Quando o planeta já não mais podia suportar a humanidade, uma luz brilhou no horizonte e subiu aos céus.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

83. Luz, Câmera, Sombra

A tela que se iluminou estava vazia. Bom, não vazia, já que mostrava uma esquina atulhada de escombros e uma rua cheia de esqueletos de prédios semi-destruídos, mas nada de anormal estava à vista. Passan soltou um risinho e resmungou alguma coisa, puxou um teclado mais para perto e se pôs a digitar. Instantes depois a tela piscou novamente, mas dessa vez a imagem exibida era escura, em tons de preto e azul. Primeiro não entendi, mas logo manchas vermelho e laranja começaram a se materializar em meio à escuridão. Passan tinha mudado para a câmera para visão de calor, e agora quem se escondia em meio aos escombros brilhava como lanternas na noite.

-Eles são de uma gangue do outro lado da cidade. Comerciei com eles nos primeiros anos, mas um dia, quando estavam doidões, tentaram me forçar a mostrar meu esconderijo e quase me mataram. Deixei três deles de jantar para os diabos e nunca mais troquei nada com eles, ainda que insistam todos os anos. Devem estar desesperados atrás de suprimentos e equipamentos pois cruzam essa região pelo menos uma vez por mês. Talvez estejam me procurando, mas quase nem me preocupo, são burros demais. Acho que eles pensam que ninguém consegue vê-los com aquelas roupas camufladas.

De fato aqueles caras eram difíceis de ser ver quando estavam parados, a espera de uma vítima, mas qualquer um que estivesse observando uma passagem ou uma rua com um pouco mais de atenção seria capaz de vê-los se aproximando. Mas Passan não estava para brincadeira, ainda que duvidasse da capacidade intelectual daquela gangue de mortos de fome, e não tirou os olhos do monitor. Seu indicador estava apoiado em um dos botões do teclado, pronto para ser apertado. Não resisti e perguntei:

-Por acaso esse botão aí vai detonar uma bomba nuclear, é?

-Nuclear não, mas se aqueles imbecis entrarem aqui -respondeu Passan em tom um pouco sério- vão ter uma bela dor de cabeça pra juntar as partes de seus corpos pelo chão.

Dei uma risada, comi o último pêssego em calda da lata e comecei a observar o imenso telão no fundo da sala que mostrava todas as câmeras instaladas por Passan. Era uma tela quadrada de pelo menos um metro e meio, dividida em vinte e cinco quadrados menores, cada um mostrando uma imagem diferente. Uns 4 ou 5 quadrados mostravam apenas chuvisco, de modo que pelo menos 20 câmeras estavam em funcionamento. Lisie se aproximou para olhar o monitor e senti quando seu braço quase esbarrou no meu, fazendo os pelos arrepiarem em uma onda até o ombro.

-Vamos ver o seu susto de hoje cedo? -e dizendo isso clicou em um dos quadrados da tela que mostrava o hall de entrada do prédio. O quadrado aumentou de tamanho, ocupando alguns dos quadrados adjacentes e botões surgiram próximos à base. Lisie apertou o botão "voltar" várias vezes, mas a imagem mostrada pareceu imóvel. Apenas a variação de luminosidade do hall indicava o passar das horas. Quando a luz começou a ficar mais fraca e uma figura se moveu rápido pela tela Lisie parou. -Pronto, Passan está se aproximando de você, de braços erguidos. E você... tremendo como uma vara verde! -pôs-se a gargalhar, apontando o dedo para mim.

-Devo admitir que fiquei com medo de você se assustar e puxar o gatilho... Nunca se sabe, não é? -Passan tinha decidido que o caminho tomado pela gangue de homens camuflados seguia em uma direção segura e tinha se juntado à Lisie na chacota contra mim. -Um cachorrinho assustado é mais perigoso do que parece... ainda mais quando dão a ele um Ak-47!

Eu nunca tinha visto um gato de verdade, apenas fotos em revistas e desenhos em livros, mas sorri amarelo, fazendo careta, quando ambos se puseram a rir juntos de mim. Estava pensando em algo para tirar sarro dos dois quando uma coisa me chamou a atenção no telão e me fez virar o rosto de repente.

-Vocês viram aquilo?!

-Aquilo o que? -retrucou Passan, arregalando os olhos e se aproximando da tela.

-Volte a imagem, Lisie... isso, pare!

Eu e Passan cruzávamos o hall do prédio e nos dirigíamos para o corredor onde ficava o alçapão. Pouco antes de sumirmos da visão da câmera uma sombra cruzou uma porta do outro lado do salão. Lisie retrocedeu a imagem quadro a quadro, e parou no momento exato em que uma mancha escura saltava de um lado ao outro da porta.

sábado, 28 de agosto de 2010

82. Pêssegos em Calda

Passamos horas jogando conversa fora. Passan trouxe latas de frutas em calda e uma enorme garrafa de refrigerante. Pensei no quanto aquelas coisas valeriam em uma cidade como Tradeport, mas Passan não parecia saber disso, ou não se importava, e eu decidi que não me importaria também. No momento queria me preocupar apenas em aproveitar aquelas iguarias e a boa companhia dos meu novos amigos.

Logo descobri que fora Lisie quem disparou o sinalizador na noite anterior. Ela havia se demorado em uma de suas incursões pela cidade, em busca de comida ou qualquer coisa útil, e acabou cercada pelos Diabos em um prédio próximo. Então Passan, vencendo sua aversão em sair de seu esconderijo, principalmente durante a noite, saiu em resgate de sua nova pupila.

-Ela me lembra minha irmã. Não podia deixá-la à própria sorte -me confidenciou Passan, meio bêbado com o excesso de açúcar no sangue depois de uma lata inteira de doce de pêssego.

Lisie já estava morando ali havia algum tempo. Sua unidade do Rosa Radioativa fora debandada depois de um combate sangrento e Nova Bermil tinha sido uma feliz coincidência em seu caminho sem rumo. À beira da morte, de fome e frio, Passan a encontrou desmaiada em um beco da cidade. Seu instinto foi deixá-la lá, à própria sorte, como havia feito outras tantas vezes com outros que encontrou. Passan temia, com razão, que a localização de seu esconderijo pudesse ser delatada quando a pessoa se recuperasse e quisesse ir embora, e por essa razão tinha vencido o instinto de ajudar todas as vezes. Mas certo dia, ao se deparar com uma pilha magricela de pele, ossos e farrapos, não pode deixar de se apiedar e se aproximou. Reconheceu a rosa no símbolo do RR em meio aos restos de roupa que cobriam aquela criatura e decidiu deixar os riscos de lado. Quem quer que lutasse pelo RR, acreditava, não poderia ser má pessoa. Passan poderia ter pensado que alguém simplesmente tinha encontrado aquelas roupas em algum cadáver, tinha matado um dos soldados do RR e tomado sua roupa, ou que fosse um traidor deserdado, mas felizmente não pensou. E Lisie estava salva.

Agora eles se ajudavam. Passan tinha mapas e equipamentos, mas não tinha a habilidade e a agilidade necessárias para incursões pela cidade, enquanto Lisie não tinha nada além de suas habilidades e seus treinamentos militares. Juntando forças eles agora tinham recuperado suprimentos e equipamentos de todos os prédios próximos, de modo que Passan pode terminar de montar sua rede de vigilância em torno do esconderijo. Nada nem ninguém passava a menos de duas quadras de distância do subsolo daquele prédio sem que Passan soubesse. E enquanto me explicava todos os censores, câmeras e auto-falantes espalhados pelas redondezas um bipe começou a ser emitido de um dos equipamentos da sala, sendo seguido imediatamente por um monitor de computador, que piscou e ligou exibindo a imagem de uma das câmeras externas.

