segunda-feira, 30 de março de 2009
35. Carteira de Motorista
Aquela manhã acordou particularmente fria e desanimadora. Uma densa camada de núvens continuava, como em todos os dias de minha vida, escondendo o sol. O vento cantava melancólico como sempre, e com ele vinha o inconfundível cheiro dos lobos que viviam vagando pelas colinas. Eu achava que carros eram apenas bonitos, mas que todo o resto que diziam sobre eles, principalmente vindo de homens com alto teor de álcool no sangue, era besteira. Mas eu estava enganado. Muito enganado.
A viajem não deveria levar mais que algumas horas. Pelo menos não vinte anos antes. Mas naqueles tempos mal se podia diferenciar o que um dia foi uma estrada do que sempre foi chão, e vencer 300 km era uma marca razoávelmente grande. Thompson dirigiu os primeiros 100 km, sempre me dando dicas de direção e segurança. Logo atrás de nós seguia uma caminhonete com outros quatro homens, quase tão jovens quanto eu. Eles deveriam ter voltado depois de algumas horas, mas fizeram questão de passar a primeira noite conosco e voltar ao amanhecer para Tradeport. E assim fizemos.
A noite foi longa. Uma tempestade de neve chacoalhou os carros horas a fio, impedindo de nos recuperarmos das várias horas trancafiados e apertados em uma lata com janelas. Mesmo assim dormi bastante, afinal, um banco acolchoado de carro sempre será melhor que uma cela úmida e fria ou um saco de dormir surrado. Quando acordamos todos tínhamos olheiras enormes. Anne, que não tinha dito muito durante toda a viajem, e havia apenas olhado o horizonte pensativa, parecia a mais animada de todos nós, e forçou todos a se abraçarem e se despedirem com alegria e entusiasmo. Mas só de pensar de desatolar os carros da grande quantidade de neve que havía acumulado, a animação contagiante havia passado rapidamente.
-Mas que droga. Devíamos explodir essa neve ao invés de cavá-la! - Dizia Anne, a cada vez que erguia uma pá de neve a jogava para trás. -Onde eu estava com a cabeça de não deixar meu tio dar a vocês o lança-chamas que ele prometeu?
-Você o que? -Falei sem gaguejar. E então continuei, sem jeito. -Ele ia mesmo nos dar um lança-chamas?
-Claro que não! Daaaã! -Zombou ela, iluminando o rosto com um sorriso inesquecível.
Eu tinha vergonha de conversar com Anne quando Thompson estava por perto. Não porque ele pudesse ouvir, mas porque ele constantemente me fazia caretas e dava tapas em minhas costas para que eu falasse com ela. E isso apenas aumentava mais minha timidez. Eu poderia ser fanfarrão com homens armados e maiores que eu, mas com mulheres dificilmente tinha tido chances de conversar, e quaisquer duas palavras saiam engasgadas. E depois daquela zombaria, já esperava que Thompson aparecesse de lugar nenhum e fizesse mais chacota de mim. Mas não fez. Ao invés de disso pudemos ouvir apenas seus gritos:
-Corram, seus desgraçados! Corram! - berrava Thompson, enquanto corria colina abaixo desenfreadamente. -Os Escravizadores estão chegando!
A alguns metros de nós os homens que nos acompanhavam empunharam suas armas e entraram no carro, gritando para que saíssemos de lá.
Saímos. E nos instantes seguintes tirei minha carteira de motorista.
sábado, 14 de março de 2009
34. Anne
Thompson passou aquele dia todo me ensinando noções básicas de direção. Eu achava mais fácil que ele simplesmente dirigisse, mas fui convencido de que era melhor que nós dois soubéssemos guiar um carro. Muita coisa eu já havia aprendido com meu pai, muitos anos antes, mas nunca tinha tido oportunidade de assumir o volante de veículo algum. Eu estava ansioso para começar a dirigir de verdade, mas os primeiros metros que percorri foram cheios de solavancos e freadas bruscas.
-Vejo que está progredindo bem! - falou Mark animado, tentando disfarçar sua verdadeira opinião sobre meu fiasco de direção. Era final de tarde e a pouca luz que iluminava o dia sumia rapidamente.
-É... bem... pelo menos consegui não bater o carro ainda. - Resmunguei sem jeito. -E sobre o atentado, já descobriram algo?
-Ainda não sabemos quem foi, mas temos suspeitos - falou. - De qualquer forma, temos coisas mais importantes para tratar. Essa é minha sobrinha, vocês a levarão a Amrak.
Tirei meus olhos do câmbio, onde tentava engatar a marcha do carro, e olhei para Mark. Foi então que a Terra parou de girar. Os últimos raios de sol que se espremiam pelas nuvens. A brisa terminou sua melodia e silenciou. Um lobo uivou na escuridão. Ao lado do padre-sherife havia um anjo, de cabelos dourados como o sol, olhos azuis como céu e a pele branca como a neve mais pura. E ainda que eu nunca tivesse visto o sol ou céu, sabia que ela os levava consigo.
-Ela é linda, não é? - cochichou Thompson ao meu lado, mas levou um longo tempo até que meu cérebro captasse a mensagem e a processasse. -E pode tirar o pé do acelerador, que a marcha não está engatada e esse cheiro de fumaça tá me incomodando.
-Ãh??
-Vocês devem partir ao amanhecer. Não quero correr riscos à toa. Alguém pode acabar reconhecendo vocês por aqui, e uma caravana que chegou enquanto vocês estava presos nos trouxe informações de que um grupo dos Piratas da Neve anda rondando a região. -Ele falava alto, para que pudéssemos ouvi-lo por cima do barulho que o carro fazia enquanto eu o acelerava sem parar. Sua voz era séria, mas não parecia muito preocupada. -Mandarei uma patrulha acompanhá-los nas primeiras horas. E então seguirão viajem sozinhos.
-Sim, senhor -falou Thompson, em tom honroso, enquanto desligava a chave e a tirava do contato.
-Ãnnh? -Balbuciei. E então finalmente consegui formular uma frase. -Como você se chama?
-Anne.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
32. Desculpas
-Espere, Nuke! Onde você vai?
