eu abandonei o celibato muitos anos antes desse mundo acabar. Não suportava ter que fingir que minhas orações eram ouvidas e ainda fazer pessoas acreditarem nisso. Eu queria queria trepar até explodir, com o máximo de mulheres que pudesse. Queria fumar até meu pulmão atrofiar. Queria beber até meu fígado ser diluído pelo álcool. Queria que o mundo acabasse... - fez uma pausa e admirou o mundo à sua volta, como se tudo aquilo fosse obra sua, e então continuou. - E ele acabou, realmente acabou. E foi então que eu soube que precisava voltar atrás, porque tudo era possível. E cá estou eu, redmindo-me dos meus pecados enquanto ainda há tempo. Pregando os ensinamentos de Deus àqueles que querem aprender e punindo aqueles que não aprendem.

-Eu... acho que já vou indo, sabe... - Levantei e dei alguns passo em direção aos degraus que desciam para o jardim. Estava decido a sair dali e ignorar o que aquele louco dizia, mas uma voz se sobrepôs à dele e fui obrigado a parar.

-Nuke, espere.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

30. Apostas

Podia ser pior, muito pior, repetia para mim mesmo, pessoas morrem por muito menos e você está vivo. Mas deitado naquele chão frio e úmido eu pensava que não me importaria de estar morto. Eu vivia apenas como um espectador, admirando as formas inimagináveis como a vida, a sociedade e a natureza se equilibravam precariamente naquele mundo louco e sem futuro. A luz da lua se espremia por uma pequena abertura na parede, era fatiada por duas barras de ferro verticais e morria no corredor de pedra entre as celas. O cheiro de sangue seco, de fezes e de urina infestava o ambiente, o andar dos ratos e camundongos criava uma trilha sonora não muito promissora, enquanto o guarda checava de hora em hora os prisioneiros das celas.

Quando eu e Thompson fomos jogados naquele buraco consegui contar 12 prisioneiros ao todo, mas no dia seguinte dois foram levados embora, e pudemos ouvir os gritos de perdão e desespero enquanto a lâmina da guilhotina ainda não os havia calado. Ficamos cerca de uma semana enfiados na escuridão, comendo pão mofado e duro, água suja - com urina e cuspe - e fazendo nossas necessidades em qualquer canto. Mas então, quando eu finalmente estava me acostumando com o cheiro de minha própria merda e de acordar com as mordidas dos ratos pela manhã, a porta se abriu e era nossa vez de irmos embora dali. Lembro de ter ouvido outros dois prisioneiros serem tirados de lá, mas depois de passarmos pela porta enfiaram sacos em nossas cabeças, e não vi mais nada.

Levaram-nos vendados pelas ruas da cidade, desfilando nossos corpos atrofiados para os compradores e comerciantes, de modo que servíssemos de exemplo para todos. Toda semana pelo menos 2 prisioneiros eram mortos, e condenados nunca estavam em falta, por mais que se guilhotinassem pessoas em praça pública. A pobreza, a fome e o desespero eram sempre maiores que o medo de perder a cabeça, logo haviam mais prisioneiros para morrer do que execuções por semana. Ouvi quando fomos trancados debaixo de um palanque de madeira, no qual a guilhotina ficava, enquanto ouvíamos a missa que acontecia todo domingo e que era ministrada pelo Padre-sherife de Tradeport. Não ouvi quase nada do que era falado, mas percebi que muitas pessoas acompanhavam aquelas missas, pois os longos sermões eram interrompidos por cantos e preces entoados por muitas vozes. Quando a cerimonia finalmente acabou sabíamos que tinha chegado nossa hora e pude ouvir Thompson soltar um gemido de amargura quando passos desceram do palanque e se aproximaram da porta onde estávamos.