-A cada ano eles vem mais cedo... -falou Passan quase num sussuro, metendo outra colher de pêssegos na boca.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

81. Lisie

Quando o rádio chiou em cima da mesa e uma voz feminina chamou por Passan quase tive um ataque fulminante. Mas foi quando ela entrou no abrigo que o Universo parou por um instante para admirá-la. Acho que esqueci de respirar por alguns minutos, pois quando dei por mim estava ofegante.

-Passan, veja o que encontrei no terceiro andar. Parece que... -sua voz se perdeu quando seu olhar cruzou o meu. Seus lábios se moveram, mas não falaram. Seus olhos arregalaram e o que quer que estivesse segurando foi ao chão. Achei que fosse gritar de medo, mas uma única palavra inundou a sala. -Nuke!

Com o mesmo olhar de que me lembrava a garota se jogou contra mim em um abraço apertado. Muitos meses tinham se passado desde que a vi pela primeira vez. Na verdade, ela me vira primeiro. Eu havia acabado de fugir do acampamento dos Escravizadores e tinha passado boa parte da noite correndo na escuridão. Pouco antes de cair exausto entrei em um veículo abandonado e adormeci profundamente. Pouco depois estava sob a guarda do RR, o exército rebelde Rosa Radioativa, que cuidou dos meus ferimentos e me deu roupas e equipamentos para continuar minha jornada solitária. Mas o RR também levou algo de mim, dentro dos olhos azuis de uma de suas combatentes. E apenas agora eu me dava conta disso.

-Pelo visto já se conhecem mesmo, não é? -disse Passan com um sorriso. -Venham, vamos nos sentar, comer alguma coisa e botar a conversa em dia. Tenho uma ou duas latas de feijão que venho guardando pra uma ocasião como esta.

Passan trouxe os feijões e um vidro de geléia de amoras. Eu tenho vagas lembranças de ter comido feijão quando era um garotinho, mas geléia era a primeira vez que comia. Não me lembro bem do gosto, mas acho que era bom. Eu estava mais interessado em ouvir o que aqueles olhos azuis tinham a dizer, de modo que comer, pensar ou falar estavam em segundo, talvez até em terceiro plano.

-Obrigada por tê-lo deixado entrar, Passan. Mas não precisava tê-lo assustado daquele jeito, não é? Eu ouvi tudo lá de cima. Até que foi engraçado, mas o coitadinho deve ter morrido de medo -então eles já sabiam quem eu era. Ela sabia! -Veja como ele ainda está meio avoado. Deve estar assustado ainda.

Eu estava mesmo avoado, e realmente era por causa do susto. Mas não do que Passan me dera, e sim do que ela me dera. Sua presença ali era quase inacreditável e completamente inesperada. Não sabia o que dizer, e em minha mente só ficava imaginando quais as chances de isso ter acontecido. Ainda assim, depois de quase engolir a colher e engasgar com o feijão tentando juntar coragem, falei pela primeira vez.

-A-ainda não nos apresentamos -comecei sem jeito. -B-bom, você sabe meu nome... mas, eu não...

-Lisie. Muito prazer!

terça-feira, 27 de julho de 2010

80. Passado de Passan

O aviso de bombardeio tinha sido dado em todas as cidades. Em todas as cidades do mundo, talvez. Não havia local seguro conhecido. Todos os locais eram alvos potenciais, tanto urbanos quanto rurais. Poucos conseguiram deixar as cidades onde estavam para encontrar amigos ou familiares em outras cidades. As rodovias congestionaram antes que os destinos fossem alcançados e, com o passar do tempo, sem policiamento, tornaram-se intermináveis campos de batalha, onde a população com medo e sem auxílio se enfrentava irracionalmente até a morte. O exército foi convocado a intervir, mas não havia contingente suficiente para cobrir todas as estradas, a enorme maioria das tropas já estava mobilizada nas fronteiras ou em outros países, preparando-se para a guerra iminente.

Eu e uns poucos colegas de trabalho morávamos em outras cidades, e portanto não tivemos para onde ir. Nos abrigamos no estacionamento subterrâneo do prédio, sobrevivendo com os suprimentos estocados no porão por ordem do governo. Mas comida não alimenta o espírito, e meus companheiros não suportaram a dor da espera. Mesmo as ruas tomadas por saqueadores e gangues parecia menos perigosa que ficar aprisionado em um lugar escuro com sua própria mente. E um dia antes de o céu irromper em chamas eles deixaram o prédio. Nunca mais os vi.

Mesmo sozinho, comecei a organizar e colocar em funcionamento os equipamentos que haviamos transportado para o estacionamento. Tínhamos a esperança de que a guerra fosse passageira e que nosso trabalho depois dela fosse ajudar a população a se reestabelecer. Trabalhávamos em uma rádio de alcançe nacional, transmitindo notícias à centenas de cidades, e decidi que faria sozinho o máximo que pudesse. Mas a guerra não acabou, e então não havia mais o que transmitir.

Quando a cidade parou de fumegar e o fogo consumiu seu último pedaço de madeira, tropas começaram a marchar. Mas mesmo os exércitos, um dia, terminaram de se exterminar, e apenas almas perdidas passaram a vagar por Nova Bermil. Inclusive eu. E foi em uma de minhas longas caminhadas pelos escombros que encontrei algo que me fez voltar ao trabalho. Em uma casa, no subúrbio da cidade, havia uma garagem com um carro esporte. Fiquei imaginando como um carro daquele ainda estava ali, intacto. Me aproximei um pouco e logo ficou claro o motivo de não terem tocado no veículo: uma ogiva havia atravessado o teto de madeira e assentado no banco traseiro. Eu não me importava, naquela época, em ser varrido por uma explosão, e sentei-me no banco ao lado, só para ouvir o tic-tac da morte vindo daquele tubo de metal recheado de explosivos.

Adormeci com o som e acordei apenas com o frio da noite. Quando saltei fora do carro pisei em um casaco esquecido ali, semanas atrás, e achei-me sortudo por não ter de caminhar em companhia do frio. Mas foi apenas quando retornei ao porão do prédio que me dei conta da sorte que havia no bolso do casaco: um mini music-player.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

79. Alçapão

Segui Passan pelos corredores do primeiro andar do prédio. Eu já havia checado todos aqueles cômodos no dia anterior, mas nada disse a Passan, que parecia determinado em seus passos pesados. Seguimos até as escadas de emergência, protegidas no passado por portas-corta fogo, cujo acesso aos andares superiores estava bloqueado por uma muralha de destroços. Passan percebeu meu olhar perdido e falou:

-Relaxe, não vamos por aí. Os militares bloquearam todas as passagens para os andares superiores, de todos os prédios da cidade. Mataram todos os que encontraram e se certificaram de não deixar esconderijos para atiradores. Nós vamos por aqui.

Passan se abaixou com dificuldades debaixo do vão da escada. Ali, camuflado por escombros de uma explosão que demoliu a porta e parte da parede do corredor, estava um alçapão. Uma escada de aço inoxidável descia em meio à escuridão. Espremendo a barriga protuberante Passan desceu os degraus lentamente. Segui-o, esforçando-me para fazer minha mochila caber na abertura. Dez metros de puro concreto abaixo havia uma pequena sala com uma única porta de aço. Não havia maçaneta ou tranca, mas ao lado havia um scanner de cartão, brilhando com seus LEDs fluorescentes. Passan tirou um crachá de identificação do bolso e passou na abertura. A porta emitiu um estalo e girou, revelando um corredor mal iluminado e outra uma porta.