-Vou embora, oras! Você está morto. Esse padre, sherife ou sei lá o que não pára de falar. E eu não estou a fim de ouvir. Minha cabeça dói e meu braço está formigando- falei sem hesitar.
-Está formigando porque você está deitado em cima dele.
-Deitado?
E então a neve que cobria a grama derreteu. A grama murchou até desaparecer. As estacas da cerca foram sugadas para debaixo da terra. As tábuas da varanda se recompuseram e formaram um chão plano. Paredes surgiram e janelas se abriram nelas. Um homem estava sentado em uma cadeira, enquanto um outro permanecia de pé, me encarando com um sorriso, ao lado da cama onde eu estava deitado.
-Nuke?
-Thompson? -falei engasgado, sentindo a garganta raspar.
-Pensamos que você fosse ficar alucinando a noite toda. Eu e Mark conversamos enquanto você dormia, e pelos seus gritos acho que você podia nos ouvir - Thompson tinha sua cabeça no lugar, e não parecia muito abalado. Eu ainda não entendia as coisas direito, mas isso viria a seu tempo.
-Não tivemos chance de nos apresentar. Meu nome é Mark, padre-sherife de Tradeport. - e aproximou-se da cama, esticando a mão para me cumprimentar. Eu fiz um esforço para erguer o braço não adormecido, mas havia uma agulha colocada em uma de minhas veias, e soro descia por um fino tubo de plástico, de modo que ao movimentá-lo uma dor lancinante me fez baixá-lo outra vez. - Tudo bem, não se esforce demais. Não me admira que seu corpo tenha enfraquecido tanto naquela cela. Desculpe-me por isso.
-Você nos deixa preso por dias e dias num cela imunda, cheia de ratos para dividirmos o lixo que vocês nos davam para comer, fazendo-nos defecar e dormir no mesmo lugar, e agora quer que eu o desculpe? - A raiva que eu queria ter sentido quando achei que Thompson estava morto agora brotava de mim como uma tempestade, e a dor que sentia em meu corpo ia desaparecendo sob efeito da adrenalina que percorria abundante minhas veias. - Eu seria capaz de matar você por muito menos! Se eu puser minhas mãos em você...!!
-Acalme-se, Nuke!! - falou Thompson, quase gargalhando de minha atitude. -Sei que você está com raiva, e tem motivos pra isso, mas ouça-nos primeiro! Mark nos aprisionou, sim. Nos fez passar fome, frio e tudo mais. Mas ao fazer isso ele nos salvou. As pessoas, tanto daqui quanto de qualquer outro lugar, precisam ver que os erros e crimes cometidos são punidos, do contrário sentirão-se seguros de sair impunes e cometerão outros crimes. Quando nos acusaram de termos envenenado as bebidas Mark mandou que fossemos presos, para manter a ordem e evitar que fossemos linchados ali mesmo.
-E daí? Porque nos deixou lá por tanto tempo, para depois não nos arrancar a cabeça? - falei quase gritando, indignado. - E quem, diabos, perdeu a cabeça naquele palanque? Ou eu estava alucinando, já?
-Admito que teria deixado vocês morrerem, como mereciam. - Começou a falar o Sherife, interrompendo Thompson que já tinha aberto a boca para recomeçar a falar. -Mas o anjo protetor de vocês é forte, e fez com que as coisas mudassem de rumo. Antes de jogar as bebidas fora, pensei em dar uma olhada nelas. E qual não foi minha surpresa ao encontrar vestígios e marcas dos Piratas da Neve. Não demorou muito pra que um dos médicos que eu tenho ao meu dispor aqui constatasse que o envenenamento da bebida tinha sido feito havia muito tempo. -Eu queria levantar e dar um murro na cara daquele velho religioso, mas sua voz era confortante, e de algum modo me prendia na cama. -Assim que soube disso fiz questão de tirá-los daquele buraco, para isso armei uma execução. Desfilei com vocês até o palanque, para que todos os vissem, e depois, na hora de cortar cabeças, enviei dois outros prisioneiros, com capuzes cobrindo os rostos.
-Humm... - resmunguei, ainda tentado a um soco direto e limpo.
-Por isso quero me desculpar, e oferecer a vocês dois que...
Mark, o Sherife e sacerdote de Tradeport não teve tempo de terminar de falar. Do lado de fora um estrondo imenso ecoou por cada canto da cidade, e um tremor fez tremer paredes e janelas. Gritos e pedidos de ajuda se espalhavam como fogo em palha, enquanto uma nuvem de fumaça se erguia do meio da praça de mercadores.
-Senhor! Senhor! Precisamos do senhor na praça central imediatamente! - Gritou um dos guardas da cidade, que entrou ofegante pela porta. Havia um corte fundo em seu rosto e suas mãos estavam cobertas com sangue e fuligem.
33. Dirigir
Mark não deixou que nós o acompanhássemos até a praça, já que certamente seríamos reconhecidos. Ficamos no quarto, tentando entender alguma coisa do que havia acontecido do lado de fora, mas o local da explosão estava fora de vista. No tempo em que ficamos olhando apenas algumas pessoas apressadas passaram, correndo para verem o que havia acontecido. Os apitos dos guardas podiam ser ouvidos, e provavelmente havia alguma confusão ainda no local. Depois de duas longas horas o sherife voltou. Estava acompanhado de um de seus médicos, que estava sujo de cima a baixo com sangue e poeira.
-Acidente ou atentado. Ainda não sabemos. Uma caixa de dinamites explodiu, matando o vendedor e três outras pessoas. - Falou desanimado o sherife, que agora era mais padre que sherife. -Posso penas rezar por suas almas e punir os responsáveis. Há muitos feridos também, mas a maioria sem gravidade.
-Se pudermos fazer algo para ajudá-lo, senhor. - Falou Thompson prestativo. -Podemos tentar.
-Sim, vocês podem. -E ao dizer isso saiu pela porta, fazendo um gesto para que o seguíssemos. O médico então retirou as bandagens que prendiam a agulha em meu braço e me ajudou a levantar da cama. Minhas pernas estavam bambas e teimavam em não me obedecer, mas esforcei-me para seguir Mark até a porta dos fundos de sua enorme casa. Ele parou do lado de fora da porta e apontou algo. -É com isso que vocês vão me ajudar.
