segunda-feira, 22 de agosto de 2011
107. Por do Sol
O gincho agudo e ameaçador do novo rato, quase o dobro do tamanho do outro, ecoou pelos cantos do estacionamento, retornando instantes depois, como se centenas de outros roedores estivessem respondendo ao chamado. Sem esperar para descobrir, enfiei uma bala na criatura asquerosa e pulei alguns degraus subindo a escada, sem nem ver o estrago causado. O primeiro roedor, assustado com o barulho e minha correria, fugiu escada acima, saiu pelo corredor e sumiu no saguão do prédio. Ignorando-o, torci para que os diabos o encontrassem na rua. A escada para o esconderijo de Passan estava a poucos passos dali. Peguei o rádio e chamei por Lisie. O aparelho chiou em resposta um pouco depois mas não houve resposta. Um instante mais e a voz suave de Lisie respondeu atrás de mim, fazendo-me pular de susto.
-Ê assustado! -brincou, com um risinho. Ela então se aproximou um pouco mais e pude sentir um cheiro suave de perfume que me arrepiou mais que o susto. -Venha, vamos descer, achei algumas peças e acho que podemos consertar a antena! -me puxando pelo braço seguimos ao alçapão. Agradeci à penumbra por esconder meu rosto vermelho de vergonha.
Passan rapidamente nos explicou como retirar as partes danificadas sem acabar de vez com o equipamento e como soldar as novas usando um antigo aparelho elétrico. Eu ainda atacava uma lata de carne em conservas quando partimos uma vez mais à cobertura do prédio. Lá, o vento continuava implacável, e parecia estar se esforçando para nos jogar fora do prédio. Sem Lisie para bloquear o vento, provavelmente não teria conseguido evitar que as minúsculas peças eletrônicas fossem levadas embora pelas rajadas geladas, quando minhas mãos trêmulas de frio as derrubaram incontáveis vezes. Levamos cerca de cinco horas para trocar todas as peças, parando de tempos em tempos para aqueçer os dedos congelados e comer alguma coisa. Já começava a anoitecer quando finalmente terminamos, e não houve sinal algum dos Deuses ou qualquer outra movimentação estranha por Bermil. Comecei a guardar minhas coisas, já imaginando-me tomando um banho quente e comendo uma comida gostosa, mas percebi o olhar triste de Lisie. Ela ainda pensava nos amigos, e aquela antena voltar a ser funcional era a oportunidade para que pudesse reencontrar parte deles. Abracei-a quando uma lágrima começou a escorrer de seus profundos olhos azuis. Ela me abraçou ainda mais forte, deitando seu rosto em meu peito. Respirávamos lentamente, em silêncio. O vento parara de soprar e o frio dera lugar a uma mormaço gostoso. No horizonte, por debaixo da infinitamente longa cama de nuvens, um sol tímido surgiu e pintou a cidade de vermelho com sua luz rubra.
Em uma fração de segundo Lisie colara seus lábios nos meus, o rádio gritava a voz de Passan, e um ponto negro surgia bem no meio do sol poente.
segunda-feira, 28 de março de 2011
106. Roedor
Mantive-me imóvel por um segundo. O som ecoou baixinho pelos confins do estacionamento e morreu na imensidão vazia. De olhar fixo na escuridão e coração acelerado, como se esperasse que um monstro pulasse das sombras e me arrancasse a cabeça, coloquei a lanterna sobre uma caixa e me afastei. Em completo silêncio me escondi atrás de outras caixas, mais ao fundo do depósito, onde apoiei meu fuzil AK-47 e preparei a mira. Esperei quase sem piscar que algo passasse pelo facho de luz. Vez em quando um ruído quase inaudível rompia o silêncio tangível do estacionamento, mas nada aparecia. Depois de alguns minutos a impaciência já começava a lutar com a adrenalina e o medo, a agonia aumentava a cada instante transformando o depósito em uma arapuca. Queria sair do esconderijo, pegar as peças que faltavam e retornar à companhia de Lisie e Passan, mas podia sentir que algo se movia na escuridão, sorrateiro. Com minha sorte, assim que deixasse o esconderijo daria de cara com o que quer que fosse.
O som abafado, como se algo pesado fosse largado ao chão, se repetiu ainda duas ou três vezes, mas nada cruzou ou entrou pela porta do depósito. Esperei ainda mais 10 ou 15 minutos, lutando com meus receios, mas já estava mais bravo e impaciente com a situação que temeroso. Mandei à merda a prevenção, deixei o abrigo das caixas e avancei rumo à entrada do lugar. Peguei minha lanterna e iluminei o exterior, em busca de algo diferente. Ao redor havia apenas os mesmos carros abandonados e suas manchas de sangue seco pelo estacionamento. A porta do elevador de serviço parecia intacta, com seu aço inoxidável corta-fogo resistindo à ação do tempo. Satisfeito, dei uma última vasculhada com o facho de luz e voltei para pegar as peças. Ajoelhei-me ao lado da pequena caixa de papelão que estava usando para colocar os componentes e recomecei a busca. Levei ainda cerca de 20 minutos até recolher tudo o que podia, mas ainda faltavam uma ou duas que não fui capaz de encontrar.
Minha cabeça latejava, meu pulmão reclamava da podridão do ar e meu cérebro parecia estar derretendo dentro do crânio. Quando pus o pé fora do depósito da rádio já conseguia me imaginar descendo a escada para o esconderijo de Passan. Infelizmente, como minha má sorte predizia, uma massa de pelos cinzento do tamanho de um gato acabou com o pensamento de descanso. Por pouco não deixei cair a caixa, e estivesse com a arma em punho provavelmente teria disparado por puro reflexo na hora do susto. Apoiado nas duas patas traseiras estava um dos maiores roedores que provavelmente já existiu. A criatura meio pelada meio peluda me encarava com seus olhinhos escuros enquanto roía um pedaço de papelão seguro pelas mãozinhas esqueléticas. Como se me analisasse, a pequena figura dentuça terminou sua refeição calmamente e pôs-se me circular, seguido pelo rabo magrelo quase tão grande quanto o corpanzil. Precedendo um ataque traiçoeiro acompanhei seus movimentos girando no lugar, mantendo-me sempre de frente. Depois de um círculo completo e meio, o roedor soltou um guincho assustado e correu desembestado pela escuridão do estacionamento. Confuso, dei um risinho para mim mesmo e balancei a cabeça. Contive minha curiosidade de segui-lo e desejei apenas que o que quer que rondasse por aquela escuridão, encontrasse de frente com esse rato.
Confiante do caminho a seguir, retornei à entrada do estacionamento rapidamente. Estava feliz em deixar para trás aquela catacumba de concreto e seus habitantes asquerosos. Pelo caminho ainda ouvi os ruídos e guinchos quase inaudíveis, mas agora sabia sua origem e não me incomodei em parar para olhar. Subia os primeiros degraus da escada que levava ao térreo quando levei outro susto. No topo do primeiro lance da escada estava novamente o monstruoso rato, que apoiado nas patas traseiras tinha a altura de meus joelhos. Fiquei a imaginar qual altura ele seria capaz de atingir em um único salto, e sem paciência para descobrir a resposta saquei minha pistola e apontei para o maldito. Mirei entre seus olhos, mas me detive por um instante, vendo sua curiosidade ser aguçada por meus movimentos. E nesse momento de indecisão ouvi o som que originou todos os temores da última hora se repetir agourento atrás de mim.
Minha cabeça latejava, meu pulmão reclamava da podridão do ar e meu cérebro parecia estar derretendo dentro do crânio. Quando pus o pé fora do depósito da rádio já conseguia me imaginar descendo a escada para o esconderijo de Passan. Infelizmente, como minha má sorte predizia, uma massa de pelos cinzento do tamanho de um gato acabou com o pensamento de descanso. Por pouco não deixei cair a caixa, e estivesse com a arma em punho provavelmente teria disparado por puro reflexo na hora do susto. Apoiado nas duas patas traseiras estava um dos maiores roedores que provavelmente já existiu. A criatura meio pelada meio peluda me encarava com seus olhinhos escuros enquanto roía um pedaço de papelão seguro pelas mãozinhas esqueléticas. Como se me analisasse, a pequena figura dentuça terminou sua refeição calmamente e pôs-se me circular, seguido pelo rabo magrelo quase tão grande quanto o corpanzil. Precedendo um ataque traiçoeiro acompanhei seus movimentos girando no lugar, mantendo-me sempre de frente. Depois de um círculo completo e meio, o roedor soltou um guincho assustado e correu desembestado pela escuridão do estacionamento. Confuso, dei um risinho para mim mesmo e balancei a cabeça. Contive minha curiosidade de segui-lo e desejei apenas que o que quer que rondasse por aquela escuridão, encontrasse de frente com esse rato.
Confiante do caminho a seguir, retornei à entrada do estacionamento rapidamente. Estava feliz em deixar para trás aquela catacumba de concreto e seus habitantes asquerosos. Pelo caminho ainda ouvi os ruídos e guinchos quase inaudíveis, mas agora sabia sua origem e não me incomodei em parar para olhar. Subia os primeiros degraus da escada que levava ao térreo quando levei outro susto. No topo do primeiro lance da escada estava novamente o monstruoso rato, que apoiado nas patas traseiras tinha a altura de meus joelhos. Fiquei a imaginar qual altura ele seria capaz de atingir em um único salto, e sem paciência para descobrir a resposta saquei minha pistola e apontei para o maldito. Mirei entre seus olhos, mas me detive por um instante, vendo sua curiosidade ser aguçada por meus movimentos. E nesse momento de indecisão ouvi o som que originou todos os temores da última hora se repetir agourento atrás de mim.
segunda-feira, 21 de março de 2011
105. Estacionamento
Eu tentava colocar corretamente o telescópio em sua base, descontando minha frustração em grandes colheradas de sopa, quando Passan veio com a notícia: outro passeio no frio assassino. Dei uma risada meio irônica, aceitando o fardo, e pus-me a arrumar a mochila às costas. Lisie também pegou a sua e deixamos a segurança e o calor do abrigo. Dessa vez, ao menos, sabíamos o que procurar. A emissora de rádio que um dia operara através daquela antena provavelmente tinha peças de reposição em algum lugar, bastava encontrá-las. E depois de Passan vasculhar em alguns arquivos antigos conseguimos ter uma idéia melhor de quais andares poderiam contê-las.
Nos despedimos com um longo abraço e desejos de sorte. Lisie seguiu rumo aos andares superiores, em busca das peças diretamente na antiga rádio. Já eu me aventurei por quatro ou cinco andares de estacionamentos subterrâneos, em busca de algum depósito, armazém ou coisa parecida. Levávamos um rádio cada, mas o meu deixou de funcionar pouco depois de descer a escada para o primeiro subsolo. Não me importei na hora, já que estava acostumado a estar sozinho e em lugares escuros, mas em pouco tempo comecei a me sentir desconfortável lá em baixo. Apenas minha lanterna cortava a escuridão e meus passos quebravam o silêncio sepulcral. E apesar de haver pouca ou nenhuma circulação de ar, o lugar era tão ou mais frio que o lado de fora do prédio. O ambiente era extremamente pesado e sombrio, enquanto o ar parecia já ter sido respirado completamente incontáveis vezes. Pra finalizar, um cheiro de podridão e mofo impregnava o nariz e fazia doer minha cabeça.
Acelerei o passo, decidido a encontrar logo onde as empresas e lojas do prédio mantinham seus depósitos. Andava próximo à parede, em busca de alguma indicação que me dissesse para onde seguir, mas todas as placas e pinturas estavam arruinadas pela água que escorria lentamente pelas paredes, tornando o lugar um enorme labirinto de colunas e veículos abandonados. Destes últimos havia muitos, de todos os tipos e tamanhos. Alguns estavam batidos contra paredes e postes, outros tinham sua lataria e para brisas alvejados, com marcas escuras de sangue salpicadas no vidro e no chão, vários haviam ardido em chamas até restar apenas a carcaça, enquanto uns poucos pareciam intocados, a não ser pela umidade e pelo tempo. Em nenhum dos que me desviei pelo caminho havia corpo ou vestígio humano além de sangue seco e objetos abandonados. Se alguém havia morrido ali, e estava muito claro de ter ocorrido, estranhamente não havia mais nada para contar a história.
Finalmente, depois de andar a esmo na imensidão escura por quase meia hora, encontrei a porta do elevador de serviço. Perto dali, grandes portas de grade se espalhavam igualmente pela parede. A maioria ainda tinha o símbolo da empresa dona do depósito pintado no metal, o que facilitou muito a busca pela rádio Digital Global, com seu logotipo de uma antena parabólica com desenhos de continentes. Houve, anos antes, cadeados enormes mantendo trancadas as portas, mas todos haviam sido arrombados e os interiores dos depósitos saqueados. O da rádio tinha sua porta aberta apenas parcialmente, e seu interior estava quase tão arrasado quanto as ruas de Bermil. Peças eletrônicas, cabos e equipamentos estavam espalhados pelo chão num caos completo. Pela quantidade de coisas, eu sabia que provavelmente todas as peças de que precisávamos estariam ali, mas encontrá-las já seria trabalhoso o bastante se tudo estivesse organizado, naquele estado então seria praticamente impossível. Provavelmente teria resistido a sair do abrigo se soubesse com antecedência do que me aguardava, mas estando ali, só conseguia pensar em encontrar as peças logo e deixar aquele lugar asqueroso e fétido.