-Se alguém lá dentro fechar essa segunda porta, não há como abrir pelo lado de fora. Uma medida para que hackers não pudessem entrar no abrigo. Veja. Essas travas de aço resistiriam até mesmo à explosivos. Sem falar que...

Tudo o que Passan disse a seguir não foi captado por meu cérebro. Eu tinha caminhado pelo pequeno corredor que havia adiante e entrado pela porta e, a partir de então minha mente estava abalada, tentando compreender a enorme quantidade de equipamentos e luzes piscantes que havia naquele lugar. Um zumbido fazia a trilha sonora da sala e me mantinha em transe. Na parede oposta havia um gigantesco monitor, cobrindo metade da parede, cuja tela estava dividida em quadrados menores, cada qual mostrando uma imagem diferente. Já me aproximava para observar melhor quando uma voz ecoou pela sala vinda de um robusto aparelho de rádio.

-Passan, na escuta? Passan? - disse uma familiar voz feminina, que me fez um nó na garganta.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

78. Passan

Ainda descia o terceiro degrau quando uma voz estrondosa ecoou pelo hall de entrada do prédio.

-ESPERE. ESPERE, GAROTO.

Meus músculos se retesaram, da testa ao calcanhar, e em uma fração de segundo me jogaram contra a parede. Podia sentir a adrenalina correndo em minhas veias, enquanto agarrava com força minha arma. Olhei de um lado ao outro da rua, mas nada havia além de escombros e neve. Chequei mais uma vez, apertando os olhos para enxergar mais longe, mas nada se movia.

-CALMA GAROTO, CALMA.

Lutei para que minhas pernas me obedecessem. Retornei ao interior do prédio em um só pulo, com o dedo no gatilho da arma. Também não havia ninguém ali. Mas a voz continuou:

-GAROTO, SE PROMETER ABAIXAR A ARMA, EU APAREÇO.

Mas é claro!, pensei. Claro que eu não abaixaria. Voltei para o local onde havia feito a fogueira, de lá eu podia observar a rua sem me expor. No peito, meu coração estava a ponto de explodir, mas continuava tentando bater mais e mais rápido. Olhei novamente pela rua. Nada.

-OLHA, GAROTO, VOU APARECER, MAS VÊ SE NÃO APERTA ESSE GATILHO, NÃO QUERO TE FAZER MAL.

Virei-me de costas para a parede e fiquei observando a rua com o canto do olho, pela borda da janela. Minhas mãos comprimiam o cabo da arma, meu indicador roçava o gatilho, pronto para disparar. Quase molhei as calças quando um homem rechonchudo, de barba farta e cabelos sebosos cruzou a recepção do prédio em minha direção. Um microfone com fones-de-ouvido pendia em seu pescoço. O homem caminhava devagar, com os braços abertos e olhos meio assustados.

-Q-quem é você? -gaguejei, apontando a arma em sua direção.

-EU SOU... - a voz reverberou nas paredes. O homem fez uma careta e então, num movimento lento e calculado, sem tirar os olhos de mim, apertou um botão num dos fones do aparelho. -Alô? Isso. Desculpe. Agora sim, podemos conversar. Meu nome é Passan, e o seu?

Ainda hoje não acredito em minha sorte quando relembro momentos como este. O homem podia ser um louco, assassino, canibal, em busca de sua próxima presa fácil. Mas isso sequer me passou pela cabeça naquele momento. Seu olhar não parecia esconder segundas intenções, e meu sexto sentido dizia que era de confiança. Quando me estendeu a mão, querendo me cumprimentar, estiquei-lhe a minha. Alguma coisa naquele homem me lembrava Thompson, e isso trazia algum conforto em mim que não podia ser ignorado.

Lembrei-me também de Anne, Lyriel, Yoseph e até de Von Ricky. Bons amigos, por mais curta que minha convivência com eles tenha sido. E, naquelas lembranças, não reparei quando os primeiros raios de sol que aquele mundo via em duas décadas escaparam de sua prisão de nuvens e iluminaram a entrada do prédio.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

77. Sono, Sonho e Sangue

Perdi a noção do tempo. Vaguei sem rumo pelas ruas, sorrateiro. As sombras da noite pareciam se mover, fechando-se sobre mim. Cada canto escuro parecia esconder olhos a espreita. Ao longe podia ouvir os uivos e ganidos dos Diabos. A brisa que soprava incessante gelava meu corpo como se eu estivesse nu. E, bem verdade, era assim que me sentia dentro de cidades. Muitos esconderijos, armadilhas e inimigos bastando atravessar uma rua não é boa pedida para um cara sozinho e mal equipado. Já espaços abertos são perigosos contra rifles, claro, mas olhos atentos e um pouco de sorte são suficientes para a maioria dos problemas.

Muito tempo depois de deixar o acampamento comecei a observar a silhueta que a cidade formava contra os primeiros raios de sol que venciam a grossa camada de nuvens. A aproximação do amanhecer trazia um pouco de esperança. Não que eu temesse ficar preso ou mesmo morrer na cidade, mas um novo dia era sempre um novo dia, por mais clichê que isso soasse nos livros em que li. E quando minhas pernas pediam descanso e meus olhos começavam a se fechar pela falta de sono de dois dias, procurei abrigo em um prédio abandonado. As janelas tinham se quebrado há muito, apenas alguns lugares ainda tinham uma fraca camada de tinta cobrindo os tijolos, as portas tinham sido arrancadas, e no topo da escada que levava ao hall de entrada apenas os vasos de planta ainda mantinham-se inteiros... sem planta alguma.

Subi os degraus de três em três. Sair dos destroços da rua era um alívio, mas pensar em descansar era ainda mais reconfortante. As nuvens no céu se iluminavam quando terminei de fazer uma rápida inspeção no andar térreo do prédio. A porta para os andares de cima estava trancada, e não parecia haver outro modo de subir. Aproveitei para juntar uma boa quantidade de madeira. Acendi uma bem-vinda fogueira próxima a uma janela, de modo que a fumaça não tomaria conta do lugar, estiquei-me no saco-de-dormir e esperei que o cansaço dominasse meu corpo e me levasse para o mundo dos sonhos. E não demorou muito.

Acordei assustado. O som de uma explosão ecoou pelas ruas. Em seguida o som de sirenes anti-aéreas inundou a brisa que entrava pela janela. Em seguida o barulho das correntes de um blindado e de uma tropa em marcha começou a aumentar na rua. Encolhi-me o máximo que pude na quina das paredes, já com minha arma em punho, esperando que um exército invadisse o prédio. De repente, o som de um foguete cortando o ar e uma explosão de fogo e ferro contorcido, iniciou o combate. O som das metralhadoras cuspindo balas era frenético, enquanto o de corpos tendo suas cabeças dilaceradas por disparos certeiros era inconfundível.

Quando tudo silenciou, ainda esperei alguns instantes mais. Finalmente ergui a cabeça pela janela e olhei para a rua. Não havia fogo, destroços de veículos, corpos ou qualquer coisa que remetesse a um combate recente. Ainda assustado, pus-me de pé e segui para a porta de entrada. Finalmente, do outro lado da rua, avistei morte. Não me aproximei, mas pude ver o corpo de alguns Diabos dilacerados em cima de uma pilha de detritos. A julgar pelos ratos que atacavam os corpos, as mortes eram recentes. Uma trilha de sangue atravessava a rua e seguia para o prédio em que eu estava. Algo ou alguém tinha se ferido e buscado abrigo ali também. Eu não estava sozinho.