Manquei até a porta e olhei para fora. Thompson já estava lá, boquiaberto. Estacionado ao lado de uma porta de garagem aberta estava o carro mais bem conservado que eu já havia visto. Veículos de guerra, modificados ou originais, eram comuns, mesmo em bom estado. Mas carros eram difíceis de se manterem conservados, já que não serviam para guerra e portanto não mereciam cuidados maiores. Thompson disse que se lembrava do nome do carro, mas eu pedi que ele não falasse. Aquele carro não pertencia mais ao passado, e portanto seu nome não precisava ser lembrado. Eu queria em minha memória apenas aquilo que podia ser observado e admirado.
-Encontrei esse carro anos atrás, enquanto vagava por esse mundo destruído. Estava em uma estrada de terra secundária, atrás de alguns arbustos. Havia um homem morto dentro, com os miolos espalhados pelo vidro. Haviam algumas notas de dinheiro, daquelas usados na época, espalhadas pelo chão do lado do passageiro, e a porta estava aberta. -Mark olhava fixo para o carro, com o olhar vazio, enquanto se esforçava para lembrar os detalhes da ocasião. Sua voz era novamente de sherife, e seu lado padre tinha voltado a se esconder. -Encontrei uma arma alguns metros dali, uma mochila vazia e uma montanha de dinheiro levada pelo vento e espalhada na neve manchada de sangue.
-Alguém matou o motorista, fugiu com o dinheiro e morreu em seguida. -Arrisquei um palpite.
-Sim, muito provavelmente. Mas e o corpo de quem fugiu, o senhor não o encontrou? - Completou Thompson.
-Não. Procurei por algum tempo, mas não encontrei nada. Este mistério nunca desvendei. Depois de procurar tirei o homem morto do carro, limpei como pude seu sangue e continuei viajem, até que o combustível acabasse. Eu o escondi em um bosque e cobri com neve. Voltei apenas quando, depois de muitos anos, encontrei um vidro novo para ele. E o carro continuava lá, intocado em seu esconderijo de gelo. Trouxe-o para cá e o reformei.
-E o que faremos com ele, senhor?
-Irão até Amrak. Cerca de trezentos quilômetros descendo o rio. É a maior cidade existente em muitas centenas de quilômetros. Moram lá cerca de 150 mil pessoas, talvez mais. Vocês levarão uma carga para mim, e a entregarão a uma mulher.
-Certo, senhor. -Quase não prestei atenção ao que respondi. Estava imaginando qual seria o tamanho de uma cidade com tantas pessoas, e como faziam para protegê-las, alimentá-las e contentá-las.
-Sabe dirigir? - Perguntou o sherife a mim. Levei alguns instantes para entender a pergunta e lançar-lhe um olhar perdido.
-Não.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
31. Louco
Quando a lâmina foi solta o mundo silenciou. Era possível sentir as pessoas prendendo a respiração do lado de fora. Um corte rápido e um baque seco. Gotas de sangue escorreram pelas tábuas e pingaram em minha venda. Queria ter sentido raiva, mas sentia apenas remorso por não ter me despedido de Thompson. Seu sangue escorria quente em meu rosto e eu sabia que minha vez estava chegando.
-Cinco segundos - gritou uma voz acima de mim, no palanque. - Apenas cinco segundos, senhoras e senhores! Esperamos que o próximo dure mais, ou as apostas de hoje terão sido em vão! Que tragam o próximo safado que vai morrer aqui hoje - continuou a voz, em meio a uma gritaria e uma onda de aplausos.
-Vamos andando - falou a voz do Sherife à minhas costas - não dê um pio, ou arranco-lhe os dentes.
Deixei-me ser guiado e não disse palavra - não que eu me importasse de perder os dentes, afinal, logo em seguida eu perderia toda a cabeça mesmo - mas depois de tudo o que gritei nos dias em que ficamos enjaulados eu já não tinha mais nada a dizer. Do lado de fora o vento frio que cortava Tradeport naquela manhã parecia se despedir de minha presença. Os gritos das pessoas que assistiam a execução tinham cessado e apenas murmúrios podia-se ouvir aqui e ali. Todos aguardavam a próxima cabeça a rolar. Subi uma escada de madeira e dei alguns passos. Um chute em minhas pernas me fez ajoelhar. Eu não ousava me mecher. Todos os meus sentidos pareciam ter deixado meu corpo, e a única coisa que eu sentia era a neve derretendo sob meus joelhos. Segundos que levavam horas se passaram, e então finalmente tiraram minha venda.
-Desculpe ter de fazê-los passar por isso. Essa cidade precisa de regras rígidas, ou cada vigarista e salafrário dessa cidade vai querer tirar mais proveito do que outro - era o Sherife falando, com o rosto sério de sempre, mas com uma calma na voz que até parecia outra pessoa. - A maioria dos que vem aqui são boas pessoas. Sempre assustados, perdidos ou feridos, mas boas pessoas. E, como a maioria nesse mundo, precisando apenas de duas coisas: um lar e um objetivo. E é isso que eu lhes dou. Ofereço proteção a todos os que aqui estão, e depois que percebem que estão realmente seguros, ofereço-lhes a Palavra de Deus - o padre-sherife estava sentado em uma cadeira de balanço, que vinha e voltava no mesmo lugar, rangendo baixinho. Eu estava ajoelhado no que um dia foi uma bela varanda de madeira, mas que depois de duas décadas sem cuidados parecia apenas um amontoado de tábuas. Senti-me tentado a levantar e correr, pular a cerca de madeira que fechava o jardim coberto de neve e deixar que o primeiro guarda me acertasse um tiro no meio do peito. Mas aquele homem sentado não parava de falar, e eu queria saber onde ele iria parar. -As pessoas são muito fáceis de se entender. Elas podem ter sonhos diferentes, gostos e vontades diversos, mas no final precisam apenas de um motivo para se manterem vivas. O fogo queimou tudo o que conheciam, a neve e o vento soterraram os escombros do seu passado e o desespero humano destruiu qualquer vestígio do que sobrou. O que lhes restou? A fé, claro! Memórias se perdem, se apagam. Mas a fé, não. Essa jamais se esquece.