Ainda faltava pouco mais da metade das peças a ser encontrada quando, como se meus sentidos já estivessem acostumados a coisas estranhas acontecendo perto de mim, olhei para trás, para a escuridão que me cercava. Um barulho súbito e abafado ecoou pela imensidão vazia do estacionamento um instante depois.
quinta-feira, 10 de março de 2011
104. Peças Sobressalentes
Voltar lá para cima não foi agradável. Eu não estava completamente recuperado, e o vento parecia ainda mais gélido e cortante que antes, como se soubesse que quase me vencera na noite anterior e quisesse terminar o serviço. Eu tinha roupas mais adequadas dessa vez, e um estoque de barras de cereais -vencidas fazia dez ou quinze anos, mas intactas no sabor- para não haver surpresas. Minha mochila também estava às costas, com meus pertences de viagem, por garantia. Levava ainda o rádio e uma mini-câmera, para filmar o painel avariado.
Não foi difícil encontrar onde estava o problema. Logo de cara, a tampa de ferro que deveria proteger o painel do mundo exterior estava aberta, batendo com o vento. O painel de transmissão estava bastante danificado, com neve e ferrugem em praticamente todos os componentes eletrônicos. Mas não parecia estar faltando nada. Filmei minuciosamente cada detalhe com a câmera e parti de volta para o abrigo. Antes de descer o primeiro lance de escadas, porém, dei uma última olhada ao redor. No fundo, tinha esperanças de ver o helicóptero dos Deuses partindo ao longe para não mais voltar, mas sabia que minha sorte não era tão boa assim.
Durante a descida encontrei com Lisie, que havia tirado uma folga de cuidar de mim e do filhote de Diabo, e estava explorando um dos andares do prédio, seguindo recomendações de Passan. Ela voltava com uma caixa abarrotada de inúmeras peças e componentes eletrônicos dos mais variados tipos e tamanhos, e pendurada às costas estava um tubo revestido de couro preto de mais de um palmo de grossura e um metro e meio de comprimento. Pensei em lhe perguntar do que se tratava o curioso objeto, mas sua animação em narrar sobre como éramos afortunados de encontrar tantas peças assim tão facilmente me fez esquecer o assunto.
No interior do abrigo, enquanto me servia de mais um tanto de sopa quente, Lisie e Passan analisavam cuidadosamente cada segundo das imagens que eu havia feito. Procuravam por quais peças poderiam estar quebradas, e dentre elas quais poderiam ser trocadas pelas que Lisie encontrara. Mas a animação dos dois foi diminuindo rapidamente, enquanto praticamente nada do que tínhamos seria de serventia. Tentei me distrair olhando o Diabinho choramingar dentro da caixa, balançando o corpinho de um lado para o outro sem sair do lugar, mas não conseguia deixar de pensar em um meio de consertar a antena. Foi então que percebi, no chão ao lado da caixa, o tubo que Lisie trouxera.
-Lis, o que é esse tubo que você trouxe? -perguntei, tentando fazê-los parar de resmungar e praguejar a cada peça não encontrada.
-O que? -demorou ela a processar minha perguntar. -Ah, isso? Um telescópio, eu acho.
sábado, 5 de março de 2011
103. Opções
-Três meses.
-Mesmo com todos os recursos que os Deuses dispõem, eles levaram três meses para encontrar o local da queda? -me surpreendi. -Tem algo errado aí, só pode!
-Queria poder fazer algo a respeito... -choramingou Lisie, inspirando fundo -pelos meus companheiros do RR.
-Vocês não tentaram contatar outras unidades do RR? Talvez eles possam ajudar.
-Eu queria ter tentado, mas a antena no topo do prédio foi avariada alguns anos atrás, segundo Passan.
-Infelizmente é isso mesmo -completou Passan, entrando no dormitório com outro prato de caldo fumegante. -Desde o fim da guerra eu vinha transmitindo, para quem pudesse e quisesse ouvir, as músicas que encontrei no music-player em meu passeio pela cidade, mas alguns anos atrás uma tempestade destruiu a caixa de transmissão na base da antena.
-Ao meu ver, temos algumas opções. Podemos consertar a antena, pedir ajuda ao exército de Amrak, investigar por nós mesmos ou simplesmente ignorarmos tudo isso e deixarmos que eles sem matem.
Pouco depois me arrependi de ter dado as opções e continuado com aquela história. Eu sabia que o exército de Amrak não faria o menor esforço em nos ajudar. Pelo contrário, dar essa informação a eles seria adicionar mais uma variável à equação já bastante complicada. Até minha saída das forças armadas da cidade de Amrak eles aparentemente nada sabiam sobre a queda de tal aeronave, e não seria eu a lhes contar. Deixar a história de lado também parecia fora de cogitação, segundo o olhar triste de Lisie. E como eu não estava para missões suicidas, apesar das inúmeras besteiras e situações de riscos que já me colocara antes, investigarmos por nós mesmos estava fora da minha lista. Restava apenas dar um jeito na antena, e torcer para que ela nos colocasse em contato com o resto dos rebeldes do Rosa Radioativa. Mas obviamente não seria assim tão simples:
-Passan, você sabe exatamente o que há de errado com o transmissor e onde conseguimos peças de troca?
-Nem um nem outro. Depois que a passagem pelas escadas foram fechadas nunca mais subi lá. Quando a antena parou de funcionar, tentei fazer o possível remotamente, mas não houve meio. Parei de fazer as transmissões, e desde então só consigo recebê-las. Lisie foi lá em cima olhar para mim, uns tempos atrás, mas não conseguiu identificar o problema.
-Sei... -e respirei fundo, sabendo que outro passeio ao terraço me aguardava.
-Talvez haja peças para troca aqui mesmo no prédio! -tentou ser otimista, enxugando as lágrimas do rosto e sorrindo para mim.
-Sei... -repeti, e comecei a me preparar mentalmente.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
102. Ataque ao RR
Estávamos com sorte, pensamos. Uma de nossas patrulhas levou apenas três dias para encontrar o local da queda, em uma das barreiras de contenção de um dos rios que corta Nova Bermil. Ao fim da tarde estávamos a cerca de dez quadras do impacto, e até ali nenhum sinal dos Deuses ou de qualquer gangue. Mas então a coisa toda aconteceu. Mal o primeiro carro chegou ao topo da ladeira que nos levaria à parte baixa da cidade a rua inteira explodiu. Os dois primeiros veículos sumiram na bola de fogo. O terceiro foi arremessado sobre o que eu estava. Me encolhi no banco traseiro o máximo que pude para escapar, mas os outros não tiveram a mesma sorte. Mal tive tempo de pensar no que fazer a seguir. Senti o veículo que vinha logo atrás atingir o meu e, em meio ao cheiro de combustível que vazava, uma chuva de disparos atingiu-nos de todos os lados. Abri a porta da caminhonete aos chutes e corri para dentro de uma casa. Um segundo depois o veículo irrompeu em chamas, e enquanto eu começava minha fuga por entre entre os escombros ele finalmente explodiu.
Nos primeiros quarteirões ainda podia ouvir os zumbidos e estampidos dos disparos com clareza, mas logo eles ficaram distantes e cessaram. Não sei por quanto tempo corri, mas parei apenas quando a noite caiu. Ainda tinha minha arma, pendurada na bandoleira, mas a mochila tinha se perdido junto com a caminhonete. Tinha apenas dois carregadores de munição, uma ração de viagem e uma pequena lanterna comigo, presos ao cinto. Subi ao segundo andar de um antigo sobrado e derrubei as escoras que mantinham a escada de pé. Passei ali aquela primeira noite em Bermil, assistindo de longe o fogo que consumia os veículos do Rosa Radioativa e atraia os Diabos como moscas. Chorando em silêncio passei a noite acordada, e aos primeiros sinais de claridade pulei para a rua e comecei a vagar pelas ruas da cidade. Fazia muito tempo desde a última vez em que tinha ficado sozinha por minha própria conta. Já estava acostumada a ter outras pessoas por perto, para me ajudar e apoiar, e então, de uma hora para outra, estava completamente sozinha outra vez.
Por duas vezes tentei abater um Diabo durante a noite para que tivesse algo para comer, mas assim que um caia morto, os outros se amontoavam com ferocidade para devorar a carne magra. E então, três dias depois do ataque, com fome, cansada e sofrendo de hipotermia, cheguei a uma rua comprida tomada por prédios dos dois lados. De tão fraca, mal conseguia pensar, quanto mais andar, e tão logo entrei em uma casa a procura de abrigo para a noite, minhas forças me abandonaram e tudo ficou escuro. Quando acordei estava deitada em uma cama quente e confortável, podia sentir novamente meus dedos dos pés e das mãos, e no ar havia um delicioso cheiro de cozido. Sabia que estava segura, mas também sabia que as coisas não seriam mais as mesmas a partir dali.
-Passan te salvou, assim como salvou a mim -concluí a história, enxugando uma lágrima que lhe escorria pelo rosto.
-Eu queria apenas esquecer essa história toda, Nuke. Sua chegada veio me trazer forças para esquecer a perda e deixar o que houve de lado -confessou Lisie, entre soluços. -Mas agora essa coisa toda volta à tona. Se não foram os Deuses que nos atacaram aquele dia... não sei quem pode ter sido.
-Ou o porquê.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
101. Caldo Quente
A noite foi longa. Dentre as mais longas que já tinha vivido até então. A fome apertava o estômago e me fazia desejar os pedaços de carne de rato seca que muitas vezes comi. Sem vestimentas adequadas, o frio entrava pela roupa e congelava meu corpo pouco a pouco. As horas se arrastaram agoniantes, e às primeiras luzes do amanhecer meu corpo tremia incontrolavelmente. Ouvi os soldados saírem para a rua e retomarem os reparos no blindado assim que o último uivo dos Diabos cessou. Tentei levantar, mas meus braços pareciam grudados em volta dos joelhos, que por sua vez congelaram um ao outro. Controlando os músculos e contendo a tremedeira me forcei a levantar e caminhar ao corredor. Com ainda mais esforço retirei a barricada de mesas e cadeiras do caminho e arrastei os pés até a escada.
Sem sequer lembrar de me preocupar com a presença de algum soldado, desci as escadas. Tamanho frio sentia, mal reparei nas marcas dos ganchos que haviam usado para acessar o primeiro andar. Me espremi pelo vão no topo de destroços que bloqueavam o acesso da escada e me estatelei no chão abaixo. Depois, literalmente, engatinhei rumo ao alçapão. Pensava em como fazer meu corpo sobreviver à queda pelo buraco do esconderijo, já que meus braços não aguentariam me descer pelos degraus da escada, quando o alçapão se abriu e um par de mãos me puxou para dentro. Quando me dei conta estava deitado em uma das camas do dormitório, coberto da cabeça aos pés com cobertores, enquanto Lisie me servia um caldo quente ralo, porém revigorante. Me lembro de ter apagado e acordado algumas vezes ao longo do dia, e em todas elas Lisie estava sentada ao lado da cama, massageando minhas mãos e pés.
Não me lembro quanto tempo levei para me recuperar completamente. Por dias ainda teria tremeliques esporádicos e calafrios, mas assim que recobrei de vez a consciência imediatamente comecei a falar, narrando o que havia visto. Lisie esboçou um sorriso, e colocando o indicador em meus lábios, me fez calar.
-Nós sabemos, Nuke. Vimos pelas câmeras. Tentamos te avisar, mas... -seus olhos se encheram de lágrimas e sua respiração pessou. -Eu devia ter contado antes, mas... achei que eles tinham desistido, que tinham ido embora. E eu só queria esquecer.
-Eles quem? Desistido do que? Esquecer o que? -perguntei, surpreso. Mas novamente Lisie me fez calar.
-Esses homens são os Deuses. Um exército que age, segundo eles, sob as ordens do Governo. Ou do que restou dele. Mas na verdade são gafanhotos, roubando e matando aqueles quem se metem em seu caminho.
-Eu sei, conheço eles. Eles... -comecei, mas uma lágrima caiu de seus olhos azuis e escorreu pelo rosto alvo como a neve, e minhas palavras se perderam em sua tristeza.
-Minha unidade do Rosa estava pela região -começou, com a voz engasgada e os lábios trêmulos -quando uma luz iluminou as nuvens, cruzou os céus e caiu sobre Bermil. A princípio achamos que fosse apenas a queda de algum avião que alguém havia tentado fazer voar, mas logo percebemos que o rastro deixado não era de um motor normal. Corremos para a cidade o mais rápido possível, em busca do ponto de impacto. Aeronaves são raríssimas hoje em dia, ainda mais voando, e não por isso não podíamos ignorar o acontecimento.
-Mas então alguma coisa deu errada... -concluí.
Outra lágrima escorreu quando Lisie confirmou com a cabeça.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
100. Dormente
Uma descarga de adrenalina percorreu todo meu corpo, arrepiando os pelos do braço. Meu braço estremeceu e meus dedos se contraíram. Num esforço em conter o impulso, estiquei o polegar para a frente e evitei bem a tempo o disparo. Os soldados invadiram a sala segundos depois. Mal podia contá-los enquanto entravam pela porta, gritando ordens uns aos outros. O líder, um homem enorme e truculento, com o lado esquerdo do peito repleto de medalhas e insígnias, se aproximou do soldado imóvel. Eu ainda o mirava, mas sequer respirava, com medo de ser encontrado a poucos metros dali.