Com mais dúvidas em mente retornei à fogueira. Uma batalha sangrenta deveria ter acontecido do lado de fora, mas simplesmente desapareceu. Uma trilha de sangue entrava no prédio, mas não seguia a lugar nenhum dentro dele. E, finalmente, mas de maneira nenhuma menos importante, eu havia posto madeira na fogueira suficiente para durar oito longas horas de sono, mas as cinzas e o carvão restantes estavam gelados como a neve do lado de fora. Peguei meus pertences, guardei o saco-de-dormir e me preparei para voltar à caminhar. Antes de sair, lembrei de adicionar mais um motivo para não gostar de cidades: coisas estranhas acontecem dentro delas.

domingo, 31 de janeiro de 2010

73. Diabos de Bermil

Meu primeiro turno de doze horas foi ainda no dia em que cheguei a Bermil. Um grupo de dez trabalhadores me tinha sido designado, e sua segurança dependia de mim. Meu trabalho era simples: impedir que algum deles morresse. Nos dirigimos à montanha de escombros na qual eles trabalhariam, a cerca de um quilómetro do acampamento, e de lá sondei os arredores. Estávamos sobre os restos de um prédio de escritórios de vinte andares, que ocupara metade da quadra antes de desabar, e que agora estava esparramado sobre prédios menores. Era um lugar com boas chances de se encontrar peças de computador, o que dava ânimo extra ao trabalho.

Deixei que trabalhassem e me posicionei no segundo andar de um sobrado do outro lado da rua. Estávamos em uma área considerada segura, mas não eram raros os casos de soldados abatidos nessas áreas. Sentado em uma pilha de tijolos, podia observar o grupo trabalhando sob as placas de concreto, ao mesmo tempo em que tinha uma visão desobstruída dos dois lados da rua e de metade da rua perpendicular. Um casal de corujas brancas foi o maior perigo que avistei durante todo o dia. Pelo menos para elas ainda havia comida de sobra no mundo, já que ratos e ratazanas se fartando com tudo o conseguiam roer era o que não faltava em Bermil. Retornamos ao anoitecer para o acampamento, sem que muito tivesse sido recuperado do antigo prédio.

Aquele primeiro dia tinha me animado, não tinham acontecido problemas, e todos estavam vivos e intactos de volta ao acampamento, fazendo-me esquecer um pouco da tristeza que tinha se abatido em mim por deixar Anne e Thompson em Amrak sem aviso. É claro, eu não tinha tido muita escolha entre vir ou não para Bermil, mas também não tinha me esforçado em avisá-los. Mas logo eles me procurariam e alguém os avisaria de onde eu estava, eu esperava. E absorto nesses pensamentos não vi o segundo dia passar, chegando a meu segundo turno, dessa vez noturno.

Dessa vez eu não teria que proteger ninguém. Trabalhar a noite não era arriscado, como descobri logo, era impossível. Um soldado veterano me acompanhou nessa primeira noite em claro em Bermil. Seu nome era Prank, tinha olhos duros de quem já viu mortes demais e viveu além do que gostaria, e sua barba estava por fazer. Mas ainda que sua função fosse me ensinar, não precisei de muitas palavras ou horas de vigia para aprender com o que eu teria de me preocupar. Nos abrigamos no mesmo lugar em que fiz meu primeiro turno, mas dessa vez Prank barricou a porta com escombros. Tão logo a noite avançou sobre as cidade em ruínas sombras começaram a se mexer por toda a parte, grunhindo, rosnando e uivando. Os soldados os chamavam de Diabos, e à primeira visão daqueles dentes afiados e olhos vermelhos, concordei.

76. Voluntário

-Como todos devem estar sabendo, um pedido de ajuda foi avistado no céu cerca de meia hora atrás -disse o general -o qual sequer soube o nome- que comandava as tropas em Bermil àqueles que estava ali. -Não temos informações de que seja algum dos nossos, e nem dispomos de um contingente que permita o envio de um grupo de ajuda neste momento. Ao amanhecer um dos grupos de extração fará uma breve missão de reconhecimento e...

-Senhor, eu me voluntário para a missão -falei de subto, fazendo alguns soldados próximos me olharem com espanto.

-Não me lembro de ter pedido voluntários, soldado -retrucou o general, enfatizando a última palavra. Abriu levemente os lábios, como se fosse continuar o discurso, quando parou e pensou um segundo ou dois, então virou-se novamente para mim e continuou. -Muito bem, soldado. Se está tão animado assim, vá. Pegue seus pertences, o que lhe é direito do soldo e deixe este acampamento. Dou-lhe uma hora.

Todos pareciam ter prendido a respiração para ouvirem com clareza cada palavra dita pelo general. Não se ouvia nem mesmo o vento. Ignorando todos os olhares bati continência, dei de costas e segui para minha barraca, onde recolhi minha mochila. Em seguida me dirigi ao depósito de suprimentos e equipamentos, onde me pagaram pelos meses de trabalho em Amrak e as semanas a serviço do exército. Meu salário não havia rendido muito, mas descobri que Thompson havia vendido o carro que Mark nos dera em Tradeport e mandado o dinheiro a mim, de modo que pude comprar roupas, suprimentos e armas. Gastei cada crédito que pude antes de me tirarem a pulseira, não deixaria para eles nem um tostão ganho com meu suor.

Não houveram despedidas ou conselhos. Dois soldados me guiaram para a saída do acampamento, e dali olharam com olhos frios eu me afastar. Sequer pude esperar o amanhecer, mas me consolava saber que os Diabos já deviam estar se fartando com a carne de um pobre coitado a essa hora. Eu não esperava encontrar sobreviventes, nem mesmo sabia em que direção seguir. Sabia apenas que aquela era mais uma das oportunidades que apareciam em minha infinita jornada para que eu mudasse de rumo e seguisse adiante. Eu era novamente livre, e adiante de mim havia apenas um vasto jardim de neve e ruínas pronto para explorar.

-Nuke! Nuke! -chamou-me alguém, enquanto eu já me adiantava pelas ruas de Bermil. Virei-me e vi Prank correndo em minha direção com alguma coisa nas mãos. -Um amigo seu enviou isso algumas horas atrás. Acabei de encontrar lá na sua barraca, parece que só entregaram agora. Ainda bem que cheguei a tempo.

Era o pequeno pé de morangos de Thompson. As folhas estavam amassadas e ressecadas pelo frio, mas parecia bastante saudável para uma planta tão frágil em condições tão adversas.

75. Fogo no Céu

Podíamos ouvir as garras arranhando a parede e a barricada no andar debaixo. Mesmo a quatro metros de altura, a janela parecia ser apenas um pouco mais alta do que os cães conseguiam saltar. O focinho de um deles chegou a aparecer de relance, e em uma fração de segundo Prank conteve o impulso de disparar. Mesmo sob o vento que corria pelas ruas destruídas era possível distinguir o som de dezenas de criaturas cheirando e fuçando em cada canto, procurando um modo de nos alcançar. A tensão quase podia ser sentida com as mãos. Por um tempo incontável mal respiramos, na esperança que desistissem de nós, mas a possibilidade de carne fresca dava àquelas aberrações uma determinação impossível.