-Onde está Thompson? Porque ainda estou vivo? - perguntei. Já sabia a resposta, mas ainda assim queria ouví-la, para que soubesse que tudo era realmente um sonho louco e que a loucura tinha chegado ao limite. Mas não houve resposta. Em vez disso ele continou falando, como um louco faria.
-Eu não poderia ser padre, sabe? Eu abandonei o celibato muitos anos antes desse mundo acabar. Não suportava ter que fingir que minhas orações eram ouvidas e ainda fazer pessoas acreditarem nisso. Eu queria queria trepar até explodir, com o máximo de mulheres que pudesse. Queria fumar até meu pulmão atrofiar. Queria beber até meu fígado ser diluído pelo álcool. Queria que o mundo acabasse... - fez uma pausa e admirou o mundo à sua volta, como se tudo aquilo fosse obra sua, e então continuou. - E ele acabou, realmente acabou. E foi então que eu soube que precisava voltar atrás, porque tudo era possível. E cá estou eu, redmindo-me dos meus pecados enquanto ainda há tempo. Pregando os ensinamentos de Deus àqueles que querem aprender e punindo aqueles que não aprendem.
-Eu... acho que já vou indo, sabe... - Levantei e dei alguns passo em direção aos degraus que desciam para o jardim. Estava decido a sair dali e ignorar o que aquele louco dizia, mas uma voz se sobrepôs à dele e fui obrigado a parar.
-Nuke, espere.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
30. Apostas
Podia ser pior, muito pior, repetia para mim mesmo, pessoas morrem por muito menos e você está vivo. Mas deitado naquele chão frio e úmido eu pensava que não me importaria de estar morto. Eu vivia apenas como um espectador, admirando as formas inimagináveis como a vida, a sociedade e a natureza se equilibravam precariamente naquele mundo louco e sem futuro. A luz da lua se espremia por uma pequena abertura na parede, era fatiada por duas barras de ferro verticais e morria no corredor de pedra entre as celas. O cheiro de sangue seco, de fezes e de urina infestava o ambiente, o andar dos ratos e camundongos criava uma trilha sonora não muito promissora, enquanto o guarda checava de hora em hora os prisioneiros das celas.
Quando eu e Thompson fomos jogados naquele buraco consegui contar 12 prisioneiros ao todo, mas no dia seguinte dois foram levados embora, e pudemos ouvir os gritos de perdão e desespero enquanto a lâmina da guilhotina ainda não os havia calado. Ficamos cerca de uma semana enfiados na escuridão, comendo pão mofado e duro, água suja - com urina e cuspe - e fazendo nossas necessidades em qualquer canto. Mas então, quando eu finalmente estava me acostumando com o cheiro de minha própria merda e de acordar com as mordidas dos ratos pela manhã, a porta se abriu e era nossa vez de irmos embora dali. Lembro de ter ouvido outros dois prisioneiros serem tirados de lá, mas depois de passarmos pela porta enfiaram sacos em nossas cabeças, e não vi mais nada.
Levaram-nos vendados pelas ruas da cidade, desfilando nossos corpos atrofiados para os compradores e comerciantes, de modo que servíssemos de exemplo para todos. Toda semana pelo menos 2 prisioneiros eram mortos, e condenados nunca estavam em falta, por mais que se guilhotinassem pessoas em praça pública. A pobreza, a fome e o desespero eram sempre maiores que o medo de perder a cabeça, logo haviam mais prisioneiros para morrer do que execuções por semana. Ouvi quando fomos trancados debaixo de um palanque de madeira, no qual a guilhotina ficava, enquanto ouvíamos a missa que acontecia todo domingo e que era ministrada pelo Padre-sherife de Tradeport. Não ouvi quase nada do que era falado, mas percebi que muitas pessoas acompanhavam aquelas missas, pois os longos sermões eram interrompidos por cantos e preces entoados por muitas vozes. Quando a cerimonia finalmente acabou sabíamos que tinha chegado nossa hora e pude ouvir Thompson soltar um gemido de amargura quando passos desceram do palanque e se aproximaram da porta onde estávamos.
-Hora de morrer. - Falou a voz grossa e inexpressiva do Sherife atrás de nós. - As apostas estão bem equilibradas. Qual de vocês dois irá sobreviver por mais tempo com a cabeça dentro de uma cesta? Quero uma graninha extra hoje.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
29. Festa
A noite caiu rápido. Arrumamos as poucas coisas que não vendemos ou que iríamos guardar em um trenó e pusemos toda a bebida e os cigarros no outro. Empurramos os veículos e os trenós pela pouca neve que se acumulava próxima às paredes das construções até chegarmos à casa onde disseram que poderíamos encontrar o Sherife. Havia muitos carros estacionados pela rua, música podia ser ouvida vinda da casa, luzes iluminavam o jardim arruinado enquanto sombras eram projetadas para fora das janelas conforme as pessoas lá dentro conversavam e dançavam animadamente. Fumaça saía pela chaminé e o cheiro de comida que se espalhava pelo ar era convidativo. Nos aproximamos da porta da frente, arrastando o trenó com as coisas pedidas. Dois guardas se aproximaram, estavam armados e já estavam fedendo a álcool.
-O que vocês querem, forasteiros? Essa festa é reservada. Apenas moradores podem participar. -Disse um dos guardas, que mascava alguma coisa e fazia um som nojento com a boca. Sua barba estava por fazer e seus olhos lutavam para não trançarem sua visão embriagada.
-Desculpe incomodarmos. Nós trouxemos essa encomenda para o Sherife. Ele as comprou hoje a tarde. -Falei com a maior paciência que pude juntar.
-Nós só viemos trazer as coisas e já vamos embora. Apenas isso. -E Thompson pareceu fazer um grande esforço para dizer essas palavras com uma calma que ele não queria.