-Hora de morrer. - Falou a voz grossa e inexpressiva do Sherife atrás de nós. - As apostas estão bem equilibradas. Qual de vocês dois irá sobreviver por mais tempo com a cabeça dentro de uma cesta? Quero uma graninha extra hoje.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

29. Festa

A noite caiu rápido. Arrumamos as poucas coisas que não vendemos ou que iríamos guardar em um trenó e pusemos toda a bebida e os cigarros no outro. Empurramos os veículos e os trenós pela pouca neve que se acumulava próxima às paredes das construções até chegarmos à casa onde disseram que poderíamos encontrar o Sherife. Havia muitos carros estacionados pela rua, música podia ser ouvida vinda da casa, luzes iluminavam o jardim arruinado enquanto sombras eram projetadas para fora das janelas conforme as pessoas lá dentro conversavam e dançavam animadamente. Fumaça saía pela chaminé e o cheiro de comida que se espalhava pelo ar era convidativo. Nos aproximamos da porta da frente, arrastando o trenó com as coisas pedidas. Dois guardas se aproximaram, estavam armados e já estavam fedendo a álcool.

-O que vocês querem, forasteiros? Essa festa é reservada. Apenas moradores podem participar. -Disse um dos guardas, que mascava alguma coisa e fazia um som nojento com a boca. Sua barba estava por fazer e seus olhos lutavam para não trançarem sua visão embriagada.

-Desculpe incomodarmos. Nós trouxemos essa encomenda para o Sherife. Ele as comprou hoje a tarde. -Falei com a maior paciência que pude juntar.

-Nós só viemos trazer as coisas e já vamos embora. Apenas isso. -E Thompson pareceu fazer um grande esforço para dizer essas palavras com uma calma que ele não queria.

-Sei. -Continuou ele. -Vai me dizer que ele convidou vocês para a festa também?

-Exatamente. - E minha paciência continuava intacta. Mas o guarda parecia ansioso para encontrar um motivo para brigar e minha cortesia com as palavras parecia deixá-lo ainda mais irritado. Thompson não parecia tão inclinado à paciência, suas mãos estavam cerradas, se contorcendo para não avançar no guarda. E quando o segundo guarda começou a formular algo para dizer, uma voz à porta falou:

-Finalmente! Estou tendo que servir bebida feita na cidade para esses beberrões, - falou animado o padre-sherife, enquanto descia pela escada da varanda e vinha nos recepcionar - e, tenho que admitir, ela não é lá muito boa! Trouxeram aquelas revistas? - Falou para Thompson, que ascentiu com a cabeça. - Então dê uma a esses dois e tragam essas coisas todas para dentro. Vamos animar essa festa!

Os guardas não pareceram muito felizes em terem sido contrariádos, mas apreciaram bastante a revista pois, soubemos mais tarde, ficaram tão entretidos com as mulheres nuas que deixaram dois penetras passarem, e estes roubaram uma boa quantia de créditos de um dos moradores. Créditos eram o dinheiro local, fornecido aos mercadores que ali faziam trocas, não tinha nome nem valia fora da cidade, mas servia para facilitar a cobrança das taxas impostas pelo Sherife. Entramos na casa e logo duas pessoas recolheram nossa mercadoria e levaram-na para um pequeno bar, montado no canto da sala de visitas, onde pelo menos 30 pessoas se amontoavam. Os cigarros fizeram sucesso, e logo havia uma cortina de fumaça impestiando o ar, as bebidas foram servidas e todos se divertiam. As revistas, que circulavam rapidamente de mão-em-mão, eram tratadas com cuidado extremo, como se quem as pudesse tocar fosse privilegiado por isso. Imaginei que seria porque a maioria das pessoas ali fosse homem, e as poucas mulheres fossem velhas ou deformadas pela radiação, e isso fizesse sua masculinidade aflorar. Mas a verdade era que olhar para as fotos daquelas mulheres os fazia lembrar de suas próprias mulheres ou filhas, e a maioria sabia que, caso elas estivessem vivas, sem a proteção de um homem, ou teriam tido muita sorte ou estariam trabalhando como prostitutas para poderem sobreviver. Era triste pensar em tudo aquilo, mas, como sempre, meus pensamentos foram interrompidos:

-Peguem-nos! - Gritou um dos homens que servia bebida, enquanto erguia um homem que havia caído no chão. Ele esticou o braço e apontou para mim e Thompson, com um olhar de assombro e raiva no rosto. - Eles envenenaram as bebidas.