De olhos vidrados na janela, Prank mexeu as pernas num espasmo estranho. Pensei que ele se levantaria e pularia pela janela, mas então chacoalhou a cabeça e piscou vigorosamente, como se voltasse à realidade. Olhou para mim e passou o dedão pela garganta, num sinal entendido pelos militares como uma ordem para matar. Fiz que não com a cabeça, mas ele simplesmente se levantou, apoiou a metralhadora no ombro e se aproximou da janela procurando um alvo. Eu já me preparava para levantar e me juntar à matança quando um grito quase inaudível fez tudo silenciar. Ao longe alguém gritava de desespero, em meio a disparos de espingarda. Imediatamente, como uma gigantesca sombra se movendo pela rua, as criaturas que nos cercavam avançaram em direção aos sons.

Lembro-me pouco do que aconteceu em seguida. Sei que Prank e eu olhamos um para o outro e concordamos no mesmo instante que aquela era hora de partir. Pulamos a janela em segundos e desatamos a correr pelos escombros da rua, agora vazia. Corremos sem olhar para trás, e não paramos nem mesmo para ajudar um ao outro quando inevitáveis tropeços e escorregões aconteceram. Quando finalmente nos aproximamos do acampamento de Amrak um enorme facho de luz nos cegou, fazendo-nos parar em uma derrapada. Protegemos os olhos com os braços, mas já estávamos ofuscados. Mal pude ver quando dois homens se aproximaram de nós, de armas em punho, e nos mandaram erguer os braços. Não tínhamos muita escolha, então obedecemos. Eu já suspeitava que o acampamento estivesse tomado, e já me preparava mentalmente para enfrentar o que quer que viria, mas felizmente não houveram surpresas. Um dos guardas tinha vindo comigo de Amrak e me reconheceu.

-Ei, é aquele cara que veio comigo de Amrak. Desculpem amigos, podem abaixar os braços e pegar suas armas. Estamos sendo precavidos, parece que uns tipos estranhos andaram passando perto demais do acampamento.

Sequer tivemos chance de perguntar ou contar algo sobre os Diabos quando um ponto luminoso escalou o breu da noite e estourou em uma cascata de fagulhas pouco abaixo da camada de nuvens manchando de vermelho-sangue a escuridão. Alguém pedia ajuda do outro lado das ruínas de Bermil.

74. Melhor Amigo do Homem

De cada fenda, vão ou buraco uma sombra se ergueu. Eram centenas, talvez milhares. Pareciam rastejar na poeira e na neve, por entre os destroços da cidade. Se espalharam pelas ruas, farejando e fuçando por todo lado. Aqui e ali um rato podia ser ouvido tentando correr por sua vida, mas logo uma onda de sombras se mexia e os guinchos do roedor davam lugar ao som de rosnados e ganidos, num emaranhado de corpos lutando pela carne fresca. As brigas e disputas duraram por uma ou duas horas, e só pararam quando um uivo cortou a escuridão. Prank e eu nos encolhemos de súbito, atordoados pela melancolia que se abateu sobre a noite. Não sabíamos de onde vinha, mas era como se todas as mulheres e crianças que morreram naquela cidade chorassem ao mesmo tempo, criando um lamento único e devastador para quem ouvisse.

-Veja, eles estão se amontoando ali -falou Prank, apontando para uma pilha de escombros quase no final da rua.

Com o binóculos podíamos ver claramente as criaturas se reunindo em volta dos restos de um prédio. O uivo ficou ainda mais forte e detrás dos escombros surgiu um enorme animal. Tinha metade da altura de um homem, e provavelmente seria muito maior que um ao ficar sobre as patas traseiras. Seu pelo era curto, sua pele parecia esticada demais sobre o esqueleto e os músculos, suas orelhas eram pontudas e seu rabo era quase tão grande quanto o corpo.

-Esse deve ser o líder da matilha, com certeza -disse Prank, num sussurro quase inaudível.

-Mas o que eles são, afinal?

-Eles já foram um dia o melhor amigo do homem.

-Cães?

-Quando seus donos morreram ou fugiram por causa da guerra, só lhes restou uma opção para sobreviverem: instinto. Aqueles que não sucumbiram pela fome, doenças ou frio, reproduziram-se e tornaram-se no que você vê hoje. Devem ter se misturado com os lobos, e provavelmente são mais fortes e ferozes que eles. Verdadeiras máquinas de matar sobre quatro patas. Podem farejar comida à grande distância. Com certeza sabem que estamos aqui.

Ecoei essas últimas palavras de Prank em minha mente, enquanto reparava que várias daquelas criaturas miravam seus olhares para nossa direção de quando em quando. Eles definitivamente sabiam que estávamos ali. Não havia como eles subirem até nós, a não ser que fossem capazes de saltar mais de quatro metros de altura, mas ainda assim eu não me sentia plenamente seguro. Conferi minha arma e deixei-a em punho. Prank me olhou de soslaio. Pensei que fosse rir de mim, mas então engatilhou a própria arma e deixou-a também à postos. Como se pressentissem nossos temores as criaturas se espalharam novamente pela escuridão num piscar de olhos. E num jogo de gato e rato, apareciam e desapareciam nas sombras. Minutos de tensão culminaram em fungadas e rosnados logo abaixo da janela que escolhemos para fazer vigília.

-Eles sabem que estamos aqui. Estão tramando alguma -sussurrei desconfiado, tentando não deixar o medo transparecer.

-Querem nos assustar, estão brincando conosco. São criaturas inteligentes, mestres da sobrevivência. -Prank não se preocupou em esconder o medo, mas pareceu confiante de que os cães -ou o que quer que fossem- não poderiam nos alcançar ali.

De repente um silêncio tomou conta da noite. Até mesmo a brisa que soprava constante por entre as ruínas da cidade tinha prendido a respiração.

-Que Deus tenha piedade de nós... -ouvi Prank murmurar, fazendo o sinal da cruz.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

72. Campo de Exploração de Destroços

A inesperada e súbita partida a Bermil aconteceu ainda aquela noite. Quando fui embarcado no veículo que me levaria aos campos de exploração de destroços, descobri que minha bagagem tinha sido arrumada e já estava embarcada. O caminhão que faria o transporte era grande, e dentro haviam cerca de outros vinte soldados de Amrak, todos pouco mais velhos que eu, com excessão de dois, que pareciam ter idade para ser pai qualquer outro ali.

Ninguém conversou muito durante todo o percurso, que não era maior que vinte quilómetros, mas pelas poucas palavras trocadas pude perceber que havia mais em comum entre nós além da idade: todos havíamos, de algum modo, tocado em um ponto indevido das fundações político-militares de Amrak e seu exército, e de suas relações com outras cidades e facções. Bermil não era simplesmente uma fonte extra de recursos e riquezas, era um lugar suficientemente longe de Amrak no qual espertinhos curiosos podiam ser mantidos longe de descobrirem mais sobre o que não deviam. Chegamos com a noite ainda escurecendo as nuvens e fomos mandados direto às barracas de campo, onde teríamos pouco menos de duas horas de sono antes que começássemos nossas novas funções ao nascer do dia.

Pela manhã pudemos vislumbrar pela primeira vez o que nos aguardava. Aquele ambiente era novo para a maioria, mas como um ex-escravo eu estava acostumado e não me surpreendi nem um pouco. O acampamento havia sido erguido em uma clareira aberta em meio aos escombros de dezenas de construções. O entulho retirado tinha sido empilhado por toda a volta, criando uma espécie de muralha, e apenas uma única entrada, apontando para onde o sol nascia por detrás das nuvens, havia sido deixada para a entrada de veículos. Cerca de cento e cinquenta soldados podiam se apinhar por ali, mas o efetivo era de mais de duzentos e oitenta, de modo que tudo funcionava em esquema de revezamentos.