-Sei. -Continuou ele. -Vai me dizer que ele convidou vocês para a festa também?
-Exatamente. - E minha paciência continuava intacta. Mas o guarda parecia ansioso para encontrar um motivo para brigar e minha cortesia com as palavras parecia deixá-lo ainda mais irritado. Thompson não parecia tão inclinado à paciência, suas mãos estavam cerradas, se contorcendo para não avançar no guarda. E quando o segundo guarda começou a formular algo para dizer, uma voz à porta falou:
-Finalmente! Estou tendo que servir bebida feita na cidade para esses beberrões, - falou animado o padre-sherife, enquanto descia pela escada da varanda e vinha nos recepcionar - e, tenho que admitir, ela não é lá muito boa! Trouxeram aquelas revistas? - Falou para Thompson, que ascentiu com a cabeça. - Então dê uma a esses dois e tragam essas coisas todas para dentro. Vamos animar essa festa!
Os guardas não pareceram muito felizes em terem sido contrariádos, mas apreciaram bastante a revista pois, soubemos mais tarde, ficaram tão entretidos com as mulheres nuas que deixaram dois penetras passarem, e estes roubaram uma boa quantia de créditos de um dos moradores. Créditos eram o dinheiro local, fornecido aos mercadores que ali faziam trocas, não tinha nome nem valia fora da cidade, mas servia para facilitar a cobrança das taxas impostas pelo Sherife. Entramos na casa e logo duas pessoas recolheram nossa mercadoria e levaram-na para um pequeno bar, montado no canto da sala de visitas, onde pelo menos 30 pessoas se amontoavam. Os cigarros fizeram sucesso, e logo havia uma cortina de fumaça impestiando o ar, as bebidas foram servidas e todos se divertiam. As revistas, que circulavam rapidamente de mão-em-mão, eram tratadas com cuidado extremo, como se quem as pudesse tocar fosse privilegiado por isso. Imaginei que seria porque a maioria das pessoas ali fosse homem, e as poucas mulheres fossem velhas ou deformadas pela radiação, e isso fizesse sua masculinidade aflorar. Mas a verdade era que olhar para as fotos daquelas mulheres os fazia lembrar de suas próprias mulheres ou filhas, e a maioria sabia que, caso elas estivessem vivas, sem a proteção de um homem, ou teriam tido muita sorte ou estariam trabalhando como prostitutas para poderem sobreviver. Era triste pensar em tudo aquilo, mas, como sempre, meus pensamentos foram interrompidos:
-Peguem-nos! - Gritou um dos homens que servia bebida, enquanto erguia um homem que havia caído no chão. Ele esticou o braço e apontou para mim e Thompson, com um olhar de assombro e raiva no rosto. - Eles envenenaram as bebidas.
Por toda a volta uma chuva de álcool caiu quando todos os que bebiam cuspiram o que tinham na boca. Lembro-me de que todo o álcool que eu havia bebido e que turvava minha mente desapareceu instantâneamente, enquanto uma descarga de adrenalina se espalhava como um raio pelo meu corpo.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
28. O Sherife e o Padre
-Eu disse que conseguiríamos um lugar pra vender essas coisas! - exclamou Thompson, ao ver o tamanho do lugar.
E tínhamos dois trenós cheios. Havia uma boa quantidade de morteiros, sempre valiosos, já que se podia lançá-los com as mãos ou utilizá-los como explosivos. Conseguimos salvar um bom tanto de caixas de cigarro e pacotes de fumo, alguns charutos e até mesmo isqueiros intactos, todos com alto valor depois que quase desapareceram junto com a Explosão. Um único gole de whisky, fosse qual fosse a marca, poderia comprar um veículo, suprimentos, armas e munições, e nós tínhamos vários goles. Mas nosso maior tesouro eram duas dúzias de revistas, que não passariam de amontoados de folhas cobertas por uma capa mais resistente e presas com grampos, não fosse pelo que havia sido impresso nelas. Aquelas eram, muito provavelmente, os últimos exemplares de revistas pornográficas que deviam existir em centenas, talvez milhares, de quilômetros dali. E nós sabíamos disso.
Dois guardas nos escoltaram pelas ruas vazias até onde parecia ser o centro da cidade-mercado. Lembro-me de um deles ter nos avisado para ficarmos longe de problemas, mas eu sabia que eles viriam até mim de qualquer jeito, eu quisesse ou não. Revezamo-nos na guarda dos trenós a noite toda, temendo que alguém pudesse tentar tomar nossa carga, já que não tínhamos onde guardá-la. Foi uma noite longa, as sombras pareciam se mexer de modos impossíveis, um lobo uivava confiante na escuridão longínqua, nuvens de vapor subiam espiralando dos bueiros, enquanto Thompson roncava baixo em seu sono agitado. Horas depois o sol forçou alguns raios através da camada cinza que cobria os céus e a manhã chegou ainda mais fria que a noite, mas o ambiente não deixou der ser estranho. As pessoas logo começaram a andar pelas ruas, às centenas, comprando e vendendo, e um alvoroço de vozes e sons dominou todo o lugar. Mas ainda assim era algo estranho, algo novo. Guardas andavam disfarçados, vestidos como pessoas comuns, mas era possível ver os cacetetes saindo por debaixo do casacos, e a qualquer sinal de problemas eles os usavam com violência desmedida, para que servisse de lição aos demais, evitando novos conflitos.
Começamos a vender, logo confirmamos que nossos itens eram realmente valiosos, e assim acabaríamos mesmo ricos. Mas também tivemos problemas. Como vendíamos morteiros dois guardas ficavam constantemente ao lado de nossos trenós, para garantir que não fossemos usá-los, e aqueles que comprassem algum, só teriam a mercadoria ao saírem. Algumas pessoas, mais desconfiadas, perguntavam a origem de tanto armamento, e como nos recusávamos a responder, a fim de evitar problemas com simpatizantes dos Piratas, que com certeza deviam comercializar por ali também, começamos a receber olhares desconfiados. Mesmo assim vendemos todos os morteiros antes do final da tarde, e quando os guardas já estavam mandando todos recolherem as mercadorias, um homem se aproximou de nós e nos fez uma proposta:
-Eu compro toda a bebida que vocês tem aí. Compro os cigarros também - disse o homem, que não parecia ter mais que 40 anos. Tinha um olhar sério, porém amigável, cabelos curtos e bem arrumados, voz grossa e rosto duro. - Darei uma festa essa noite. Sei que são forasteiros, mas se trouxerem essas revistas aí, acho que podem conseguir se enturmar por aqui - o homem começou a se afastar, andando de costas, e então completou. - Vejo vocês mais tarde?