Por toda a volta uma chuva de álcool caiu quando todos os que bebiam cuspiram o que tinham na boca. Lembro-me de que todo o álcool que eu havia bebido e que turvava minha mente desapareceu instantâneamente, enquanto uma descarga de adrenalina se espalhava como um raio pelo meu corpo.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

28. O Sherife e o Padre

-Eu disse que conseguiríamos um lugar pra vender essas coisas! - exclamou Thompson, ao ver o tamanho do lugar.

E tínhamos dois trenós cheios. Havia uma boa quantidade de morteiros, sempre valiosos, já que se podia lançá-los com as mãos ou utilizá-los como explosivos. Conseguimos salvar um bom tanto de caixas de cigarro e pacotes de fumo, alguns charutos e até mesmo isqueiros intactos, todos com alto valor depois que quase desapareceram junto com a Explosão. Um único gole de whisky, fosse qual fosse a marca, poderia comprar um veículo, suprimentos, armas e munições, e nós tínhamos vários goles. Mas nosso maior tesouro eram duas dúzias de revistas, que não passariam de amontoados de folhas cobertas por uma capa mais resistente e presas com grampos, não fosse pelo que havia sido impresso nelas. Aquelas eram, muito provavelmente, os últimos exemplares de revistas pornográficas que deviam existir em centenas, talvez milhares, de quilômetros dali. E nós sabíamos disso.

Dois guardas nos escoltaram pelas ruas vazias até onde parecia ser o centro da cidade-mercado. Lembro-me de um deles ter nos avisado para ficarmos longe de problemas, mas eu sabia que eles viriam até mim de qualquer jeito, eu quisesse ou não. Revezamo-nos na guarda dos trenós a noite toda, temendo que alguém pudesse tentar tomar nossa carga, já que não tínhamos onde guardá-la. Foi uma noite longa, as sombras pareciam se mexer de modos impossíveis, um lobo uivava confiante na escuridão longínqua, nuvens de vapor subiam espiralando dos bueiros, enquanto Thompson roncava baixo em seu sono agitado. Horas depois o sol forçou alguns raios através da camada cinza que cobria os céus e a manhã chegou ainda mais fria que a noite, mas o ambiente não deixou der ser estranho. As pessoas logo começaram a andar pelas ruas, às centenas, comprando e vendendo, e um alvoroço de vozes e sons dominou todo o lugar. Mas ainda assim era algo estranho, algo novo. Guardas andavam disfarçados, vestidos como pessoas comuns, mas era possível ver os cacetetes saindo por debaixo do casacos, e a qualquer sinal de problemas eles os usavam com violência desmedida, para que servisse de lição aos demais, evitando novos conflitos.

Começamos a vender, logo confirmamos que nossos itens eram realmente valiosos, e assim acabaríamos mesmo ricos. Mas também tivemos problemas. Como vendíamos morteiros dois guardas ficavam constantemente ao lado de nossos trenós, para garantir que não fossemos usá-los, e aqueles que comprassem algum, só teriam a mercadoria ao saírem. Algumas pessoas, mais desconfiadas, perguntavam a origem de tanto armamento, e como nos recusávamos a responder, a fim de evitar problemas com simpatizantes dos Piratas, que com certeza deviam comercializar por ali também, começamos a receber olhares desconfiados. Mesmo assim vendemos todos os morteiros antes do final da tarde, e quando os guardas já estavam mandando todos recolherem as mercadorias, um homem se aproximou de nós e nos fez uma proposta:

-Eu compro toda a bebida que vocês tem aí. Compro os cigarros também - disse o homem, que não parecia ter mais que 40 anos. Tinha um olhar sério, porém amigável, cabelos curtos e bem arrumados, voz grossa e rosto duro. - Darei uma festa essa noite. Sei que são forasteiros, mas se trouxerem essas revistas aí, acho que podem conseguir se enturmar por aqui - o homem começou a se afastar, andando de costas, e então completou. - Vejo vocês mais tarde?

-Claro, claro! - balbuciou Thompson, fazendo um sinal de até logo com o braço. Depois olhou para mim e continuou. - Você viu as roupas que ele usava?