Sob o comando e a proteção dos militares estavam grupos de trabalhadores livres, vindos de outras duas cidades da região: Mora e Trapas. Os recursos desenterrados das ruínas eram reciclados nas indústrias e se tornavam equipamentos e principalmente armas. A tecnologia retirada dos escombros também era muito valiosa, e amigos podiam matar uns aos outros por um simples chip de computador ou disco rígido em boas condições. Eu esperava que meus anos de experiência no assunto me garantissem um pouco de sussego, mas meu primeiro turno de guarda mostrou o que eu temia: o mundo era mais do que ruínas, cidades decadentes e desejos de riquezas, era um lugar de política e poder, com monstros reais e imaginários, no qual nos afogaríamos muito em breve.

71. Wisky, Charutos e Mulheres.

Von Ricky permaneceu em silêncio durante todo o caminho de volta à Amrak. Concluí que era pelo fato de ter perdido um de seus homens, famosos por serem rigorosamente selecionados dentre os melhores do exército pelo Comandante. Desde então não o vi mais pelo acampamento, assim como qualquer membro dos Fantasmas, e só pude imaginar que estariam em alguma missão por aí.

Passei ainda outras duas semanas como vigia da muralha. Foram dias, como sempre, de completo tédio, ainda mais que a matilha de lobos tinha deixado de frequentar aquelas colinas depois do incidente. Mas, felizmente -ou infelizmente- meu tormento não durou muito, e em um noite de forte tempestade fui chamado a falar com o comandante em serviço. Dois soldados vestindo tinham vindo me dar o recado e me escoltar até a tenda onde eu deveria me apresentar. Nenhum deles respondeu às minhas perguntas, permanecendo em silêncio todo o tempo, e como tinham os rostos cobertos por gorros e máscaras para se protegerem do frio, não pude reconhecê-los. Durante todo percurso mantiveram suas metralhadoras em punho e permaneceram sempre um passo atrás de mim.

Dois outros soldados guardavam a entrada da enorme tenda, e novamente não pude identificar nenhum deles. Dentro havia vários outros, mas a luz fraca de dois pequenos lampiões mal era suficiente para iluminar as mesas e cadeiras que havia no caminho. Ao fim da tenda, sentado em uma cadeira reclinável acolchoada estava acomodado o dito comandante. Como o vilão de algum filme antigo ele girou em sua cadeira ficando de frente para mim, fumava um charuto com uma mão e com a outra bebia wisky em um copo com gelo.

-Qual seu nome, soldado? -perguntou o comandante, cujo rosto e nome estavam escondidos pelas sombras.

-Senhor, Nuke, senhor -respondi, batendo continência.

-Nuke? Seu nome é Nuke, soldado? -falou, colocando o copo na mesa e soltando uma gargalhada engasgada em wisky. Os que estavam em volta, também protegidos nas sombras, riram em concordância, como se estivessem brincando de siga o mestre.

-Senhor, sim senhor -respondi novamente, segurando minha fanfarronice e minha irritação dentro de mim.

-Estranho... Bom, fui informado de suas habilidades de observação, que resultaram na... hum... -e ficou um instante ponderando as palavras antes de continuar- missão bem sucedida com Comandante Von Ricky. Por isso, creio que seu talento será mais bem aproveitado nos campos de exploração de destroços, em Nova Bermil. Prepare-se, você parte dentro de uma hora.

E afundou-se novamente em sua cadeira, bebeu de seu wisky e fumou de seu charuto.

Enquanto saía ainda pude ver silhuetas voluptuosas de mulheres nuas dançando sobre soldados de sorte, em um mundo completamente fora de minha realidade.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

70. Velhos Conhecidos

Quando dei por mim, ainda caído no chão, um clarão vermelho iluminava os céus além da colina onde avistei o atirador. Von Ricky me observava de cima, assim como outros dois soldados, enquanto um terceiro soldado estava ajoelhado ao meu lado.

-Sortudo desgraçado... -comentava o comandante com seus soldados. -Pelas minhas contas esse moleque já devia ter morrido umas três ou quatro vezes desde que o encontrei.

-Acho que ele vai ficar bem, senhor -disse o soldado que estivera ajoelhado. Apenas quando ele se levantou pude ver a cruz vermelha em seu ombro, indicando sua especialidade médica.

-Ótimo, levante-se, temos que ir.

Eu até tentei, mas uma forte dor nas costelas me impediu. Dois soldados tiveram de me ajudar a ficar de pé. Olhei então para baixo e vi um enorme buraco no uniforme camuflado do exército de Amrak. O atirador tinha tentado me atingir, mas o tiro passou de raspão, dilacerando a roupa e o colete a prova de balas que eu usava. Apenas a pancada resultante do impacto tinha me ferido, mas ainda assim doía profundamente. Olhei em volta e tentei entender o que tinha acontecido nos instantes em que fiquei desorientado. Von Ricky falava pelo rádio, alguns soldados tinham se expalhado pelas redondezas e os dois veículos que a pouco tinham partido em busca de quem quer que estivesse naquelas colinas estavam retornando. Reparei que em um deles havia buracos de bala que não existiam quando saímos da cidade.

-Comandante! Comandante! -chamei, fazendo caretas de dor ao caminhar. -O que houve, afinal?

-Um homem abatido e um veículo levemente danificado, do nosso lado -disse virando-se para mim. E continuou, com a mesma seriedade de sempre. -Dois mortos, dois snowmobiles e um carro destruídos do outro lado. Pra sua sorte. Eu já estava esperando pelo ensopado no jantar

-Tá, beleza, ensopado... Quem eram eles, afinal? -ignorando a piadinha sarcástica.

-Eles tinham isso costurado nos uniformes -e esticou o braço, me passando um brasão.

Eu já havia visto aquele símbolo: um cálice branco com uma hóstia e uma auréola em volta.

69. Rastros

Enquanto avançávamos rapidamente pelo túnel repeti mentalmente várias vezes as palavras de Von Ricky. É bom que você esteja certo, ou não teremos apenas carne de rato no ensopado de hoje. Mas mesmo ele não se arriscaria com seus superiores saindo da cidade sem um bom motivo, e só o faria pois confiava em minhas habilidades de observação depois que encontrei seus melhores homens camuflados na neve. Estávamos ao todo em vinte, divididos em quatro veículos blindados.

Chegamos à colina cerca de 40 minutos depois de eu ter observado ali a sombra. Com o binóculo era possível observar os guardas patrulhando o muro da cidade ao longe, mas em toda a nossa volta nada mais podia ser visto. Von Ricky estava obviamente transtornado, mas antes de explodir, mandou alguns de seus homens em duplas fazerem uma varredura nos arredores. Não demorou muito até que um deles encontrasse algo. Cerca de 100 metros de onde paramos haviam alguns lobos mortos ao lado de um bosque de pinheiros secos. Uma trilha de pegadas e sangue seguia por entre as árvores e terminava em um rastros de snowmobiles.

-Times Alpha e Bravo, peguem os veículos e rastreiem a área, eles não devem estar muito longe -falou Von Ricky, enérgico.

Voltamos para os veículos e dois deles seguiram por entre as árvores mortas. Von Ricky não largava do binóculo, assim como eu. Procurávamos por entre as árvores e pelas colinas por qualquer sinal de movimento, mas além de nós, nada se movia por ali. Logo as duas equipes do Comandante tinham se afastado e sumido além de uma enorme colina. Pelo rádio reportaram que nada havia depois do bosque, e que as marcas seguiam por uma grande planície sem nada à vista.