-Claro, claro! - balbuciou Thompson, fazendo um sinal de até logo com o braço. Depois olhou para mim e continuou. - Você viu as roupas que ele usava?
-Roupas de padre. Sim, eu vi. - E eu estava tão espantado quanto ele. - E você, viu a estrela de Sherife?
sábado, 17 de janeiro de 2009
27. Tradeport
Thompson não disse muito mais naquele dia. Seguimos pelo leito do rio, parando ocasionalmente para observar ou tirar água do joelho, e fizemos as refeições em movimento. Durante a noite sua única palavra foi acorde!, quando eu comecei a ultrapassá-lo e ele percebeu que eu havia travado o acelerador e estava coxilando sentando. O frio fazia nossas mãos e pés congelarem, e eu tinha quase certeza de que meu nariz já não sentiria mais cheiro algum, mas Thompson mantinha o mesmo sorriso bobo no rosto desde aquela manhã. Há uma cidade adiante, tinha dito ele antes de sairmos, a menos de um dia daqui. Mas a noite tinha me desanimado e comecei a achar que ele tinha se perdido outra vez, por mais difícil que seja se perder em um leito seco de rio.
Novamente eu estava errado e ele certo. Duas horas depois de anoitecer avistamos luzes acima da margem do rio, à nossa direita. A princípio pareciam dois faróis de carro, mas logo vimos que eram holofotes, colocados acima de duas torres de vigia. Uma trilha, cavada na terra e na neve e socada pela passagem de veículos dava acesso ao topo da margem, bem em frente às luzes. Thompson sorriu de orelha a orelha, e mesmo na escuridão pude ver o branco de seus dentes e sorri por dentro. Viramos os snowmobiles e os forçamos a subir pela encosta escorregadia. A trilha seguia um pouco mais adiante e para a direita, de modo que uma das torres estava de frente para a subida do rio. A outra estava mais além e vigiava uma segunda trilha, bem maior, que vinha seguindo pela margem. Chegamos ao topo e em poucos segundos o vigia nos avistou. O holofote era muito mais forte do que parecia, deixou-nos cegos por um longo tempo, de modo que quando perguntaram o que fazíamos ali durante a noite, respondemos de olhos fechados.
Todos sabem que não se viaja a noite, e que aqueles que o fazem ou são loucos ou bandidos. Na escuridão da noite, camuflados pelo inverno sem fim, apenas monstros e criaturas hostis caminham, e qualquer barulho é sinal de perigo. E aqueles vigias sabiam disso e estavam bem treinados para qualquer som estranho. Levamos cerca de vinte minutos para convencê-los a nos deixar entrar, e só conseguimos isso depois de mostrar a mercadoria que trazíamos e prometer um maço inteiro de cigarros a cada um deles. Thompson me explicou que aquela não era a cidade que ele conhecia, mas que já tinha ouvido falar dela. Era uma cidade-mercado, onde se podia comprar e vender quase tudo. Mas logo descobriríamos que era também um lugar para se arranjar encrenca fácil. Havia algumas casas e estalagens para viajantes, mas a maioria das construções era de depósitos e armazéns. O lugar era todo cercado com um muro de tijolos e concreto, que não era muito grosso, é verdade, e até mesmo um carro poderia derrubá-lo com certa facilidade, mas com certeza impedia que indesejáveis entrassem.
-Desçam dos veículos e deixem todas as armas que possuem conosco. Ninguém entra armado em Tradeport. Vocês pegam de volta quando saírem - cuspiu o vigia truculento, enquanto apontava um rifle para nós. Outros dois homens acompanhavam tudo de perto. Thompson pareceu um pouco relutante em deixar as armas que havíamos roubado dos Piratas com aqueles caras, mas eu estava mais preocupado com uma grande faixa pendurada logo acima do portão da cidade:
_____________________________
SEJAM BEM-VINDOS À TRADEPORT
Taxa de venda: 20%
Taxa de compra: 5%
Ladrões serão guilhotinados
_____________________________
-Você acha que eles falam sério? - cochichou Thompson, temendo que aquela pergunta pudesse ser motivo suficiente para arrancar-lhem a cabeça.
-Eu apostaria que sim - e apontei para o topo do muro, onde cinco ou seis cabeças estavam fincadas nas pontas de ferro que saiam dos tijolos.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
26. Thompson
Acordei com meu estômago aos berros. Corri para fora do esconderijo, cavei um buraco na neve e devolvi tudo o que havia dentro de mim ao mundo lá fora. Quando voltei percebi que Thompson já estava acordado havia algum tempo, e depois de ter arrumado tudo para partirmos, dava risada de mim.
-Pelo suor da sua testa, acho que aqueles espetinhos não lhe fizeram muito bem, não é?! Ou será que foi o refrigerante? - e soltou uma nova carga de risadas. - Não fique assim bravinho, garoto! Eu também não tive uma noite agradável com meu estômago...! Definitivamente não devíamos ter comido tanto, mas mesmo assim valeu a pena, eu não comia assim a duas décadas! Mas vamos esquecer isso, temos que partir logo. Trate de se arrumar.
Durantei a noite, pouco antes de dormir, tinha decidido que não mais sairia dali. Mas o nascer de um novo dia parecia ter mudado as coisas. E mudou. Thompson parecia especialmente animado em partir, e aquilo era incomum. Ele podia ser um homem sério e divertido ao mesmo tempo, sempre disposto a fazer uma piada, mas dificilmente mantinha um sorriso no rosto por muito tempo. Eu não o conhecia o bastante para saber se aquilo significava problemas, mas eu já tinha consciência de que, depois da Explosão, qualquer coisa fora do normal normalmente não era boa coisa.