-Roupas de padre. Sim, eu vi. - E eu estava tão espantado quanto ele. - E você, viu a estrela de Sherife?

sábado, 17 de janeiro de 2009

27. Tradeport

Thompson não disse muito mais naquele dia. Seguimos pelo leito do rio, parando ocasionalmente para observar ou tirar água do joelho, e fizemos as refeições em movimento. Durante a noite sua única palavra foi acorde!, quando eu comecei a ultrapassá-lo e ele percebeu que eu havia travado o acelerador e estava coxilando sentando. O frio fazia nossas mãos e pés congelarem, e eu tinha quase certeza de que meu nariz já não sentiria mais cheiro algum, mas Thompson mantinha o mesmo sorriso bobo no rosto desde aquela manhã. Há uma cidade adiante, tinha dito ele antes de sairmos, a menos de um dia daqui. Mas a noite tinha me desanimado e comecei a achar que ele tinha se perdido outra vez, por mais difícil que seja se perder em um leito seco de rio.

Novamente eu estava errado e ele certo. Duas horas depois de anoitecer avistamos luzes acima da margem do rio, à nossa direita. A princípio pareciam dois faróis de carro, mas logo vimos que eram holofotes, colocados acima de duas torres de vigia. Uma trilha, cavada na terra e na neve e socada pela passagem de veículos dava acesso ao topo da margem, bem em frente às luzes. Thompson sorriu de orelha a orelha, e mesmo na escuridão pude ver o branco de seus dentes e sorri por dentro. Viramos os snowmobiles e os forçamos a subir pela encosta escorregadia. A trilha seguia um pouco mais adiante e para a direita, de modo que uma das torres estava de frente para a subida do rio. A outra estava mais além e vigiava uma segunda trilha, bem maior, que vinha seguindo pela margem. Chegamos ao topo e em poucos segundos o vigia nos avistou. O holofote era muito mais forte do que parecia, deixou-nos cegos por um longo tempo, de modo que quando perguntaram o que fazíamos ali durante a noite, respondemos de olhos fechados.

Todos sabem que não se viaja a noite, e que aqueles que o fazem ou são loucos ou bandidos. Na escuridão da noite, camuflados pelo inverno sem fim, apenas monstros e criaturas hostis caminham, e qualquer barulho é sinal de perigo. E aqueles vigias sabiam disso e estavam bem treinados para qualquer som estranho. Levamos cerca de vinte minutos para convencê-los a nos deixar entrar, e só conseguimos isso depois de mostrar a mercadoria que trazíamos e prometer um maço inteiro de cigarros a cada um deles. Thompson me explicou que aquela não era a cidade que ele conhecia, mas que já tinha ouvido falar dela. Era uma cidade-mercado, onde se podia comprar e vender quase tudo. Mas logo descobriríamos que era também um lugar para se arranjar encrenca fácil. Havia algumas casas e estalagens para viajantes, mas a maioria das construções era de depósitos e armazéns. O lugar era todo cercado com um muro de tijolos e concreto, que não era muito grosso, é verdade, e até mesmo um carro poderia derrubá-lo com certa facilidade, mas com certeza impedia que indesejáveis entrassem.

-Desçam dos veículos e deixem todas as armas que possuem conosco. Ninguém entra armado em Tradeport. Vocês pegam de volta quando saírem - cuspiu o vigia truculento, enquanto apontava um rifle para nós. Outros dois homens acompanhavam tudo de perto. Thompson pareceu um pouco relutante em deixar as armas que havíamos roubado dos Piratas com aqueles caras, mas eu estava mais preocupado com uma grande faixa pendurada logo acima do portão da cidade:
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SEJAM BEM-VINDOS À TRADEPORT
Taxa de venda: 20%
Taxa de compra: 5%

Ladrões serão guilhotinados
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-Você acha que eles falam sério? - cochichou Thompson, temendo que aquela pergunta pudesse ser motivo suficiente para arrancar-lhem a cabeça.