-SOLDADO! PELO AMOR DA PUTA QUE TE PARIU, MAS QUE BUCETA CANCEROSA QUE VOCÊ ACHA QUE ESTÁ FAZENDO? -gritou o homem, já sem a máscara, a plenos pulmões.
-Des-desculpe, senhor! E-eu... -gaguejou o soldado amedrontado.
-SENHOR. DESCULPE, SENHOR! -corrigiu o líder, fazendo as medalhas chacoalharem no uniforme.
-Sen-senhor. Des-desculpe senhor! E-eu...
-DESCULPA O CARALHO! SAIA DA MINHA FRENTE AGORA -e berrou ainda mais a última palavra- OU O PRÓXIMO DISPARO DESSA ARMA VAI SER NA SUA CABEÇA! VAMOS, SUMA!
-Senhor. Sim, senhor -concluiu o soldado, arrasado.
Cabisbaixo e ainda tremendo, o soldado saiu apressado. Os demais permaneceram imóveis, de armas em punho, voltados ao seu líder. Ele encarou cada um dos seus por alguns instantes, com raiva transbordando do rosto vermelho, colocou de volta a máscara e saiu sem dizer palavra. Sem jeito, os soldados o seguiram, sumindo na escuridão do corredor. Pensei em levantar, mas preferi aguentar as cãibras nas pernas e nos braços por mais algum tempo e esperei. Apenas quando os ouvi montando uma barricada com mesas e cadeiras para barrar o vento é que deixei o abrigo e saí de perto das janelas. Procurei um canto protegido e comecei a massagear meus pés, dormentes por causa do frio e do vento.
Demorou quase meia hora até que voltasse a sentir a ponta dos dedos dos pés. Com fome e frio, até meu cérebro começava a diminuir o ritmo. Eu podia ouvir as vozes abafadas dos soldados em salas do outro lado do andar, mas entender o que diziam era impossível. Tentei me manter focado, para que o sono não viesse. Se dormisse ali, sem uma fonte de calor ou proteção contra o vento, morreria congelado durante o sono sem ao menos perceber. Lembrei-me então da transmissão que o helicóptero havia feito e que o rádio do soldado tinha captado. Aumentei o volume do meu aparelho e comecei a ouvir, atento. Mas hoje, o que lembro de ter ouvido aquele dia, é apenas:
-Repito. Local da queda encontrado. Local da queda encontrado.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
99. Na Mira
Mal dava para ver o caminho, tão escuro estava. Acendi a lanterna, mas mantive sua luz apontada para baixo, para que seu facho não me traísse. Pouco me importei com os chutes e tropeções nas coisas que estavam quase invisíveis nos corredores escuros, queria apenas chegar ao alçapão no andar de baixo. Os soldados só poderiam ter se escondido na entrada do esconderijo, e ajudar Lisie e Passan era tudo que conseguia pensar. Corri o mais rápido que pude até a porta de emergência e já pensava no que fazer depois quando vi outros fachos de luz.
Subindo do térreo, pela escada externa, luzes de lanternas cortavam a escuridão e se projetavam para cima. Parei de correr de imediato, deslizando alguns centímetros na poeira e na neve. Abri os braços procurando equilíbrio, e assim como parei, voltei a correr no sentido oposto. Já não me importava esconder a luz, apenas fugir o mais rápido possível. Podia ouvir a voz dos soldados conversando entre si enquanto avançavam pelos degraus. E mal tive tempo de chegar à sala na fachada do prédio quando na outra ponta do corredor suas silhuetas apareceram à porta.
Um facho de luz iluminou todo o corredor e parte da sala onde eu estava. Alguém gritou uma pergunta, mas não houve resposta, e depois a luz se apagou. Voltei à janela de onde a pouco os tinha observado e esperei. Tinha esperanças de que continuassem subindo, a procura de um lugar para ficarem, mas não confiava em minha sorte. Conferi minha arma, deitei entre algumas mesas jogadas e mirei a porta. Meu pé direito estava para fora do prédio, pelo vão onde a janela que ia do chão ao teto estivera. Dali, eram pelo menos cinco metros de queda até a escadaria de entrada.
Como eu temia, a movimentação dos soldados continuou pelo andar. Os focos de luz iam e vinham, cruzando a porta de entrada. Não demorou mais que dois ou três minutos até que um deles entrasse para revistar a ampla sala onde eu estava. Acompanhei-o com a mira. Sabia que se dependesse deles atirariam primeiro e perguntariam depois. Então seria eu a atiraria sem hesitar. O homem havia tirado o capuz branco que cobria a cabeça, mas mantinha a máscara ocultando-lhe a face. Sua respiração era ruidosa através do filtro de ar, seu ritmo lento e compassado dava calafrios ainda maiores que o vento gelado que entrava da rua. Mas mantive-me focado, expulsando da mente todos os pensamentos. E quando os passos puderam ser ouvidos logo adiante, coloquei o dedo no gatilho e prendi a respiração.
-Águia para Raposa, na escuta? -gritou o rádio, acompanhando o disparo.
Subindo do térreo, pela escada externa, luzes de lanternas cortavam a escuridão e se projetavam para cima. Parei de correr de imediato, deslizando alguns centímetros na poeira e na neve. Abri os braços procurando equilíbrio, e assim como parei, voltei a correr no sentido oposto. Já não me importava esconder a luz, apenas fugir o mais rápido possível. Podia ouvir a voz dos soldados conversando entre si enquanto avançavam pelos degraus. E mal tive tempo de chegar à sala na fachada do prédio quando na outra ponta do corredor suas silhuetas apareceram à porta.
Um facho de luz iluminou todo o corredor e parte da sala onde eu estava. Alguém gritou uma pergunta, mas não houve resposta, e depois a luz se apagou. Voltei à janela de onde a pouco os tinha observado e esperei. Tinha esperanças de que continuassem subindo, a procura de um lugar para ficarem, mas não confiava em minha sorte. Conferi minha arma, deitei entre algumas mesas jogadas e mirei a porta. Meu pé direito estava para fora do prédio, pelo vão onde a janela que ia do chão ao teto estivera. Dali, eram pelo menos cinco metros de queda até a escadaria de entrada.
Como eu temia, a movimentação dos soldados continuou pelo andar. Os focos de luz iam e vinham, cruzando a porta de entrada. Não demorou mais que dois ou três minutos até que um deles entrasse para revistar a ampla sala onde eu estava. Acompanhei-o com a mira. Sabia que se dependesse deles atirariam primeiro e perguntariam depois. Então seria eu a atiraria sem hesitar. O homem havia tirado o capuz branco que cobria a cabeça, mas mantinha a máscara ocultando-lhe a face. Sua respiração era ruidosa através do filtro de ar, seu ritmo lento e compassado dava calafrios ainda maiores que o vento gelado que entrava da rua. Mas mantive-me focado, expulsando da mente todos os pensamentos. E quando os passos puderam ser ouvidos logo adiante, coloquei o dedo no gatilho e prendi a respiração.
-Águia para Raposa, na escuta? -gritou o rádio, acompanhando o disparo.
domingo, 30 de janeiro de 2011
98. Escondidos
Desci até o primeiro andar do prédio o mais rápido que pude. Caminhei em completo silêncio corredores de escritórios arruinados até a fachada do prédio, de onde podia observar o blindado parado na rua, cinco ou seis metros abaixo. Os soldados que tentavam colocá-lo em funcionamento haviam interrompido o serviço e agora terminavam de recolher suas ferramentas. Os outros não podiam ser vistos, mas pelas vozes que ecoavam do hall de entrada pude perceber que haviam outros ali, esperando no topo da escadaria que subia da rua. Alguém gritava ordens, mas o vento forte e meu coração disparado abafavam as vozes e me impediam de entender com clareza o que planejavam. Estava óbvio, infelizmente, que não passariam a noite no blindado.
Os uivos e grunhidos dos diabos aumentavam rapidamente, a medida que todos deixavam suas tocas em busca de presas desavisadas pela cidade. Os soldados, por sua vez, pararam de falar subitamente. Eu não podia ouvir, mas podia imaginar o desespero crescente naqueles homens com a aproximação de tais criaturas. Fiquei esperando, torcendo para que corressem ao blindado assim que os primeiros diabos entrassem pela porta e avançassem por sua carne, mas duvidava que fossem tão inexperientes a ponto de não conhecerem os perigos de se passar uma noite desprotegido nem Bermil. Aqueles não eram soldados de Amrak, com certeza, mas tampouco eram burros.
Logo os diabos vieram, às centenas, com seus dentes pontudos e sua pele esticada sobre os ossos. Saltavam e rosnavam, mordendo uns aos outros em um frenesi sanguinário. Muitos entraram no prédio desembestados, provavelmente procurando novos corpos para um banquete fácil, mas em poucos minutos todos tinham saido sem sucesso. Nem um único disparo foi dado, ou ao menos não pode ser ouvido, e isso só poderia significar que os diabos não haviam encontrado os soldados. Tentei me lembrar de um lugar onde aqueles homens pudessem ter se escondido, mas todas as portas do térreo haviam sido arrancadas muito tempo atrás, e não havia material nem tempo suficiente para que uma barreira fosse construída de modo a isolá-los em algum cômodo.
Ou eles haviam sumido, ou ainda estavam por ali em algum lugar. E quando esse lugar me veio à mente...
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
97. Angústia
Recostado no parapeito, podia sentir meu coração bater forte no peito. Não fosse pelos óculos, meus olhos congelariam, tão abertos estavam, enquanto minha mente pensava em milhares de possibilidades ao mesmo tempo.
-Lobo para Águia -chiou o rádio, com uma voz desconhecida e diferente das anteriores. Para meu alívio. -Estamos retornando. Câmbio e desligo.
Tentei me tranquilizar, convencendo a mim mesmo de que Passan tinha suas câmeras espalhadas, e que provavelmente sabia antes mesmo de mim da presença dos soldados. Mas ainda me preocupava que pudessem empreender uma busca mais detalhada ao encontrar os vestígios dos dias anteriores no interior do prédio. Os Diabos tinham se refestelado com os corpos dos caçadores, mas em troca haviam deixado sangue espalhado por todo o andar térreo do lugar. Senti uma vontade súbita de descer as escadas e ajudar meus companheiros, mas algo dentro de mim dizia para esperar.
Ainda meio assustado levantei-me e olhei para baixo. Os dois soldados tinham voltado a caminhar pela rua, checando cada construção nos arredores, mas os que haviam entrado no prédio continuavam fora de vista. Corri então para o outro lado da cobertura e olhei para o antigo jardim que fazia fundos para outros prédios. Temia que pudessem subir pelas escadas de emergência e vasculhar o prédio todo. E apesar de o primeiro lance de escadas ter sido bloqueado com entulhos quase duas décadas atrás, ainda havia no topo uma pequena passagem entre os blocos de concreto e tijolo, pela qual eu me espremia para subir aos outros andares. Duvidava que eles subissem, mesmo que não houvesse a pilha de escombros, mas não saber onde estavam era angustiante.
Com o passar das horas a angústia apenas aumentou. Os soldados tinham se concentrado, aparentemente, na entrada do prédio, deixando apenas dois dos seus na rua a cuidar dos reparos do blindado. Não vi comoção entre eles, e deduzi que felizmente não haviam encontrado Passan e Lisie. Em compensação o frio tinha aumentado muito durante a tarde, o vento parecia cortar minhas bochechas desprotegidas, e o pequeno lanche que eu havia levado há muito acabara. A noite se aproximou lentamente, escurecendo as nuvens e enchendo as ruínas de Bermil com sombras ameaçadoras. E então, quando a noite chegou e os uivos dos Diabos começaram, o medo espantou a angústia e se alojou em mim com unhas e dentes.
Ou os soldados deixavam o prédio, ou a noite seria longa. Muito longa.
domingo, 9 de janeiro de 2011
96. Raposa Enguiçada
O som do blindado vinha da frente do prédio. Levantei e já começava a correr em direção ao parapeito quando o barulho de um segundo motor se sobressaiu ao vento. Em um susto me joguei de volta ao esconderijo e observei o helicóptero passar rasante, quase ensurdecedor. Torci para que não tivessem me visto e me encolhi de medo apenas de pensar na possibilidade.
-Águia para Raposa. Estamos na escuta. Temos autonomia para apenas mais uma passagem, e então retornaremos. Câmbio -gritou o rádio, ainda no volume máximo, fazendo-me arregalar os olhos e disparar o coração.
Com o coração martelando no peito, girei o botão do volume até quase deixá-lo no mudo. Era impossível que alguém ouvisse o som do rádio, mesmo em um dia sem vento, mas eu não estava para me arriscar. Esperei pacientemente, enquanto tentava relaxar e por as idéias em ordem, que o helicóptero fizesse a volta e passasse por ali novamente. Mas logo perceberia que o helicóptero seria o menor dos problemas. Tão logo a aeronave passou em rasante pela região, o rádio captou nova transmissão.