-Thompson. Você parece animado. Diga-me, o que houve?
-Sabe, Nuke. Antes disso tudo acontecer - disse ele abrindo os braços -eu tinha uma família comum, uma casa simples, um emprego normal... Eu achava aquilo pouco pra mim. Eu tinha sonhos que gostaria de realizar, coisas que queria fazer, lugares pra conhecer. Eu merecia mais do que tinha, trabalhava mais do que recebia. Eu era feliz, porém queria mais para mim e minha família. Mas então aconteceu, as bombas vieram, e tudo mudou. Um flash, um tremor, uma nuvem de fumaça negra, e tudo tinha mudado - seus olhos estavam vidrados, mirando o horizonte que se espremia pela fenda do esconderijo. Ele não mexia um músculo, enquanto sua boca narrava sua história como um robô com vida própria. Seu corpo estava ali, mas sua mente o tinha levado ao passado do qual ele não queria ter saído.
-Eu... eu... - as palavras entalavam em minha garganta e se amontoavam sem se decidirem por sair.
-Sabe, depois daquele flash eu não tenho muita certeza do que aconteceu. Lembro-me de que minha mulher entrou correndo pela porta da cozinha, enquanto eu abraçava minha filha e nos jogávamos no chão. Em seguida portas e janelas foram arremessadas pra dentro e as vidraças viraram pó. Quando a onda de choque passou eu continuava abraçado a minha filha, minha mulher permanecia imóvel no chão, e uma poça de sangue se espalhava lentamente por entre os ladrilhos. Foram preciso três soldados para que eu largasse o corpo já frio de minha filha e entrasse no ônibus de evacuação.
-Eu... sinto muito... - gaguejei sem saber bem o que falar.
-Mas quando te conheci as coisas mudaram. Você tem o que? Vinte anos? Viajando sozinho por aí, sem rumo, sem destino, sem nada nem ninguém. E ainda assim não parece se importar. Continua andando, pra onde quer que os problemas te levem e as opções lhe permitam. Nunca ouvi sua história, mas também nunca o ouvi reclamar de nada. E por isso não vou reclamar também. Nuke, me diga uma coisa. Você é feliz?
Não respondi. Não porque não quisesse, mas porque não sabia a resposta.
sábado, 3 de janeiro de 2009
25. Sonhar e Caminhar
Era incrível como, em um mundo onde 98% da população tinha sido ceifada pelo fogo das bombas, se podia cruzar com pessoas quase todos os dias. E, não tão incrível assim, a chance de que essas pessoas quisessem te matar antes de perguntarem seu nome era de 98%. E por esse motivo, quando eu e Thompson avistamos a bandeira de caveira, estandarte dos Piratas da Neve, não esperamos que o velho vendedor de espetinhos - que nunca nos disse seu nome - recepcionasse os novos clientes. Subimos nos snowmobiles e partimos pela foz do rio, rumo ao sonhado esconderijo. Não falávamos quase nada, mas pensávamos bastante, e o temor de que os piratas pudessem estar nos caçando passou a ser um temor presente. As horas que se seguiram foram algumas das mais longas que já vivi. Meu coração batia com força, tentando escapar do peito e sair pela boca. Minha respiração parecia querer filtrar todo o ar do mundo. E minhas mãos apertavam forte o acelerador.
Quando finalmente chegamos ao esconderijo eu sequer percebi. Thompson precisou gritar muitas vezes até que eu saísse de um transe de pensamentos e desejos e o ouvisse. O esconderijo era em uma saliência na margem do rio. Entrava por cerca de 10 metros pela terra e estava coberta por tábuas de madeira e muita neve, praticamente soterrada e completamente camuflada. Efetivamente, Thompson havia passado desapercebido por ele, e levamos cerca de 2 horas até ele perceber o erro e achar o lugar correto. Mas eu soube disso apenas durante a noite, depois de uma grande vasilha de sopa e dois espetinhos de iguana. Eu me lembrava muito pouco da viajem até ali, mas os milhares de pensamentos e coisas imaginadas estavam frescos na memória. E foi com eles que eu sonhei pela primeira vez em muitos meses.
Sonhos nos mantém vivos. Eu sonhava bastante quando jovem. Na verdade, sonhava mais que vivia. Eu quase não dormia, mas para sonhar não era preciso dormir. Meu corpo seguia adiante por instinto, caminhando pelas colinas pintadas de branco, enquanto minha mente vagava por mundos mil. Acho que se não fosse capaz de sonhar, não seguiria adiante por esse mundo de sujeira e gelo, ainda que não tivesse um destino ou objetivo na caminhada. Os Escravizadores, o Rosa Radioativa, os Piratas da Neve, e todas as outras pessoas que passaram por minha curta vida desde minha fuga eram apenas curvas e desvios em minha caminhada infinita e sem rumo. Mas eles me faziam sonhar, imaginar, viver... e caminhar.
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
24. Latinhas
-ESPETINHOS?
Comemos feito loucos. Ratos e iguanas assados são extremamente apetitosos, especialmente quando se está com fome e cansado. Sua carne é macia, saborosa e extremamente nutritiva. Nossas barrigas estavam a ponto de explodir quando decidimos parar de comer, mas o velho continuava nos empurrando mais e mais espetinhos apetitosos. Não conseguia imaginar como ele havia conseguido tanta comida, mas eu o louvava por isso.
-Senhor. Estamos mais que satisfeitos. Diga, quanto vai nos custar para pagar toda essa comida?
-Sobremesas? Claro, claro! Que cabeça a minha. Estão bem aqui, vou pegá-las!
Quando o homem saiu detrás da barraquinha e nos trouxe duas latas de refrigerante quase tivemos um enfarto. Aquilo tudo só podia ser uma miragem, alucinação ou coisa parecida. Latas de refrigerante eram mais difíceis de serem encontradas do que pessoas não afetadas pela radiação. E aquele cara tinha duas. E não parecia se importar em se desfazer delas. Thompson e eu nos entre olhamos e resolvemos que era melhor não perguntar.