-Filhos da puta, ratos sarnentos... -rosnou por entre os dentes Von Ricky. -Voltem pelo leste, por detrás das colinas e... -o estampido de um disparo cortou o silêncio e fez o comandante se calar. Um de seus soldados caia inerte ao chão, enquanto os outros erguiam suas armas e procuravam onde atirar. -Nuke, de onde veio esse tiro? -esbravejou comigo, agarrando-me pelo colarinho e quase me tirando do chão.

Olhei desesperado em volta com o binóculo. Varri todas as colinas, do bosque à cidade sem ver, novamente, nada. Refiz a observação, e dessa vez algo me chamou a atenção. Em uma colina do lado oposto ao bosque uma rocha se mexeu e sumiu atrás de outra maior.

-Ali, entre as pedras! -gritei. E voltei a olhar pelo binóculo, bem a tempo de ver o clarão do segundo disparo e ser jogado para trás uma fração de segundo depois.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

68. Sombras nas Colinas

Patrulhar o muro de Amrak com certeza não era bem a concretização de meu desejo de voltar a caminhar. Infelizmente, para um recruta como eu, ou era patrulhar as muralhas, ou limpar as latrinas. Como o soldado que brigou comigo ainda andava desejoso de uma revanche, acharam melhor que eu me mativesse o mais longe e ocupado possível, e um turno duplo na torre de vigia era ideal para isso.

As semanas como vigia foram um tédio total. Mas ao menos eu havia recebido um binóculo militar eletrônico, capaz de um aumento de 100 vezes e visão noturna. E foi com ele que observei, por duas vezes, uma enorme matilha de lobos cruzar as colinas não muito longe da cidade. Pouco antes do anoitecer, quando já quase não havia mais luz a iluminar as ruínas do mundo, um enorme lobo de pelos brancos surgia detrás das colinas e farejava a brisa noturna, então descia lentamente, parando aqui e ali para observar. Apenas quando seu líder chegava ao fundo da colina os outro membros da matilha saiam das sombras e avançavam pela neve fofa às dezenas.

Foi quando achei que veria a matilha pela terceira vez que minha chance de sair dos turnos de vigia apareceu. Quando os últimos raios de sol se expremeram por entre as núvens uma pequena sombra surgiu acima de uma das colinas ao longe. Esperei que o lobo ancião surgisse e em seguida sua matilha, mas ao invés disso a sombra ficou lá parada, como uma mosca em uma toalha branca. Longos minutos se passaram e nem um movimento houve. Chamei um dos guardas que passava pela muralha logo abaixo da guarita e pedi que ele usasse seu binóculo, mas já não havia o que olhar. A mancha tinha sumido. O soldado riu-se de mim, disse que era melhor eu descansar um pouco e saiu. Eu sabia, porém, que havia alguma coisa diferente acontecendo. Aquele era o dia em que os lobos costumavam cruzar aquela região, e se eles não o fizeram deveria haver um motivo.

É claro que nenhum dos oficiais em serviço naquele momento estava disposto a mecher os traseiros gordos para fazerem uma verificação, ainda mais vindo de um recruta com três semanas de serviço. Mas eu sabia a quem recorrer, e se eu estivesse certo meus dias de vigia chegariam ao fim.

-Senhor?

-Ainda é Comandante Von Ricky, para você.

67. Exército de Amrak

-O que quer aqui moleque? Não temos pipa, bola nem peão aqui pra você brincar -esbravejou o soldado, que se esparramava em uma velha cadeira de plástico atrás de uma pequena mesa também de plástico.

-Quero me alistar -falei sem dar ouvidos à ele.

-Ah, sei. E acha que vai ganhar um pirulito, né? Vai fazer o que com o pirulito, enfiar no cuzinho até ele derreter?

A princípio pensei em não dizer nada, e ficar ali parado até que ele fizesse meu cadastro, mas meu corpo tinha sido inundado de adrenalina e minha boca já não era mais controlada por mim.

-Talvez. Mas eu prefiro enfiar no seu e ver o palito sumir.

O soldado arregalou os olhos imediatamente. Quem passava em volta congelou no lugar, esperando a reação. O homem então ficou vermelho, e numa explosão de raiva voou por cima da mesa, jogando ela e a cadeira longe, numa nuvem de folhas de papel rodopiantes.

-VOU TE MATAR, SEU FEDELHO DESGRAÇADO, FILHO DE UMA PUTA DEFORMADA RADIOATIVA.

Nesse ponto meu pescoço era esmagado pelas duas mãos do soldado, e metade do acampamento tinha se reunido a nossa volta gritando por sangue. Eu tentava me defender como podia, socando e estrebuchando, mas meu agressor era muito mais forte. Num último suspiro antes de sufocar estiquei meus dedos em seu rosto e comprimi seus olhos com toda a força que consegui juntar. Ele então soltou meu pescoço e levou as mãos ao rosto num urro de dor. Contorci-me para trás, coloquei meus pés em seu peito e empurrei-o para longe. Eu ainda tossia, tentando respirar, quando ele finalmente conseguiu abrir os olhos e me encontrar. Ele cambaleou até mim, com o rosto ainda mais vermelho que antes, e chutou-me no estômago. Senti a biqueira da bota militar cutucar meu órgãos antes de cair no chão, encolhido para escapar dos outros chutes que viriam.

-Pare! -falou uma voz grossa, para meu alívio. Eu já estava para me arrepender da bravata quando um homem, vestindo um uniforme diferente dos demais, cheio de medalhas e brasões, encerrou a briga. Todos os soldados bateram continência e se puseram em posição, aguardando ordens. -Estão todos dispensados. Tratem de voltarem a seus afazeres.

-Senhor, eu... -começou a falar o soldado com quem eu brigara.

-Cale-se!

-Senhor, sim senhor -falou o soldado, colocando-se em posição de sentido.

-Ele queria se alistar, soldado?

-Senhor, sim senhor.

-Se já apanhou o suficiente, garoto -disse ele a mim- recomponha-se e apresente-se ao comandante em serviço. Você acaba de assinar seu atestado de óbito. Seja bem-vindo ao exército.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

66. Amrak

Os dias passavam lentamente para mim. Thompson tinha se acostumado na primeira semana, arrumado um emprego junto aos pesquisadores da cidade, e encontrado uma pequena casa para morar. Anne tinha reencontrado sua família, e agora desfrutava a companhia de seus tios. Enquanto isso, eu me esforçava para fazer milagres no conserto dos veículos da oficina onde eu conseguira emprego. Quase não havia veículos na cidade, já que a maioria era usada pelo exército, e quando havia, não se encontravam peças que lhes servissem, então quase não pude desenferrujar meus conhecimentos de mecânica.

Passava a maior parte de meu tempo livre lendo qualquer coisa que encontrava, desde livros à revistas e quadrinhos. Era minha forma de aprender, já que não havia escolas, e de me distrair, dando as peças para que minha imaginação montasse o quebra-cabeças daquele mundo passado, do qual restavam apenas fragmentos. As visitas semanais de Anne e Thompson me ajudavam a conhecer um pouco do universo próprio em que a cidade estava mergulhada, mas uma rápida olhada nas ruas me desanimavam um passeio. Anne sempre me convidava a visitar seus familiares, mas eu não tinha vontade de vê-los, pois sabia que isso me faria sentir falta de meu pai. E já haviam se passado mais de três anos desde a última vez em que nos vimos.