-Raposa para Águia. Não temos condições de retornar, precisamos parar e reparar o veículo. Câmbio e desligo.
Silêncio no rádio. Esperei alguns segundos mais e deixei o esconderijo. Consegui ver o ponto branco se afastar ao longe, seguindo para o sul pelo rumo do rio. Me aproximei então do parapeito e olhei para baixo. O blindado estava parado, com uma das lagartas sobre a calçada, bem a frente da escadaria de entrada do prédio. Dois soldados vestindo roupas camufladas brancas andavam pela rua, de armas em punho, enquanto outros dois subiam os degraus. Meu sangue congelou, e o coração quase parou de bater. Lisie e Passan estavam para serem descobertos! Peguei o rádio, coloquei na frequência de Passan e apertei o botão para falar. De súbito percebi a enorme burrada. Soltei o botão e de olhos fechados desejei ardentemente que os dois não tivessem ouvido a tentativa de chamada.
Mas instantes depois o rádio chiou quando uma nova conexão foi estabelecida. Imediatamente os soldados que estavam na rua estacaram, olhando ao redor.
domingo, 2 de janeiro de 2011
95. Raposa Blindada
Subi os lances de escada até o último andar o mais rápido que pude. Mesmo tendo um preparo físico invejável, sugava o ar gelado em grandes golfadas ao atingir a cobertura do prédio, exausto. Quando finalmente consegui me recompor e olhar em volta já não havia nada a se ver. O helicóptero tinha desaparecido de vista, camuflado nos infinitos tons de cinza e branco que cobriam a cidade e nublavam o céu. Me concentrei, tentando ouvir o barulho do motor, mas o vento era forte demais ali em cima.
A aparição misteriosa daquele helicóptero deixou rapidamente meus pensamentos ao contemplar Bermil. Daquele lugar privilegiado praticamente toda a antiga metrópole podia ser avistada. Colinas delimitavam o que foi a área urbana a leste, ao sul podia-se divisar os restos agonizantes de um rio assoreado pelos escombros da cidade, ao norte e oeste uma planície começava pouco antes do horizonte, indicando onde a área rural da região um dia estivera. Nada se movia na paisagem. Nada era colorido até onde a vista podia alcançar. E ainda assim a visão era maravilhosa. Levei muitos minutos admirando cada detalhe, tentando imaginar como seria morar em um lugar junto a milhares de outras pessoas. Aquilo tudo era desconhecido para mim, e para sempre continuaria a ser.
Deixei os sonhos de lado e voltei a me preocupar com o helicóptero. Aquela era a primeira aeronave que eu via efetivamente voando. Todas as que eu já havia visto estavam destroçadas, reduzidas a pilhas de metal enferrujado, ou sem combustível suficiente para fazê-las funcionar. Ver em funcionamento, e sobrevoando uma área urbana completamente arrasada por bombardeiros duas décadas atrás, era algo altamente incomum -até mesmo para um mundo como esse. Desejei que o helicóptero estivesse apenas de passagem, mas no fundo sabia que não estava. Eu podia senti-lo fazendo a volta ao longe, para novamente sobrevoar a cidade. Peguei o rádio, pensando em alertar Passan e Lisie, mas temi que, do mesmo modo como pude ouvir a chamada, quem quer que fosse também poderia me ouvir. Então me escondi o melhor que pude sob uma cobertura no telhado e esperei.
Poucos minutos se passaram até o barulho de motor pudesse ser novamente ouvido por entre as rajadas de vento. Mas dessa vez vinha de baixo, da rua.
-Raposa para Águia, Raposa para Águia. Na escuta?
O som das lagartas de um blindado se arrastando pelo asfalto logo se tornou inconfundível.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
94. Águia de Ferro
Joguei-me para o lado com uma cambalhota, ficando de joelhos, agora de costas para onde eu olhava e de frente para o corredor por onde entrei. Alguém apontando uma arma teria disparado no vazio, e antes que pudesse mirar novamente estaria alvejado. Poucas coisas boas me lembro de Amrak e seu exército, e esse movimento é uma delas. Mas felizmente não havia ninguém, e o susto não passou de imaginação. Ainda assim, decidi deixar aquele lugar sombrio e abandonado, vigiado pelos fantasmas do passado. Peguei o rádio e avisei Passan e Lisie que não havia problema e que ira explorar os próximos andares.
Eu já havia explorado até o 10o andar, mesmo que apenas rapidamente, ao procurar pelo leite do diabinho. Mas ainda havia outros 30 ou 35 andares a explorar. Milhares de pessoas trabalhavam naquele prédio antes da Explosão, e as coisas deixadas para trás na pressa de salvarem suas vidas são como ouro para sobreviventes como eu. Ainda que Passan dispusesse de praticamente tudo o que eu poderia querer, meu instinto de sobrevivente me forçava a explorar cada canto por onde eu passava em busca de qualquer coisa útil. E aquele prédio, um dos poucos a não ter sido saqueado -provavelmente em todo o mundo-, era mais que uma mina de ouro, era um paraíso.
Segui pelo corredor, rumo à saída de emergência. Com alguns chutes e encontrões consegui desemperrar a porta, aumentando consideravelmente a corrente de ar que circulava pelo andar. Cruzei os braços e apertei o casaco no pescoço ao sentir o frio assassino que soprava em Bermil. Mesmo acostumado e com óculos especiais, semi-cerrei os olhos à claridade de toda aquela neve do lado de fora. Subi pelas escadas externas até o próximo andar e parei diante da porta fechada. Senti uma enorme preguiça em forçar mais uma porta a abrir, e a julgar pelo que pude ver através da janela ao lado da porta, o interior estava intacto às intempéries. Quebrar o vidro seria expor o interior ao vento e à neve depois de tantos anos ileso.
Tomei alguns instantes para ponderar sobre como agir. Pensei em disparar contra a trava da porta, ou usar um pé-de-cabra, mas ambas as alternativas arruinariam o mecanismo, que não mais manteria a porta fechada depois que eu saísse. Sem ter outras idéias, decidi perguntar a Passan por novas, e peguei novamente o rádio. Antes de apertar o botão para chamá-lo percebi um aviso piscando na tela, indicando que o scan do aparelho tinha detectado a presença de outra freqüência ativa em seu alcance. Reconfigurei o receptor para aquela faixa de freqüência, mas não havia nada. Aumentei o volume, mas sequer a estática podia ser ouvida. O sinal estava limpo, perfeito, mas não transmitia nada. Cerrei o cenho, pensativo.
Foi então que comecei a ouvir um barulho ao longe, aumentando gradualmente. Parecia um motor, mas vinha de cima. Subitamente o rádio berrou:
-Águia em sobrevôo no setor leste. Raposa, na escuta? Câmbio.
O helicóptero passou rasante na cobertura do prédio, jogando uma tempestade de neve para baixo.
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
93. Décimo Primeiro Andar
Subi pela escada de incêndio. Olhei pela janela e vi o corpanzil de um dos enormes ratos que eu havia chutado no dia anterior, cuja barrigada havia sido parcialmente devorada e espalhada pelo corredor. Logo todo ele teria sido comido pelos de sua espécie. Um vento forte cortava Bermil naquela manhã, fazendo meus ossos congelarem, depois de me acostumar com o calor aconchegante do esconderijo de Passan. Decidi deixar que os ratos se acabassem e subi outro lance de escada. A porta estava emperrada, enferrujada com os anos, mas a janela do corredor tinha tido seu vidro quebrado. Com um pouco de cuidado consegui entrar.
A enorme sala para a qual o corredor de emergência se abriu ocupava quase toda a extensão daquele andar. A área estava dividida em incontáveis micro-salas, separadas por paredes de madeira prensada de um metro e meio de altura. Os computadores que não haviam sido saqueados estavam arruinados pelo chão, junto a um mar de folhas de papel e outros materiais de escritório. Algumas das janelas, que iam do chão ao teto, estavam quebradas, fazendo uma corrente de vento constante cortar os corredores e erguer redemoinhos de papel e neve pelo ar. De arma em punho, entrei esperando que algo ou alguém pulasse sobre mim, mas quando senti o vento frio cortar meu rosto relaxei um pouco. Ali não era um bom lugar para um ser vivo comum se abrigar, e a julgar pela força do vento e pela bagunça espalhada pelo chão, bem como pelas quantidades enormes de neve acumuladas em cada lugar possível, nada nem ninguém vivia ali por muitos anos. Ainda assim não abaixei a arma.
Comecei a circular pelos corredores que separavam as baias onde antigamente pessoas trabalharam. Me senti como se andando pelas lápides de um cemitério, onde as memórias daqueles que um dia estiveram ali pairavam pelo ar, intocadas pelo vento que soprava feroz e parecia lhes dar voz, como fantasmas atormentados. Eu quase podia ver as pessoas andando apressadas, de um lado para o outro, em seu último dia naquele lugar, completamente alheias ao que lhes estaria reservado para o dia seguinte. Imaginei os olhos inchados de quem chora sem parar, as mãos sujas de sangue e poeira, e o sentimento de desespero e medo, não da morte, mas da solidão. Quando o véu da realidade finalmente ruiu, duvido que alguém estivesse preparado.
Agachei e peguei um porta-retratos no chão. Uma moça bonita de cabelos castanhos segurava uma menininha nos braços, sorrindo alegres em uma praia ensolarada.
-Estaria eu preparado? -e na hora não soube se disse num sussurro, ou se alguém mais dissera.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
92. Conservantes
Recostei-me na parede em frente à porta da antiga creche. Fiquei alguns instantes pensando, enquanto recuperava o fôlego, no começo daquele covil de roedores. Pouco depois de todas as pessoas abandonarem o prédio -ou antes, provavelmente - os ratos começaram a se alimentar dos alimentos armazenados na despensa. Sem mulheres histéricas dando chiliques ao vê-los, eles se reproduziram livremente, provavelmente devorando uns aos outros na falta de alimento melhor, até atingirem tamanhos assustadores e números inimagináveis. Então me surgiu um pensamento que me fez ter calafrios e arregalar um pouco os olhos, tirando completamente de minha mente o som que viera do andar de cima. Se os cachorros e ratos daquela cidade haviam crescido e se tornado máquinas de matar, o que seria das baratas?
Antes que as suspeitas aparecessem se arrastando em minha frente em forma de insetos cascudos do tamanho de bolas de futebol, segui minha busca. Se antes eu havia levado vinte minutos subindo pelas escadas de incêndio até o 10o andar, e outros cinco dentro da colônia de ratos, levei quase duas horas explorando cada salinha de café e copa em busca de algo que já não houvesse virado fezes de algum roedor. Finalmente, no 3o andar, encontrei dentro de um armarinho de inóx o objetivo de tanto trabalho. A lata de leite-em-pó estava intacta, protegida dos dentes afiados dos ratos pelo inóx e pelo aço inoxidável, e de microorganismos pelos inúmeros conservantes criados pelas indústrias alimentícias -e se tem algo que eu agradeço até hoje por terem inventado são os conservantes de alimento, que mantém a comida boa... isto é, comestível, indefinidamente!
Levei a lata de volta a Lisie junto de uma mamadeira que encontrei pelo chão. Fiquei observando-a alimentar o pequeno diabo, tentando ignorar o aviso que sentia dentro de mim dizendo que aquilo não era boa idéia. Tentei mudar de pensamentos repassando pela mente o surgimento daquela colônia de ratos, imaginando se eles utilizavam os encanamentos para se locomover e de onde conseguiam àgua para tantos indivíduos, até que subitamente me lembrei do barulho que tinha ouvido vindo do 11o andar. Levantei num pulo, com os pêlos arrepiando na nuca. Lisie e Passan me olharam interrogativamente. Não queria alarmá-los, mas não conseguia pensar em nenhuma desculpa decente para me entupir de armas e subir novamente os andares do prédio. Então disse a verdade:
-Acho que ouvi alguma coisa vindo do 11o andar enquanto procurava pelo leite. Vou voltar lá.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
91. Leite-em-pó
O primeiro que apareceu na minha frente cruzou a pequena sala de entrada voando e por pouco não saiu pela janela. Os ratos que haviam tomado aquele lugar eram maiores do que qualquer outro que eu já tivesse visto. A cada chute dois ou três roedores voavam de encontro às paredes. Eram centenas, talvez milhares deles. Corriam e pulavam por entre os brinquedos empoeirados, como se brincassem com eles. Havia fezes em toda parte e o ar estava impregnado com um cheiro medonho de carniça e mofo. Carcaças de ratos e outros restos mortais se espalhavam pelos cantos em amontoados de quase meio metro de altura, de onde eles entravam e saiam sem parar.
Comecei a cruzar a enorme sala, onde provavelmente as crianças passavam boa parte de seu tempo brincando com as monitoras enquanto seus pais trabalhavam em algum escritório pelo prédio, mas havia um exército de roedores no caminho. Na parede oposta havia uma porta de onde se podia ver algumas mesas, e imaginei que a cozinha e a despensa deveriam ser naquela direção. Com sorte encontraria uma lata ou duas de leite-em-pó, que serviriam de alimento ao diabinho. Mas infelizmente não fui muito longe. Antes de chegar à metade da sala os pequenos soldados dentados, que até então tinham ignorado minhas investidas violentas contra alguns de seus familiares, pareceram acordar para o perigo. Como se fossem um, mostraram os dentes e se ergueram nas patas traseiras, guinchando em desafio. Me imobilizei de imediato, tentando não demonstrar ameaça, mas não houve sequer tempo de pensar em como agir. Do tamanho de um gato, vindo do banheiro, surgiu o que provavelmente era o rei daqueles ratos. Com dentes tortos e amarelos ele avançou com o corpanzil pelo meio de suas fileiras de guerreiros roedores, guinchando estridente.