-Eu apostaria que sim - e apontei para o topo do muro, onde cinco ou seis cabeças estavam fincadas nas pontas de ferro que saiam dos tijolos.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

26. Thompson

Acordei com meu estômago aos berros. Corri para fora do esconderijo, cavei um buraco na neve e devolvi tudo o que havia dentro de mim ao mundo lá fora. Quando voltei percebi que Thompson já estava acordado havia algum tempo, e depois de ter arrumado tudo para partirmos, dava risada de mim.

-Pelo suor da sua testa, acho que aqueles espetinhos não lhe fizeram muito bem, não é?! Ou será que foi o refrigerante? - e soltou uma nova carga de risadas. - Não fique assim bravinho, garoto! Eu também não tive uma noite agradável com meu estômago...! Definitivamente não devíamos ter comido tanto, mas mesmo assim valeu a pena, eu não comia assim a duas décadas! Mas vamos esquecer isso, temos que partir logo. Trate de se arrumar.

Durantei a noite, pouco antes de dormir, tinha decidido que não mais sairia dali. Mas o nascer de um novo dia parecia ter mudado as coisas. E mudou. Thompson parecia especialmente animado em partir, e aquilo era incomum. Ele podia ser um homem sério e divertido ao mesmo tempo, sempre disposto a fazer uma piada, mas dificilmente mantinha um sorriso no rosto por muito tempo. Eu não o conhecia o bastante para saber se aquilo significava problemas, mas eu já tinha consciência de que, depois da Explosão, qualquer coisa fora do normal normalmente não era boa coisa.

-Thompson. Você parece animado. Diga-me, o que houve?

-Sabe, Nuke. Antes disso tudo acontecer - disse ele abrindo os braços -eu tinha uma família comum, uma casa simples, um emprego normal... Eu achava aquilo pouco pra mim. Eu tinha sonhos que gostaria de realizar, coisas que queria fazer, lugares pra conhecer. Eu merecia mais do que tinha, trabalhava mais do que recebia. Eu era feliz, porém queria mais para mim e minha família. Mas então aconteceu, as bombas vieram, e tudo mudou. Um flash, um tremor, uma nuvem de fumaça negra, e tudo tinha mudado - seus olhos estavam vidrados, mirando o horizonte que se espremia pela fenda do esconderijo. Ele não mexia um músculo, enquanto sua boca narrava sua história como um robô com vida própria. Seu corpo estava ali, mas sua mente o tinha levado ao passado do qual ele não queria ter saído.

-Eu... eu... - as palavras entalavam em minha garganta e se amontoavam sem se decidirem por sair.

-Sabe, depois daquele flash eu não tenho muita certeza do que aconteceu. Lembro-me de que minha mulher entrou correndo pela porta da cozinha, enquanto eu abraçava minha filha e nos jogávamos no chão. Em seguida portas e janelas foram arremessadas pra dentro e as vidraças viraram pó. Quando a onda de choque passou eu continuava abraçado a minha filha, minha mulher permanecia imóvel no chão, e uma poça de sangue se espalhava lentamente por entre os ladrilhos. Foram preciso três soldados para que eu largasse o corpo já frio de minha filha e entrasse no ônibus de evacuação.

-Eu... sinto muito... - gaguejei sem saber bem o que falar.

-Mas quando te conheci as coisas mudaram. Você tem o que? Vinte anos? Viajando sozinho por aí, sem rumo, sem destino, sem nada nem ninguém. E ainda assim não parece se importar. Continua andando, pra onde quer que os problemas te levem e as opções lhe permitam. Nunca ouvi sua história, mas também nunca o ouvi reclamar de nada. E por isso não vou reclamar também. Nuke, me diga uma coisa. Você é feliz?