Haviam muitas pessoas pelas ruas, a maioria cuidando de seus próprios assuntos, o que as deixava sem tempo de sequer olharem para aqueles que lhe cruzavam o caminho. Emprego é o que não faltava pela cidade. Em todo o canto era preciso de gente especializada para isso ou aquilo, e em nenhum canto se encontrava quem trabalhasse. O salário, que servia para a compra de comida e aluguel de moradia, era quase sempre o mesmo: 200 créditos Amraks, pagos diretamente nas pulseiras eletrônicas. Haviam empregos mais bem remunerados, mas normalmente em serviços que demandavam alto conhecimento específico, como o de pesquisas tecnológicas de Thompson, oferecidos pelo governo de Amrak. A comida -que eu não suportei desde o primeiro dia, me fazendo ter saudades da carne seca de iguana e da ração militar- era composta por uma dezena de cápsulas e uma massaroca de fibras. As cápsulas continham todos os nutrientes e minerais necessários para suprirem as necessidades diárias de cada pessoa, enquanto a massa, que alguns diziam lembrar macarrão, era necessária para evitar o atrofiamento do sistema digestivo pela falta de ingestão de alimentos sólidos. Tudo era fabricado em uma indústria, cuja chaminé soltava constantemente uma espeça fumaça negra, de aparência bastante duvidosa.

Mas a comida, os empregos, as pessoas e solidão não me incomodavam tanto quanto ficar parado. O fato era que eu não suportava ficar preso àquela cidade, dentro de seus limites murados. E apenas três meses se passaram antes que eu decidisse retomar minhas andanças em busca de coisa alguma, pelos escombros e amontoados de neve daquele mundo arrasado.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

65. Pôr-do-Sol

-Alto! Quem vem lá?

E com o grito do soldado saímos de nossos devaneios -eu já tinha me acostumado com devaneios, mas sempre me assustava ao sair deles, percebendo que o mundo não parava para me acompanhar em minhas viagens mentais. Dois homens vestindo uniformes camuflados para neve saíra das guaritas ao lado do portão de grade e se aproximaram de nós. Outros homens permaneciam nas torres e além das grades, de armas em punho e feições nada amigáveis.

-Identifiquem-se -falou um deles, puxando a mascar que protegia seu rosto do frio, deixando ver cicatrizes e marcas de feridas e queimaduras por toda a face e pescoço. -Vêm a negócios ou como cidadãos?

-Ambos. Sou Thompson, este é Nuke, e aquela é Anne. Viemos de Tradeport.

-Hum, sei. Vocês poderão ficar por até uma semana, depois disso terão de trabalhar para poderem permanecer aqui. Existem empregos na cidade e fora dela, todos eles são pagos diretamente pelo governador de Amrak -ia falando o soldado, enquanto fazia anotações em uma prancheta. Um terceiro soldado se aproximou trazendo três pulseiras e um aparelho estranho, que mais parecia uma pistola com uma tela e um teclado. -A comida é distribuída todos os dias antes do por-do-sol, portanto não percam a hora. Apresentem-se à Imigração para que lhes arranjem moradias.

Nos explicaram que as pulseiras serviriam para nossa identificação dentro da cidade, e que sua retirada era expressamente proibida, sujeito a graves punições -limitando-se a repetir enfaticamente "graves", completando com um olhar fulminante, quando perguntamos quais seriam essas punições. Em seguida prenderam com a pistola as bordas das pulseiras em nossos braços, que apitaram levemente ao serem ativadas. Retiraram também nossas armas, garantindo que elas seriam armazenadas no arsenal, devidamente identificadas segundo nossas pulseiras. Relutantes, Thompson e eu nos entre olhamos, mas não tínhamos opções, então nos desfizemos das armas.

-Sigam pela avenida até a praça central. Do lado direito encontraram o prédio da Imigração. Sigam diretamente para lá, entenderam? Se não nós saberemos -e apontou para as pulseiras.

Ao primeiro passo além do portão, o primeiro dentro de Amrak, lembrei-me dos veículos que tínhamos abandonado junto ao acampamento militar. Com um tapa na testa, vire-me para Thompson, mas ele se adiantou enquanto eu ainda abria a boca:

-Sim, o caminhão e o carro ficaram. Eu volto pra pegar depois, mas primeiro... -aproximou-se de mim e girou-me nos calcanhares- observe.

Amrak se erguia por toda a volta de uma grande bahia. Grandes blocos de gelo dançavam sobre as ondas do mar, como as estrelas no céu de antigamente. Casas, prédios e grandes galpões se amontoavam, dos sopés das colinas sobre a qual estávamos até o quebra-mar, como se preparassem para mergulhar nas águas escuras do oceano. A noite ia arrastando suas sombras sobre a cidade, e apenas sua silhueta podia ser vista contra os últimos raios de sol que pulavam de debaixo das ondas no horizonte.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

64. Adeus, Branca de Neve

Von Ricky virou-se e puxou um de seus homens, que ainda olhava para o rosto pálido de Lyriel, pelo ombro, afastando-se. Nesta hora lembrei-me de uma história, um conto de fadas, como se dizia antigamente, em que uma senhorita de pele tão branca quanto a neve havia sido envenenada e dormia profundamente, sem que nada pudesse acordá-la, até que um príncipe surgiu e, com um beijo, a fez despertar. Desejei que houvessem príncipes, e que um deles pudesse vencer a dama da morte que, invejosa da beleza alheia, levava Lyriel de seus entes queridos.

Mas não apareceu nenhum príncipe, e logo os médicos levavam-na embora, coberta com um lençol branco esfarrapado. Outro militar, de alta patente, assumiu o comando da situação agora que Von Ricky se fora. Seus homens nos empurraram com violência, mandando que fossemos embora, mas Yoseph e Anne não queriam deixar Lyriel sozinha. Yoseph, aos gritos, e mesmo com fuzis apontados para sua cara, convenceu-os a deixarem que ele acompanhasse a irmã morta. Mas Anne, que xingava os soldados de nomes que fariam até o inferno pequeno, nada conseguiu. Thompson e eu tivemos de arrastá-la pelos braços para longe, e só depois de muita conversa é que conseguimos explicar que nada mais podia ser feito, e agora precisávamos cuidar de nós mesmos.

Um soldado nos apontou um caminho por entre as barracas e mandou que nos dirigíssemos aos portões de Amrak. A princípio não entendemos, mas como já virara as costas e ia embora, não pudemos questionar. Se li não era ainda a cidade, onde ela estaria? Não precisamos de muito tempo para encontrar a resposta. Além das tendas havia um muro, tão alto que nem mesmo quatro pessoas uma em cima da outra poderia atingir seu topo, um grande portão de ferro fazia a passagem para o outro lado. Caminhamos pelo portão sem que nenhum soldado nos questionasse -se é que algum deu pela nossa presença- e seguimos pela estrada de asfalto que descia a colina e se afastava cada vez mais da escarpa.

Era a maior estrada asfaltada que eu me lembrava de ter visto que não estivesse coberta de neve. Havia uma camada de quase um metro de altura de neve nas laterais, mas sobre o tapete negro praticamente não haviam pontos brancos. Parcialmente soterrados, e por todo o caminho, uma infinidade de veículos enferrujava e desaparecia lentamente, desde carros de passeio até antigos caminhões de bombeiro, carros de polícia, motos e bicicletas. Os motores e quaisquer peças úteis haviam sido retirados dos veículos, mas as carcaças formavam um imenso cemitério de ferro retorcido, lembrando-nos constantemente de tudo o que os homens haviam aberto mão ao decidirem matar uns aos outros, e de tudo o que perdemos nessa jornada.

Lyriel não seria mais do que aquelas carcaças para um mundo que apodrece lentamente rumo ao esquecimento. Mas, para nós, mesmo em nossas poucas lembranças junto a ela, sempre haveria um príncipe que a fizesse acordar e se juntar a nós uma vez mais.