Tive tempo apenas de tapar as orelhas e me encolher enquanto corria para o corredor, em meio à uma chuva de ratos kamikazes, que se atiravam ao ar das prateleiras de brinquedo tentando me atingir. Fechei a porta atrás de mim com um chute, e com outros dois dei cabo dos roedores que tinham conseguido sair da creche, jogando-os para longe e fazendo-os correr.
Com a respiração ofegante já estava pensando em uma desculpa para dar a Lisie quando um barulho soou sobre minha cabeça. Abaixei-me por reflexo, e de olhos semi-cerrados olhei para cima. Só então percebi que o som viera do andar de cima. Havia alguém lá.
Comecei a cruzar a enorme sala, onde provavelmente as crianças passavam boa parte de seu tempo brincando com as monitoras enquanto seus pais trabalhavam em algum escritório pelo prédio, mas havia um exército de roedores no caminho. Na parede oposta havia uma porta de onde se podia ver algumas mesas, e imaginei que a cozinha e a despensa deveriam ser naquela direção. Com sorte encontraria uma lata ou duas de leite-em-pó, que serviriam de alimento ao diabinho. Mas infelizmente não fui muito longe. Antes de chegar à metade da sala os pequenos soldados dentados, que até então tinham ignorado minhas investidas violentas contra alguns de seus familiares, pareceram acordar para o perigo. Como se fossem um, mostraram os dentes e se ergueram nas patas traseiras, guinchando em desafio. Me imobilizei de imediato, tentando não demonstrar ameaça, mas não houve sequer tempo de pensar em como agir. Do tamanho de um gato, vindo do banheiro, surgiu o que provavelmente era o rei daqueles ratos. Com dentes tortos e amarelos ele avançou com o corpanzil pelo meio de suas fileiras de guerreiros roedores, guinchando estridente.
Tive tempo apenas de tapar as orelhas e me encolher enquanto corria para o corredor, em meio à uma chuva de ratos kamikazes, que se atiravam ao ar das prateleiras de brinquedo tentando me atingir. Fechei a porta atrás de mim com um chute, e com outros dois dei cabo dos roedores que tinham conseguido sair da creche, jogando-os para longe e fazendo-os correr.
Com a respiração ofegante já estava pensando em uma desculpa para dar a Lisie quando um barulho soou sobre minha cabeça. Abaixei-me por reflexo, e de olhos semi-cerrados olhei para cima. Só então percebi que o som viera do andar de cima. Havia alguém lá.
sábado, 30 de outubro de 2010
90. Diabinho
Dormi muito. Muito e muito bem. Pela primeira vez em anos eu tinha uma cama só minha, com lençóis limpos, travesseiros e cobertores. A preocupação constante que havia em dormir em um buraco na neve ou em uma casa abandonada não existia, e isso era quase tão reconfortante - se não mais - do que uma boa cama. Quando finalmente acordei minha barriga roncava tão alto que talvez ela mesma tenha me acordado. Deixei um dos muitos quartos com beliches que havia no abrigo e fui a procura de Lisie e Passan. Esperava encontrá-los na cozinha, com alguma coisa gostosa pronta para eu comer, mas os encontrei no hall de entrada.
-Bom... dia? - arrisquei, apesar de não fazia idéia de que horas eram.
-Boa noite! - corrigiu Passan, sentado à pequena mesa de centro.
-Dormiu, hein! - falou Lisie sorrindo, e então se aproximou de mim trazendo nas mãos uma caixa de sapatos. -Veja! Saí essa manhã para explorar o prédio e encontrei isto!
Uma pequena bolota vermelho-acinzentada coberta de minúsculos pelos brancos inchava e murchava ritimadamente em meio a um amontoado de roupas velhas. Demorei um tempo para reconhecer do que se tratava, e as exclamações de "mas não é uma graça?!" e "é tão fofinho!" de Lisie não ajudavam muito. Por fim, depois que um focinho vermelho apareceu, seguido de um ganido agudo, percebi que aquilo era um filhote de Diabo de Bermil - ou um Diabinho, como foi apelidado pela ala feminina do abrigo. Fiquei surpreso, claro, mas fiquei ainda mais ao ver a animação de Passan e Lisie com o pequeno animal.
-Alguém aí lembra que essa coisinha, daqui não muito tempo, vai virar uma moedor de carne ambulante?
-Ah, Nuke, pára com isso! Olha pra ele!
Desisti de argumentar, dei um sorriso para eles e fui pra cozinha encher a pança. Duas latas de feijão e uma de legumes depois eles ainda estavam lá, admirando o choro baixinho da criatura. Mas antes tivesse continuado a comer. Mal cheguei e fui obrigado a fazer algo que não gostaria de fazer por um bom tempo: sair do abrigo.
-Ele deve estar com fome, não para de chorar e se chacoalhar pra cá e pra lá. Deve estar procurando a mamãe - falou Lisie, com voz melosa.
-Porque não o deixaram com a mãe? - mas já imaginava a resposta.
-Ela não resistiu. Era aquela que os caçadores seguiam. Deu a luz à três filhotinhos, mas só esse ainda estava vivo quando os encontrei.
-Você saiu lá fora sem saber se o Diabo estava vivo ou não? - ergui as sobrancelhas, meio surpreso meio preocupado.
-Relaxa, Nuke. Eu sei me cuidar, lembra? - e ela sabia mesmo, mas era uma coisa que eu viria a me esquecer com facilidade daquele tempo em diante. -De qualquer forma, é sua vez de se arriscar um tiquinho por nós. Passan me disse que no décimo andar ficava a creche do prédio. Será que você não poderia...
-Lá vem...! - interrompi.
-... buscar uma lata de leite em pó? - continuou ela, fingindo não me ouvir. -Assim podemos dar de comer ao pobrezinho.
-No meio da noite?!
Eu não podia negar. Não àquele olhar pidão que só as mulheres sabem fazer.
E mesmo que soubesse que o décimo andar ainda estava em uso como creche, não teria negado.
-Bom... dia? - arrisquei, apesar de não fazia idéia de que horas eram.
-Boa noite! - corrigiu Passan, sentado à pequena mesa de centro.
-Dormiu, hein! - falou Lisie sorrindo, e então se aproximou de mim trazendo nas mãos uma caixa de sapatos. -Veja! Saí essa manhã para explorar o prédio e encontrei isto!
Uma pequena bolota vermelho-acinzentada coberta de minúsculos pelos brancos inchava e murchava ritimadamente em meio a um amontoado de roupas velhas. Demorei um tempo para reconhecer do que se tratava, e as exclamações de "mas não é uma graça?!" e "é tão fofinho!" de Lisie não ajudavam muito. Por fim, depois que um focinho vermelho apareceu, seguido de um ganido agudo, percebi que aquilo era um filhote de Diabo de Bermil - ou um Diabinho, como foi apelidado pela ala feminina do abrigo. Fiquei surpreso, claro, mas fiquei ainda mais ao ver a animação de Passan e Lisie com o pequeno animal.
-Alguém aí lembra que essa coisinha, daqui não muito tempo, vai virar uma moedor de carne ambulante?
-Ah, Nuke, pára com isso! Olha pra ele!
Desisti de argumentar, dei um sorriso para eles e fui pra cozinha encher a pança. Duas latas de feijão e uma de legumes depois eles ainda estavam lá, admirando o choro baixinho da criatura. Mas antes tivesse continuado a comer. Mal cheguei e fui obrigado a fazer algo que não gostaria de fazer por um bom tempo: sair do abrigo.
-Ele deve estar com fome, não para de chorar e se chacoalhar pra cá e pra lá. Deve estar procurando a mamãe - falou Lisie, com voz melosa.
-Porque não o deixaram com a mãe? - mas já imaginava a resposta.
-Ela não resistiu. Era aquela que os caçadores seguiam. Deu a luz à três filhotinhos, mas só esse ainda estava vivo quando os encontrei.
-Você saiu lá fora sem saber se o Diabo estava vivo ou não? - ergui as sobrancelhas, meio surpreso meio preocupado.
-Relaxa, Nuke. Eu sei me cuidar, lembra? - e ela sabia mesmo, mas era uma coisa que eu viria a me esquecer com facilidade daquele tempo em diante. -De qualquer forma, é sua vez de se arriscar um tiquinho por nós. Passan me disse que no décimo andar ficava a creche do prédio. Será que você não poderia...
-Lá vem...! - interrompi.
-... buscar uma lata de leite em pó? - continuou ela, fingindo não me ouvir. -Assim podemos dar de comer ao pobrezinho.
-No meio da noite?!
Eu não podia negar. Não àquele olhar pidão que só as mulheres sabem fazer.
E mesmo que soubesse que o décimo andar ainda estava em uso como creche, não teria negado.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
89. Ganido
Primeiro desejei com todas as minhas forças ter uma lanterna. Depois me amaldiçoei por ter deixado a segurança do abrigo sem o mínimo de equipamentos para tal - está certo que eu não imaginava correr atrás de um homem de mais de 40 anos pelas ruas de uma cidade em ruínas pouco antes do anoitecer, mas foi uma tremenda burrice que não cometi muitas vezes mais em minha vida. A cada segundo que se passava o corredor escurecia mais e mais, e mesmo meus olhos treinados logo tornaram-se tão inúteis quanto os de um cego. Fiquei imóvel, tentando ouvir qualquer sinal de que o perigo avançasse. Mas no fundo sabia que, se ele viesse, não haveria tempo de reação.
Aquele Diabo já tinha se mostrado capaz de atacar em uma fração de segundo com uma ferocidade aparentemente incompatível com seu corpo franzino, e isso obviamente não saía de minha cabeça. Ainda assim não tinha perdido toda a esperança de sobreviver. O animal ainda não tinha atacado, e fora o movimento e o ganido iniciais, não houve outro sinal de vida por segundos que pareceram horas. Se ele não havia atacado ainda, então talvez não atacasse. E, torcendo para que eu estivesse certo, dei um passo atrás. Não houve reação. Outro passo. Nada novamente. Três passos seguidos, e finalmente um som em resposta. Meus sentidos se aguçaram, meus músculos se retesaram, mas não foi o Diabo que se mostrou.
Um ponto brilhante surgiu no final do corredor. Um facho de luz cortou a escuridão densa, fazendo-me apertar os olhos com a claridade repentina. Eu continuava praticamente cego, mas tinha certeza de quem segurava aquela lanterna e respirei profundamente aliviado. Sorri envergonhado quando ela se aproximou e seus olhos azuis se iluminaram saindo da escuridão. Tentei disfarçar, mas meu embaraço era mais que evidente. Lisie ainda disse alguma coisa tranquilizadora enquanto seguíamos para o alçapão, mas não cheguei a prestar atenção, a adrenalina deixava meu corpo e um alívio extremo dominava minha mente.
-Onde está o Diabo? -perguntei quando passamos pelos corpos dos caçadores.
-Está bem ali - falou Lisie, apontando o facho de luz para os escombros na escada. Uma massa avermelhada de sangue e poeira estava amontoada entre grandes blocos de concreto. -Vimos pelas câmeras quando ele se arrastou para aquele canto. Mal se moveu desde então. Deve estar pra morrer.
Eu já descia a escada do alçapão quando um ganido muito baixo e agudo veio dos escombros. Não era o Diabo.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
88. Necessário
Eu não era um matador. Menos ainda um assassino. Mas assim eu me senti minutos depois de deixar o esconderijo de Passan. O homem ainda estrebuchava no chão, sua barriga aberta sorvendo sangue no meio da rua, quando virei as costas e comecei a correr de volta ao esconderijo.
Demorei longas noites para esquecer aqueles olhos. Quando gritei para que parasse, o homem virou em minha direção com olhos de fúria, arma em punho e dedo no gatilho. Um segundo - e três tiros na barriga - depois, seus olhos transbordaram medo e desespero, enquanto sua vida se esvaia pela poeira da rua. Fiquei aturdido, preso por aquele olhar. Era incrível, e até fascinante, ver quanto medo um homem podia sentir, e o quanto esse medo se tornava visível à beira da morte. Mas o fascínio, naquele momento, durou apenas isso, um momento. E então, enquanto corria de volta, tentei me convencer de que a morte daquele homem não tinha sido apenas um assassinato, mas uma morte necessária - se é que existem, realmente, mortes necessárias.
Corri o mais rápido que podia. A caçada tinha acabado e a noite avançava rápido pelo céu nublado. Não tinha percebido, mas corri por muito mais quadras do que esperava quando persegui o homem. E agora temia não voltar ao esconderijo antes que a noite estendesse seus reinos pela cidade e os Diabos dominassem as ruas com seus dentes mortíferos. Saltei por pilhas de escombros e carcaças de carros sem raciocinar, usando apenas o instinto. E, quando as sombras dos prédios começaram a se fundir em uma escuridão crescente, uivos e latidos distantes ecoaram pelas ruas. Subi a escadaria na entrada do prédio com as pernas bambas e a garganta ardendo.