Não respondi. Não porque não quisesse, mas porque não sabia a resposta.

sábado, 3 de janeiro de 2009

25. Sonhar e Caminhar

Era incrível como, em um mundo onde 98% da população tinha sido ceifada pelo fogo das bombas, se podia cruzar com pessoas quase todos os dias. E, não tão incrível assim, a chance de que essas pessoas quisessem te matar antes de perguntarem seu nome era de 98%. E por esse motivo, quando eu e Thompson avistamos a bandeira de caveira, estandarte dos Piratas da Neve, não esperamos que o velho vendedor de espetinhos - que nunca nos disse seu nome - recepcionasse os novos clientes. Subimos nos snowmobiles e partimos pela foz do rio, rumo ao sonhado esconderijo. Não falávamos quase nada, mas pensávamos bastante, e o temor de que os piratas pudessem estar nos caçando passou a ser um temor presente. As horas que se seguiram foram algumas das mais longas que já vivi. Meu coração batia com força, tentando escapar do peito e sair pela boca. Minha respiração parecia querer filtrar todo o ar do mundo. E minhas mãos apertavam forte o acelerador.

Quando finalmente chegamos ao esconderijo eu sequer percebi. Thompson precisou gritar muitas vezes até que eu saísse de um transe de pensamentos e desejos e o ouvisse. O esconderijo era em uma saliência na margem do rio. Entrava por cerca de 10 metros pela terra e estava coberta por tábuas de madeira e muita neve, praticamente soterrada e completamente camuflada. Efetivamente, Thompson havia passado desapercebido por ele, e levamos cerca de 2 horas até ele perceber o erro e achar o lugar correto. Mas eu soube disso apenas durante a noite, depois de uma grande vasilha de sopa e dois espetinhos de iguana. Eu me lembrava muito pouco da viajem até ali, mas os milhares de pensamentos e coisas imaginadas estavam frescos na memória. E foi com eles que eu sonhei pela primeira vez em muitos meses.

Sonhos nos mantém vivos. Eu sonhava bastante quando jovem. Na verdade, sonhava mais que vivia. Eu quase não dormia, mas para sonhar não era preciso dormir. Meu corpo seguia adiante por instinto, caminhando pelas colinas pintadas de branco, enquanto minha mente vagava por mundos mil. Acho que se não fosse capaz de sonhar, não seguiria adiante por esse mundo de sujeira e gelo, ainda que não tivesse um destino ou objetivo na caminhada. Os Escravizadores, o Rosa Radioativa, os Piratas da Neve, e todas as outras pessoas que passaram por minha curta vida desde minha fuga eram apenas curvas e desvios em minha caminhada infinita e sem rumo. Mas eles me faziam sonhar, imaginar, viver... e caminhar.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

24. Latinhas

-ESPETINHOS?

Comemos feito loucos. Ratos e iguanas assados são extremamente apetitosos, especialmente quando se está com fome e cansado. Sua carne é macia, saborosa e extremamente nutritiva. Nossas barrigas estavam a ponto de explodir quando decidimos parar de comer, mas o velho continuava nos empurrando mais e mais espetinhos apetitosos. Não conseguia imaginar como ele havia conseguido tanta comida, mas eu o louvava por isso.

-Senhor. Estamos mais que satisfeitos. Diga, quanto vai nos custar para pagar toda essa comida?

-Sobremesas? Claro, claro! Que cabeça a minha. Estão bem aqui, vou pegá-las!

Quando o homem saiu detrás da barraquinha e nos trouxe duas latas de refrigerante quase tivemos um enfarto. Aquilo tudo só podia ser uma miragem, alucinação ou coisa parecida. Latas de refrigerante eram mais difíceis de serem encontradas do que pessoas não afetadas pela radiação. E aquele cara tinha duas. E não parecia se importar em se desfazer delas. Thompson e eu nos entre olhamos e resolvemos que era melhor não perguntar.

-Bebe logo antes que ele queira de volta! - falou meio sorrindo, meio aconselhando. - Antes morrer tendo bebido um último refrigerante que ficar com vontade para a eternidade!

Verdade é que aquele foi meu primeiro refrigerante, mas preferi não dizer nada. Apreciei cada gota daquela bebida única. Seu cheiro doce fez olfato enlouquecer, enquanto suas pequenas bolhas espumantes dançavam em minha garganta e me faziam rir. Thompson me olhou com uma careta, provavelmente me achando um doido, mas eu estava me divertindo, e até o barulho da latinha abrindo tinha sido hilário. Estávamos quase acabando nosso banquete, completamente atordoados, quando o homem voltou a falar:

-Oba! Mais clientes!

E então nosso sangue congelou.