Eu só carregava minha arma naquele dia, mas mesmo ela parecia pesar muitos quilos mais que o normal depois daquela corrida. Levei alguns segundos para me recompor, estatelado no meio do saguão de entrada, mas a escuridão e os sons da noite me ajudaram na decisão de levantar. Praticamente me arrastei até o corredor, imaginando Lisie e Passan me olhando pelas câmeras de segurança. Queria apenas entrar pelo alçapão e me deitar no chão do esconderijo até que meus músculos se recuperassem um pouco. Mas então eles se retesaram de novo. Ainda que estivesse muito escuro e eu muito cansado, meus olhos não tinham perdido sua sensibilidade para o perigo, e vi quando alguma coisa se moveu no final do corredor.
Respiração presa na garganta. Um ganido baixinho, quase inaudível. E eu já sabia qual era meu inimigo.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
87. Caça e Caçador
A coisa foi de mal a pior muito rápido. O primeiro homem entrou no pequeno hall e seguiu a trilha de sangue para debaixo da escada de arma em riste. Sua surpresa foi evidente, mesmo pela câmera, quando não encontrou sua presa amuada naquele canto escuro. Seus companheiros chegaram em seguida, também tentando observar o vão sob a escada. Conversaram por alguns instantes e então dois deles voltaram à porta, mas o terceiro continuou olhando para o espaço escuro. Dentro do esconderijo ninguém respirava ou se movia enquanto olhávamos fixamente para a tela sem sequer piscar. O homem então se agachou para olhar mais de perto e então chamou seus companheiros, que voltaram apressados. Passan pareceu sair de um transe quando a imagem do alçapão sendo aberto apareceu na tela. Levantou estabanado da cadeira e quase foi ao chão, seu rosto rechonchudo estava suado e sua pele quase tão branca quanto a de Lisie. Tentou falar alguma coisa, mas conseguiu apenas arregalar os olhos e escancarar a boca. Pela primeira vez em duas décadas seu esconderijo tinha sido descoberto. Eles eram os caçadores, e quando nos descobrissem, seríamos a caça.
A porta do esconderijo estava fechada, mas podíamos ouvir em nossas mentes o ranger das dobradiças do alçapão sendo abertas. Me aproximei da porta de aço de arma em punho. Aquela porta de aço era a única coisa que nos separava do mundo assassino que reinava no lado de fora, e pensar nisso fazia minhas pernas fraquejarem. Lisie manteve seu olhar incrédulo na tela, atenta a qualquer mudança, enquanto Passan continuava preso em seu desespero paralisante. Menos de um minuto se passou desde que o primeiro homem vestindo sua roupa camuflada desceu pela escada do alçapão, mas, ao contrário do que eu esperava, ninguém forçou a tranca da porta. Um segundo companheiro o seguiu, mas a porta continuou intocada. Quando o terceiro homem começou a descer pela abertura, eu me revezava freneticamente entre olhar a tela no fundo da sala e a tranca da porta, sem conseguir raciocinar coisa alguma. Mas foi então que a caçada começou.
Lisie gritou do fundo da sala. Sem pensar abandonei a porta e corri até ela, passando por Passan. Trêmula, ela apontava o telão na parede. Virei o olhar e também fiquei pasmo. O pequeno quadrado que exibia a câmera do corredor mostrava uma mancha cinza-avermelhada se projetando para dentro do alçapão.
-O Diabo está descendo! -deixei escapar, enquanto um arrepio percorria toda minha coluna e se espalhava por cada membro.
Mas o Diabo não desceu. Com metade de seu corpo para fora do alçapão a criatura fazia força com as patas traseiras, que derrapavam no chão liso. Instantes de desespero depois o animal conseguiu tirar seu corpo de dentro do buraco. Mas não o fez sozinho. Preso entre seus dentes protuberantes estava o pescoço do último homem a descer pelo alçapão. O Diabo arrastou o corpo inerte até o corredor e lambeu faminto o sangue que escorria da ferida. No fundo da imagem mostrada pela câmera pudemos ver quando um dos outros dois homens colocou metade do corpo pra fora e disparou seu rifle. Não ouvimos o tiro através da porta, nem pudemos ver se o disparo atingiu o alvo, mas o que aconteceu a seguir foi ainda mais difícil de entender.
O Diabo, atingido ou não, avançou assim que percebeu a presença do perigo, e no instante seguinte se jogava em cima do atirador. Seus dentes cravaram fundo no braço do homem, que ficou tentando se desvencilhar desesperadamente. Amedrontado e visivelmente tomado pela dor o pobre coitado foi arrastado para fora do alçapão ainda se debatendo. O último homem surgiu então na abertura no chão. Primeiro colocou a cabeça para fora, procurando o inimigo, então apoiou o rifle no chão e apontou para os Diabo e seu companheiro, que lutavam por cima do cadáver da primeira vítima. Era obviamente impossível um tiro limpo naquelas condições, mas o disparo foi feito. Instantâneamente a luta acabou. O homem e o diabo estavam imóveis, caídos um por cima do outro.
Assustado e sozinho, o último dos homens de roupa camuflada passou correndo por cima dos corpos no corredor, sem se importar com os gemidos e espasmos de dor do companheiro ferido.
-Nuke, ele sabe do esconderijo! -berrou Passan, saindo do torpor que o dominou durante toda a luta.
Agora eu era o caçador. E a caça não podia escapar.
Lisie gritou do fundo da sala. Sem pensar abandonei a porta e corri até ela, passando por Passan. Trêmula, ela apontava o telão na parede. Virei o olhar e também fiquei pasmo. O pequeno quadrado que exibia a câmera do corredor mostrava uma mancha cinza-avermelhada se projetando para dentro do alçapão.
-O Diabo está descendo! -deixei escapar, enquanto um arrepio percorria toda minha coluna e se espalhava por cada membro.
Mas o Diabo não desceu. Com metade de seu corpo para fora do alçapão a criatura fazia força com as patas traseiras, que derrapavam no chão liso. Instantes de desespero depois o animal conseguiu tirar seu corpo de dentro do buraco. Mas não o fez sozinho. Preso entre seus dentes protuberantes estava o pescoço do último homem a descer pelo alçapão. O Diabo arrastou o corpo inerte até o corredor e lambeu faminto o sangue que escorria da ferida. No fundo da imagem mostrada pela câmera pudemos ver quando um dos outros dois homens colocou metade do corpo pra fora e disparou seu rifle. Não ouvimos o tiro através da porta, nem pudemos ver se o disparo atingiu o alvo, mas o que aconteceu a seguir foi ainda mais difícil de entender.
O Diabo, atingido ou não, avançou assim que percebeu a presença do perigo, e no instante seguinte se jogava em cima do atirador. Seus dentes cravaram fundo no braço do homem, que ficou tentando se desvencilhar desesperadamente. Amedrontado e visivelmente tomado pela dor o pobre coitado foi arrastado para fora do alçapão ainda se debatendo. O último homem surgiu então na abertura no chão. Primeiro colocou a cabeça para fora, procurando o inimigo, então apoiou o rifle no chão e apontou para os Diabo e seu companheiro, que lutavam por cima do cadáver da primeira vítima. Era obviamente impossível um tiro limpo naquelas condições, mas o disparo foi feito. Instantâneamente a luta acabou. O homem e o diabo estavam imóveis, caídos um por cima do outro.
Assustado e sozinho, o último dos homens de roupa camuflada passou correndo por cima dos corpos no corredor, sem se importar com os gemidos e espasmos de dor do companheiro ferido.
-Nuke, ele sabe do esconderijo! -berrou Passan, saindo do torpor que o dominou durante toda a luta.
Agora eu era o caçador. E a caça não podia escapar.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
86. Caçadores de Diabos
Passan não estava feliz. Mesmo o conhecendo a poucas horas era visível sua irritação com tudo aquilo. Seus quase vinte anos de sobrevivente tinham sido o mais planejados e previsíveis possível, mas as últimas vinte e quatro horas tinham sido uma surpresa atrás da outra. Pensei que ele pudesse por a culpa em mim, mas felizmente não o fez. Simplesmente sentou em frente a um dos monitores, digitou alguma coisa e então ficou com o dedo em cima de um botão do teclado.
-Desgraçados, se entrarem aqui vai ser um problema... -esbravejou Passan, sem esconder a irritação. -Desmiolados de merda, deviam ter ficado na fossa onde se criaram... junto com os outros da ganguezinha.
Lisie arregalou os olhos para Passan, e então desviou o olhar para mim com preocupação. Entendi de imediato o que ela queria dizer: Passan pretendia detonar explosivos caso aqueles homens entrassem no prédio. Precisei intervir:
-Passan, você vai explodi-los? -perguntei tentando me mostrar calmo.
-É claro...
-Mas... bem, isso não pode derrubar a entrada do prédio? Ou mesmo ele todo? Vamos acabar presos!
-Claro que não! Não coloquei tantos explosivos assim! -sua voz era de irritação. -Eu coloquei só algumas cargas, e... -percebi a exitação de Passan e soube que ele não era bom com explosivos o suficiente para saber quão grande seria a explosão.
-Passan, vamos deixar que eles entrem, vasculhem o que queiram e vão embora. Nem sabemos se eles vão entrar, e se entrarem provavelmente vão querer apenas o Diabo. Além do mais, você me deixou entrar e não me explodiu.
-Só deixei porque Lisie pediu, do contrário... -e dizendo isso tirou o dedo do botão. Uma sensação de alívio se espalhou por mim e diminuiu a tensão em meus músculos ao ver que não morreríamos soterrados por concreto e ferro, mas também em saber que Lisie tinha feito o pedido para que eu entrasse no esconderijo. -Tudo bem, vamos ver o que eles querem. Mas se der merda, eu te dou de comida àquele Diabo.
Minutos depois os três homens camuflados se aproximaram da escada de entrada do prédio, portavam antigos rifles de caça com mira telescópica e levavam facas na cintura. Passan se moveu nervosamente na enorme cadeira giratória que ficava logo abaixo do telão das câmeras de vigilância. Os homens subiram a escada de armas em punho, observaram rapidamente o hall de entrada e seguiram para o corredor. Passan apertou os braços da cadeira com força, visivelmente tenso. O caçador mais a frente agachou-se na entrada do corredor e passou os dedos em uma pequena mancha de sangue, então levou-os à boca e os lambeu. Em seguida apontou para o fundo do corredor e pôs-se de pé. Os três ergueram as armas e apoiaram-nas nos ombros, engatilhando uma bala na agulha.
Em outra câmera, o Diabo eriçava-se em seu esconderijo entre dois blocos de concreto. Dentro do abrigo Passan prendia a respiração.
A caçada ia começar. Apenas não sabíamos quem era a caça, ou o caçador.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
85. Farejados
Meus músculos se contraíram em uma fração de segundo e em seguida me impulsionaram para frente com toda a força que puderam fornecer. Me joguei contra a pesada porta de aço numa trombada estrondosa. Meu ombro direito latejava devido ao impacto, mas ignorei a dor e girei a trava da porta, selando-nos no interior do abrigo. Passan chegou em seguida com nossas armas, que seguramos e apontamos para a porta, como se esperássemos que um monstro gigantesco fosse abri-la à pancadas. É claro que nada abriu a porta, mas ainda assim esperamos bons minutos ali, a poucos passos de distância. Não podíamos mais ouvir o som de metal sendo raspado, apenas nossa respiração e o chiado constante dos equipamentos da sala ecoavam pelo lugar, e isso servia apenas para aumentar exponencialmente a tensão em nós.
-Chega dessa merda. Lisie, amplie a câmera 15 no telão -disse Passan abaixando a arma e caminhando para o fundo da sala, logo atrás de Lisie. Eu ainda olhei uma vez mais para a porta, conferindo a tranca, e então os segui.
O quadrado da câmera quinze tinha sido ampliado e mostrava, de um ângulo superior, um corredor com uma escada de serviço destruída ao fundo. Logo reconheci o lugar como sendo a entrada do esconderijo. Quem quer que quisesse entrar tinha que obrigatoriamente passar por ali. Apertamos a vista, tentando identificar algo, mas não havia nada ali. Passan navegou pelas diferentes câmeras, tentando encontrar o que havia feito os barulhos, mas em nenhuma delas havia qualquer coisa suspeita.
-Mas que... -resmungou Passan, parando antes de soltar o palavrão mas completando com um soco na mesa. Ele estava visivelmente frustrado e preocupado com a origem dos sons, e sua testa estava molhada de suor.
-Passan, porque não voltamos a imagem da câmera do corredor até a hora em que ouvimos o barulho -lembrou Lisie.
-Verdade, acabamos de usar isso e já me esqueci -Passan parecia mais aliviado com essa alternativa. Provavelmente ele pensara o mesmo que eu: cedo ou tarde teríamos que abrir a porta, fosse no dia seguinte ou semanas depois, e então teríamos de enfrentar quem, ou o que, estivesse ali. Descobrir com o que teríamos de lidar com era essencial.
Passan retrocedeu as imagens da câmera 15 para alguns instantes antes de ouvirmos os sons e então deixou-a prosseguir. Levou poucos segundos, mas todos prendemos a respiração. Um Diabo surgiu na parte debaixo da imagem, onde começava o corredor, e caminhou lentamente em direção à escada. Parou sobre o alçapão e abaixou a cabeça até o chão, voltou ao corredor e fez a mesma coisa nos cantos das paredes.
-Ele nos farejou! -exclamou Lisie, percebendo antes de Passan e eu o que o Diabo fazia ali.
Na imagem, a criatura tinha voltado ao alçapão e começado a raspar com as patas a tampa disfarçada do esconderijo de Passan. Parou por uns instantes, cheirou por todo o hall da escada, e então voltou a raspar o alçapão com ainda mais empenho, mas não por muito tempo. Desistindo de abrir a tampa o Diabo se aproximou da escada atulhada de escombros e se aninhou entre dois blocos de concreto, colocou a cabeça para trás e começou a lamber uma das patas traseiras.
-Essa coisa está fazendo o que? -perguntou Passan, fazendo careta de dúvida e incredulidade.
-Esperando a gente sair para nos atacar -respondeu Lisie, como se fosse óbvia a conclusão.
-Acho que não... acho ele está é se escondendo -e apontei para uma das câmeras que mostrava a rua do prédio.
Naquele exato momento três figuras vestindo roupas camufladas cruzavam a rua e sumiam atrás de um prédio.
-Chega dessa merda. Lisie, amplie a câmera 15 no telão -disse Passan abaixando a arma e caminhando para o fundo da sala, logo atrás de Lisie. Eu ainda olhei uma vez mais para a porta, conferindo a tranca, e então os segui.
O quadrado da câmera quinze tinha sido ampliado e mostrava, de um ângulo superior, um corredor com uma escada de serviço destruída ao fundo. Logo reconheci o lugar como sendo a entrada do esconderijo. Quem quer que quisesse entrar tinha que obrigatoriamente passar por ali. Apertamos a vista, tentando identificar algo, mas não havia nada ali. Passan navegou pelas diferentes câmeras, tentando encontrar o que havia feito os barulhos, mas em nenhuma delas havia qualquer coisa suspeita.
-Mas que... -resmungou Passan, parando antes de soltar o palavrão mas completando com um soco na mesa. Ele estava visivelmente frustrado e preocupado com a origem dos sons, e sua testa estava molhada de suor.
-Passan, porque não voltamos a imagem da câmera do corredor até a hora em que ouvimos o barulho -lembrou Lisie.
-Verdade, acabamos de usar isso e já me esqueci -Passan parecia mais aliviado com essa alternativa. Provavelmente ele pensara o mesmo que eu: cedo ou tarde teríamos que abrir a porta, fosse no dia seguinte ou semanas depois, e então teríamos de enfrentar quem, ou o que, estivesse ali. Descobrir com o que teríamos de lidar com era essencial.
Passan retrocedeu as imagens da câmera 15 para alguns instantes antes de ouvirmos os sons e então deixou-a prosseguir. Levou poucos segundos, mas todos prendemos a respiração. Um Diabo surgiu na parte debaixo da imagem, onde começava o corredor, e caminhou lentamente em direção à escada. Parou sobre o alçapão e abaixou a cabeça até o chão, voltou ao corredor e fez a mesma coisa nos cantos das paredes.
-Ele nos farejou! -exclamou Lisie, percebendo antes de Passan e eu o que o Diabo fazia ali.
Na imagem, a criatura tinha voltado ao alçapão e começado a raspar com as patas a tampa disfarçada do esconderijo de Passan. Parou por uns instantes, cheirou por todo o hall da escada, e então voltou a raspar o alçapão com ainda mais empenho, mas não por muito tempo. Desistindo de abrir a tampa o Diabo se aproximou da escada atulhada de escombros e se aninhou entre dois blocos de concreto, colocou a cabeça para trás e começou a lamber uma das patas traseiras.
-Essa coisa está fazendo o que? -perguntou Passan, fazendo careta de dúvida e incredulidade.
-Esperando a gente sair para nos atacar -respondeu Lisie, como se fosse óbvia a conclusão.
-Acho que não... acho ele está é se escondendo -e apontei para uma das câmeras que mostrava a rua do prédio.
Naquele exato momento três figuras vestindo roupas camufladas cruzavam a rua e sumiam atrás de um prédio.
sábado, 4 de setembro de 2010
84. À Luz do Dia
Todas as câmeras do interior do prédio mostravam a mesma imagem assustadora. Durante todo o tempo em que Passan e eu conversamos no hall do prédio havia algo esgueirando-se pelas sombras, observando-nos. Fitamos a tela atônitos, sem acreditar. Apenas quando descemos pelo alçapão e a criatura deixou o prédio é que finalmente percebemos o que era. E isso só nos deixou ainda mais espantados.
-É um... -começou Lisie a falar, mas foi completada por Passan.
-Diabo de Bermil.
-Como pode? À luz do dia?! -sua voz era um misto de surpresa e medo. -Eu... estava lá fora... na mesma hora... não é possível!
Continuamos observando as imagens. O cachorro, que não passava de um punhado de pele e pelos sobre uma frágil carcaça de ossos, desceu pela escadaria do prédio em direção à rua, parando ocasionalmente para lamber as poças de sangue seco no chão. Caminhava lentamente, com a cabeça baixa e olhar assustado. Seus dentes afiados ficavam à amostra, mal sendo cobertos pela pele esticada, e uma de suas patas traseiras parecia ferida. Era a segunda vez em que eu via um Diabo, mas tinha ouvido muitas histórias dos soldados do acampamento de Amrak. Sabia que os Diabos saiam apenas durante a noite, passando todo o dia escondidos em tocas nos escombros. Todos temiam encontrar uma dessas tocas durante as escavações nos escombros, por isso nenhum soldado fazia o trabalho e esse tipo de história era totalmente proibida próxima aos trabalhadores. E, portanto, sabia quão estranho era ver uma daquelas criaturas ali, no meio da rua, à luz do dia.
-Vivo nesta cidade desde muito antes de sua destruição. Vi essas criaturas surgirem dos escombros e se reproduzirem -contou Passan, ainda com os olhos vidrados. -Vi o terror e o medo que elas causam em quem passa por aqui crescer junto com elas. Mas nunca havia visto um Diabo vi à luz do dia. Algo está errado. Muito errado.
De fato algo estava muito estranho naquilo tudo. Nem mesmo os mais amedrontados pelas histórias dos Diabos poderiam imaginá-los caminhando pelas ruínas de Bermil tranqüilamente à luz do dia. O amanhecer sempre significou o fim dos uivos e ganidos que inundam a noite e atormentam o sono daqueles que vivem no que restou da cidade, e pensar que as horas de claridade também seriam assombradas por aquelas criaturas era algo assustador demais. O medo sempre foi uma constante na vida de quem luta para sobreviver sob os escombros da sociedade do mundo antigo, mas os Diabos davam uma nova dimensão a esse medo, principalmente àqueles que um dia tiveram um cão como companheiro.
Subitamente, arrancando-nos de nossos devaneios e trazendo-nos de volta à realidade, um barulho metálico ecoou pelo corredor. O som de metal sendo arranhado bateu em meus ouvidos como num tambor. Meu coração disparou e um arrepio desceu pela coluna, ouriçando os pelos de minhas costas.
-Lisie, você trancou as portas quando desceu? -falou Passan, com pavor na voz.
A pergunta fora retórica. A porta de aço reforçado estava semi-aberta, e pelo vão deixado por ela a escuridão do corredor tentava se arrastar para dentro.
-Fodeu.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
83. Luz, Câmera, Sombra
A tela que se iluminou estava vazia. Bom, não vazia, já que mostrava uma esquina atulhada de escombros e uma rua cheia de esqueletos de prédios semi-destruídos, mas nada de anormal estava à vista. Passan soltou um risinho e resmungou alguma coisa, puxou um teclado mais para perto e se pôs a digitar. Instantes depois a tela piscou novamente, mas dessa vez a imagem exibida era escura, em tons de preto e azul. Primeiro não entendi, mas logo manchas vermelho e laranja começaram a se materializar em meio à escuridão. Passan tinha mudado para a câmera para visão de calor, e agora quem se escondia em meio aos escombros brilhava como lanternas na noite.
-Eles são de uma gangue do outro lado da cidade. Comerciei com eles nos primeiros anos, mas um dia, quando estavam doidões, tentaram me forçar a mostrar meu esconderijo e quase me mataram. Deixei três deles de jantar para os diabos e nunca mais troquei nada com eles, ainda que insistam todos os anos. Devem estar desesperados atrás de suprimentos e equipamentos pois cruzam essa região pelo menos uma vez por mês. Talvez estejam me procurando, mas quase nem me preocupo, são burros demais. Acho que eles pensam que ninguém consegue vê-los com aquelas roupas camufladas.
De fato aqueles caras eram difíceis de ser ver quando estavam parados, a espera de uma vítima, mas qualquer um que estivesse observando uma passagem ou uma rua com um pouco mais de atenção seria capaz de vê-los se aproximando. Mas Passan não estava para brincadeira, ainda que duvidasse da capacidade intelectual daquela gangue de mortos de fome, e não tirou os olhos do monitor. Seu indicador estava apoiado em um dos botões do teclado, pronto para ser apertado. Não resisti e perguntei:
-Por acaso esse botão aí vai detonar uma bomba nuclear, é?
-Nuclear não, mas se aqueles imbecis entrarem aqui -respondeu Passan em tom um pouco sério- vão ter uma bela dor de cabeça pra juntar as partes de seus corpos pelo chão.
Dei uma risada, comi o último pêssego em calda da lata e comecei a observar o imenso telão no fundo da sala que mostrava todas as câmeras instaladas por Passan. Era uma tela quadrada de pelo menos um metro e meio, dividida em vinte e cinco quadrados menores, cada um mostrando uma imagem diferente. Uns 4 ou 5 quadrados mostravam apenas chuvisco, de modo que pelo menos 20 câmeras estavam em funcionamento. Lisie se aproximou para olhar o monitor e senti quando seu braço quase esbarrou no meu, fazendo os pelos arrepiarem em uma onda até o ombro.
-Vamos ver o seu susto de hoje cedo? -e dizendo isso clicou em um dos quadrados da tela que mostrava o hall de entrada do prédio. O quadrado aumentou de tamanho, ocupando alguns dos quadrados adjacentes e botões surgiram próximos à base. Lisie apertou o botão "voltar" várias vezes, mas a imagem mostrada pareceu imóvel. Apenas a variação de luminosidade do hall indicava o passar das horas. Quando a luz começou a ficar mais fraca e uma figura se moveu rápido pela tela Lisie parou. -Pronto, Passan está se aproximando de você, de braços erguidos. E você... tremendo como uma vara verde! -pôs-se a gargalhar, apontando o dedo para mim.
-Devo admitir que fiquei com medo de você se assustar e puxar o gatilho... Nunca se sabe, não é? -Passan tinha decidido que o caminho tomado pela gangue de homens camuflados seguia em uma direção segura e tinha se juntado à Lisie na chacota contra mim. -Um cachorrinho assustado é mais perigoso do que parece... ainda mais quando dão a ele um Ak-47!
Eu nunca tinha visto um gato de verdade, apenas fotos em revistas e desenhos em livros, mas sorri amarelo, fazendo careta, quando ambos se puseram a rir juntos de mim. Estava pensando em algo para tirar sarro dos dois quando uma coisa me chamou a atenção no telão e me fez virar o rosto de repente.
-Vocês viram aquilo?!
-Aquilo o que? -retrucou Passan, arregalando os olhos e se aproximando da tela.
-Volte a imagem, Lisie... isso, pare!
Eu e Passan cruzávamos o hall do prédio e nos dirigíamos para o corredor onde ficava o alçapão. Pouco antes de sumirmos da visão da câmera uma sombra cruzou uma porta do outro lado do salão. Lisie retrocedeu a imagem quadro a quadro, e parou no momento exato em que uma mancha escura saltava de um lado ao outro da porta.
De fato aqueles caras eram difíceis de ser ver quando estavam parados, a espera de uma vítima, mas qualquer um que estivesse observando uma passagem ou uma rua com um pouco mais de atenção seria capaz de vê-los se aproximando. Mas Passan não estava para brincadeira, ainda que duvidasse da capacidade intelectual daquela gangue de mortos de fome, e não tirou os olhos do monitor. Seu indicador estava apoiado em um dos botões do teclado, pronto para ser apertado. Não resisti e perguntei:
-Por acaso esse botão aí vai detonar uma bomba nuclear, é?
-Nuclear não, mas se aqueles imbecis entrarem aqui -respondeu Passan em tom um pouco sério- vão ter uma bela dor de cabeça pra juntar as partes de seus corpos pelo chão.
Dei uma risada, comi o último pêssego em calda da lata e comecei a observar o imenso telão no fundo da sala que mostrava todas as câmeras instaladas por Passan. Era uma tela quadrada de pelo menos um metro e meio, dividida em vinte e cinco quadrados menores, cada um mostrando uma imagem diferente. Uns 4 ou 5 quadrados mostravam apenas chuvisco, de modo que pelo menos 20 câmeras estavam em funcionamento. Lisie se aproximou para olhar o monitor e senti quando seu braço quase esbarrou no meu, fazendo os pelos arrepiarem em uma onda até o ombro.
-Vamos ver o seu susto de hoje cedo? -e dizendo isso clicou em um dos quadrados da tela que mostrava o hall de entrada do prédio. O quadrado aumentou de tamanho, ocupando alguns dos quadrados adjacentes e botões surgiram próximos à base. Lisie apertou o botão "voltar" várias vezes, mas a imagem mostrada pareceu imóvel. Apenas a variação de luminosidade do hall indicava o passar das horas. Quando a luz começou a ficar mais fraca e uma figura se moveu rápido pela tela Lisie parou. -Pronto, Passan está se aproximando de você, de braços erguidos. E você... tremendo como uma vara verde! -pôs-se a gargalhar, apontando o dedo para mim.
-Devo admitir que fiquei com medo de você se assustar e puxar o gatilho... Nunca se sabe, não é? -Passan tinha decidido que o caminho tomado pela gangue de homens camuflados seguia em uma direção segura e tinha se juntado à Lisie na chacota contra mim. -Um cachorrinho assustado é mais perigoso do que parece... ainda mais quando dão a ele um Ak-47!
Eu nunca tinha visto um gato de verdade, apenas fotos em revistas e desenhos em livros, mas sorri amarelo, fazendo careta, quando ambos se puseram a rir juntos de mim. Estava pensando em algo para tirar sarro dos dois quando uma coisa me chamou a atenção no telão e me fez virar o rosto de repente.
-Vocês viram aquilo?!
-Aquilo o que? -retrucou Passan, arregalando os olhos e se aproximando da tela.
-Volte a imagem, Lisie... isso, pare!
Eu e Passan cruzávamos o hall do prédio e nos dirigíamos para o corredor onde ficava o alçapão. Pouco antes de sumirmos da visão da câmera uma sombra cruzou uma porta do outro lado do salão. Lisie retrocedeu a imagem quadro a quadro, e parou no momento exato em que uma mancha escura saltava de um lado ao outro da porta.
sábado, 28 de agosto de 2010
82. Pêssegos em Calda
Passamos horas jogando conversa fora. Passan trouxe latas de frutas em calda e uma enorme garrafa de refrigerante. Pensei no quanto aquelas coisas valeriam em uma cidade como Tradeport, mas Passan não parecia saber disso, ou não se importava, e eu decidi que não me importaria também. No momento queria me preocupar apenas em aproveitar aquelas iguarias e a boa companhia dos meu novos amigos.
Logo descobri que fora Lisie quem disparou o sinalizador na noite anterior. Ela havia se demorado em uma de suas incursões pela cidade, em busca de comida ou qualquer coisa útil, e acabou cercada pelos Diabos em um prédio próximo. Então Passan, vencendo sua aversão em sair de seu esconderijo, principalmente durante a noite, saiu em resgate de sua nova pupila.
-Ela me lembra minha irmã. Não podia deixá-la à própria sorte -me confidenciou Passan, meio bêbado com o excesso de açúcar no sangue depois de uma lata inteira de doce de pêssego.
Lisie já estava morando ali havia algum tempo. Sua unidade do Rosa Radioativa fora debandada depois de um combate sangrento e Nova Bermil tinha sido uma feliz coincidência em seu caminho sem rumo. À beira da morte, de fome e frio, Passan a encontrou desmaiada em um beco da cidade. Seu instinto foi deixá-la lá, à própria sorte, como havia feito outras tantas vezes com outros que encontrou. Passan temia, com razão, que a localização de seu esconderijo pudesse ser delatada quando a pessoa se recuperasse e quisesse ir embora, e por essa razão tinha vencido o instinto de ajudar todas as vezes. Mas certo dia, ao se deparar com uma pilha magricela de pele, ossos e farrapos, não pode deixar de se apiedar e se aproximou. Reconheceu a rosa no símbolo do RR em meio aos restos de roupa que cobriam aquela criatura e decidiu deixar os riscos de lado. Quem quer que lutasse pelo RR, acreditava, não poderia ser má pessoa. Passan poderia ter pensado que alguém simplesmente tinha encontrado aquelas roupas em algum cadáver, tinha matado um dos soldados do RR e tomado sua roupa, ou que fosse um traidor deserdado, mas felizmente não pensou. E Lisie estava salva.
Agora eles se ajudavam. Passan tinha mapas e equipamentos, mas não tinha a habilidade e a agilidade necessárias para incursões pela cidade, enquanto Lisie não tinha nada além de suas habilidades e seus treinamentos militares. Juntando forças eles agora tinham recuperado suprimentos e equipamentos de todos os prédios próximos, de modo que Passan pode terminar de montar sua rede de vigilância em torno do esconderijo. Nada nem ninguém passava a menos de duas quadras de distância do subsolo daquele prédio sem que Passan soubesse. E enquanto me explicava todos os censores, câmeras e auto-falantes espalhados pelas redondezas um bipe começou a ser emitido de um dos equipamentos da sala, sendo seguido imediatamente por um monitor de computador, que piscou e ligou exibindo a imagem de uma das câmeras externas.
-A cada ano eles vem mais cedo... -falou Passan quase num sussuro, metendo outra colher de pêssegos na boca.
Logo descobri que fora Lisie quem disparou o sinalizador na noite anterior. Ela havia se demorado em uma de suas incursões pela cidade, em busca de comida ou qualquer coisa útil, e acabou cercada pelos Diabos em um prédio próximo. Então Passan, vencendo sua aversão em sair de seu esconderijo, principalmente durante a noite, saiu em resgate de sua nova pupila.
-Ela me lembra minha irmã. Não podia deixá-la à própria sorte -me confidenciou Passan, meio bêbado com o excesso de açúcar no sangue depois de uma lata inteira de doce de pêssego.
Lisie já estava morando ali havia algum tempo. Sua unidade do Rosa Radioativa fora debandada depois de um combate sangrento e Nova Bermil tinha sido uma feliz coincidência em seu caminho sem rumo. À beira da morte, de fome e frio, Passan a encontrou desmaiada em um beco da cidade. Seu instinto foi deixá-la lá, à própria sorte, como havia feito outras tantas vezes com outros que encontrou. Passan temia, com razão, que a localização de seu esconderijo pudesse ser delatada quando a pessoa se recuperasse e quisesse ir embora, e por essa razão tinha vencido o instinto de ajudar todas as vezes. Mas certo dia, ao se deparar com uma pilha magricela de pele, ossos e farrapos, não pode deixar de se apiedar e se aproximou. Reconheceu a rosa no símbolo do RR em meio aos restos de roupa que cobriam aquela criatura e decidiu deixar os riscos de lado. Quem quer que lutasse pelo RR, acreditava, não poderia ser má pessoa. Passan poderia ter pensado que alguém simplesmente tinha encontrado aquelas roupas em algum cadáver, tinha matado um dos soldados do RR e tomado sua roupa, ou que fosse um traidor deserdado, mas felizmente não pensou. E Lisie estava salva.
Agora eles se ajudavam. Passan tinha mapas e equipamentos, mas não tinha a habilidade e a agilidade necessárias para incursões pela cidade, enquanto Lisie não tinha nada além de suas habilidades e seus treinamentos militares. Juntando forças eles agora tinham recuperado suprimentos e equipamentos de todos os prédios próximos, de modo que Passan pode terminar de montar sua rede de vigilância em torno do esconderijo. Nada nem ninguém passava a menos de duas quadras de distância do subsolo daquele prédio sem que Passan soubesse. E enquanto me explicava todos os censores, câmeras e auto-falantes espalhados pelas redondezas um bipe começou a ser emitido de um dos equipamentos da sala, sendo seguido imediatamente por um monitor de computador, que piscou e ligou exibindo a imagem de uma das câmeras externas.
-A cada ano eles vem mais cedo... -falou Passan quase num sussuro, metendo outra colher de pêssegos na boca.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
81. Lisie
Quando o rádio chiou em cima da mesa e uma voz feminina chamou por Passan quase tive um ataque fulminante. Mas foi quando ela entrou no abrigo que o Universo parou por um instante para admirá-la. Acho que esqueci de respirar por alguns minutos, pois quando dei por mim estava ofegante.
-Passan, veja o que encontrei no terceiro andar. Parece que... -sua voz se perdeu quando seu olhar cruzou o meu. Seus lábios se moveram, mas não falaram. Seus olhos arregalaram e o que quer que estivesse segurando foi ao chão. Achei que fosse gritar de medo, mas uma única palavra inundou a sala. -Nuke!
Com o mesmo olhar de que me lembrava a garota se jogou contra mim em um abraço apertado. Muitos meses tinham se passado desde que a vi pela primeira vez. Na verdade, ela me vira primeiro. Eu havia acabado de fugir do acampamento dos Escravizadores e tinha passado boa parte da noite correndo na escuridão. Pouco antes de cair exausto entrei em um veículo abandonado e adormeci profundamente. Pouco depois estava sob a guarda do RR, o exército rebelde Rosa Radioativa, que cuidou dos meus ferimentos e me deu roupas e equipamentos para continuar minha jornada solitária. Mas o RR também levou algo de mim, dentro dos olhos azuis de uma de suas combatentes. E apenas agora eu me dava conta disso.
-Pelo visto já se conhecem mesmo, não é? -disse Passan com um sorriso. -Venham, vamos nos sentar, comer alguma coisa e botar a conversa em dia. Tenho uma ou duas latas de feijão que venho guardando pra uma ocasião como esta.
Passan trouxe os feijões e um vidro de geléia de amoras. Eu tenho vagas lembranças de ter comido feijão quando era um garotinho, mas geléia era a primeira vez que comia. Não me lembro bem do gosto, mas acho que era bom. Eu estava mais interessado em ouvir o que aqueles olhos azuis tinham a dizer, de modo que comer, pensar ou falar estavam em segundo, talvez até em terceiro plano.
-Obrigada por tê-lo deixado entrar, Passan. Mas não precisava tê-lo assustado daquele jeito, não é? Eu ouvi tudo lá de cima. Até que foi engraçado, mas o coitadinho deve ter morrido de medo -então eles já sabiam quem eu era. Ela sabia! -Veja como ele ainda está meio avoado. Deve estar assustado ainda.
Eu estava mesmo avoado, e realmente era por causa do susto. Mas não do que Passan me dera, e sim do que ela me dera. Sua presença ali era quase inacreditável e completamente inesperada. Não sabia o que dizer, e em minha mente só ficava imaginando quais as chances de isso ter acontecido. Ainda assim, depois de quase engolir a colher e engasgar com o feijão tentando juntar coragem, falei pela primeira vez.
-A-ainda não nos apresentamos -comecei sem jeito. -B-bom, você sabe meu nome... mas, eu não...
-Lisie. Muito prazer!
-Passan, veja o que encontrei no terceiro andar. Parece que... -sua voz se perdeu quando seu olhar cruzou o meu. Seus lábios se moveram, mas não falaram. Seus olhos arregalaram e o que quer que estivesse segurando foi ao chão. Achei que fosse gritar de medo, mas uma única palavra inundou a sala. -Nuke!
Com o mesmo olhar de que me lembrava a garota se jogou contra mim em um abraço apertado. Muitos meses tinham se passado desde que a vi pela primeira vez. Na verdade, ela me vira primeiro. Eu havia acabado de fugir do acampamento dos Escravizadores e tinha passado boa parte da noite correndo na escuridão. Pouco antes de cair exausto entrei em um veículo abandonado e adormeci profundamente. Pouco depois estava sob a guarda do RR, o exército rebelde Rosa Radioativa, que cuidou dos meus ferimentos e me deu roupas e equipamentos para continuar minha jornada solitária. Mas o RR também levou algo de mim, dentro dos olhos azuis de uma de suas combatentes. E apenas agora eu me dava conta disso.
-Pelo visto já se conhecem mesmo, não é? -disse Passan com um sorriso. -Venham, vamos nos sentar, comer alguma coisa e botar a conversa em dia. Tenho uma ou duas latas de feijão que venho guardando pra uma ocasião como esta.
Passan trouxe os feijões e um vidro de geléia de amoras. Eu tenho vagas lembranças de ter comido feijão quando era um garotinho, mas geléia era a primeira vez que comia. Não me lembro bem do gosto, mas acho que era bom. Eu estava mais interessado em ouvir o que aqueles olhos azuis tinham a dizer, de modo que comer, pensar ou falar estavam em segundo, talvez até em terceiro plano.
-Obrigada por tê-lo deixado entrar, Passan. Mas não precisava tê-lo assustado daquele jeito, não é? Eu ouvi tudo lá de cima. Até que foi engraçado, mas o coitadinho deve ter morrido de medo -então eles já sabiam quem eu era. Ela sabia! -Veja como ele ainda está meio avoado. Deve estar assustado ainda.
Eu estava mesmo avoado, e realmente era por causa do susto. Mas não do que Passan me dera, e sim do que ela me dera. Sua presença ali era quase inacreditável e completamente inesperada. Não sabia o que dizer, e em minha mente só ficava imaginando quais as chances de isso ter acontecido. Ainda assim, depois de quase engolir a colher e engasgar com o feijão tentando juntar coragem, falei pela primeira vez.
-A-ainda não nos apresentamos -comecei sem jeito. -B-bom, você sabe meu nome... mas, eu não...
-Lisie. Muito prazer!
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