-Bebe logo antes que ele queira de volta! - falou meio sorrindo, meio aconselhando. - Antes morrer tendo bebido um último refrigerante que ficar com vontade para a eternidade!
Verdade é que aquele foi meu primeiro refrigerante, mas preferi não dizer nada. Apreciei cada gota daquela bebida única. Seu cheiro doce fez olfato enlouquecer, enquanto suas pequenas bolhas espumantes dançavam em minha garganta e me faziam rir. Thompson me olhou com uma careta, provavelmente me achando um doido, mas eu estava me divertindo, e até o barulho da latinha abrindo tinha sido hilário. Estávamos quase acabando nosso banquete, completamente atordoados, quando o homem voltou a falar:
-Oba! Mais clientes!
E então nosso sangue congelou.
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
23. Espetinhos
Thompson não estava muito preocupado se encontraríamos alguém para vender todas aquelas coisas, ou mesmo se sobreviveríamos até achar alguém. Levei um bom tempo até convencê-lo a deixar a euforia de lado e se concentrar em ao menos tirar tudo aquilo dali. Foi preciso construir outro trenó improvisado, mas logo estávamos viajando.
-Sabe... eu tava pensando... Afinal, aquela velha, a Mary, tinha razão.
-Tinha? - falou Thompson, meio sem entender.
-Ela disse que eu traria a morte à cidade. Bem, a não ser que eu tenha deixado escapar algo, os piratas não foram à cidade por minha causa. Mas eu estava lá quando chegaram, então de certa forma eu sou culpado.
-Está preocupado com isso? Não se preocupe, a culpa não foi sua. Cedo ou tarde isso aconteceria. Estou feliz por estar vivo, e você deveria achar o mesmo.
-Não, só achei engraçado lembrar disso! - falei descontraído. - Na verdade, nem ligo para aquela cidade. Era um amontoado de bosta, no meio do nada, de onde nada se podia tirar. Eu queria mesmo era ter explorado aquele bunker. Fiquei curioso.
-É, pra falar a verdade, fiquei também. Ainda mais depois de ver o corpo de Domn lá... Ahh! que se dane... já era mesmo.
Já estávamos viajando por mais de 8 horas seguidas, e havíamos feito apenas uma única parada para um lanche. A conversa sobre a cidade foi boa para esquentar a mente, mas estávamos entediados demais para um diálogo muito longo. O frio entrava por nossas roupas e nos deixava sonolentos, mas não podíamos parar antes de chegarmos ao esconderijo que Thompson dizia conhecer. Se parássemos para dormir em algum outro lugar teríamos de cavar um abrigo, e seríamos obrigados a deixar os snowmobiles e trenós do lado de fora, o que chamaria muito a atenção, mesmo à noite. Seguir em frente era a única opção.
A noite começava a cair quando uma mudança na paisagem nos despertou do torpor. Alguns quilômetros adiante de nós, em cima de um morro de neve ligeiramente mais alto que os ao redor, havia um pequeno barraco. É claro que aquilo era completamente incomum, e por isso nos separamos de imediato, para que não estivessemos muito perto um do outro caso algo acontecesse. Mas não aconteceu. Ao nos aproximarmos, vimos que o barraco na verdade era uma barraquinha, e dentro dela um homem de barba branca e olhar embaçado mirava o horizonte. Thompson trazia uma antiga metralhadora AK-47, que ele tomou devidamente emprestada de um dos piratas mortos, e mirou-a para o homem enquanto chegavamos mais perto. Demorou até que o velho desse conta de nossa presença ali, e quando percebeu logo começou a falar:
-Clientes! Espetinhos de rato e iguana deliciosos! Vão levar para viajem, ou comer aqui mesmo?
domingo, 21 de dezembro de 2008
22. Ricos
-Vamos voltar.
-Claro, vamos nessa - falei, fingindo não ter entendido o que ele disse, mas então completei - Tá maluco?! E aqueles caras ali atrás? Vamos pedir carona pra eles também?
-Primeiro a gente se livra deles, depois voltamos. Eu sei de um esconderijo a umas 10 horas daqui, com combustíveis, equipamentos e suprimentos, mas precisamos de mais combustível para chegarmos lá.
-E como vamos nos livrar deles?
-O jipe deles não é adaptado, vê? Não tem esquis ou esteiras, são apenas correntes em volta do pneu. Assim eles só podem andar no gelo ou em terreno firme. Vamos por aqueles morros ali, onde a neve acumula e eles não podem nos seguir - e apontou para a encosta do rio, onde grandes bancos de neve se formavam com o vento.
Foi preciso cerca de duas horas para conseguirmos atolar o jipe. Eles sabiam o que queríamos fazer e por isso relutavam em nos seguir de perto, mesmo quando deixávamos que se aproximassem. Preferiram ficar atirando, torcendo para o vento não desviar os projéteis ou jogá-los contra nós. Mas sobrevivemos ilesos, e finalmente erraram o caminho e acabaram presos em um buraco de escombros e neve fofa.
-Certo. Nos livramos deles. Mas onde vamos achar combustível, agora que a oficina está destruída?
-Com sorte o resto dos veículos deles ficou apenas danificado, e não destruído. Assim podemos esvaziar os tanques e encher os nossos.
E mais uma vez a sorte estava ao nosso lado. A maioria dos veículos estava lá, com buracos na carroceria e soterrados de escombros, mas não haviam queimado ou explodido. Vasculhamos os destroços com cautela, mas não haviam mais piratas vivos, apenas corpos fumegantes e um insuportável cheiro de carniça misturado com excrementos. Havia combustível de sobra, mas não tínhamos como carregá-lo em nossos pequenos snowmobiles, então jogamos o resto nos veículos e ateamos fogo. Claro que antes antes retiramos tudo o que era útil, como kits de primeiros socorros, água, roupas, lanternas e até mesmo camisinhas - que eu duvidava ainda servirem para alguma coisa. Com uma placa de alumínio e alguns pedaços de corda fizemos um trenó, empilhamos tudo nele e cobrimos com uma lona.
Já estávamos de partida quando avistei outro veículo, caído para fora das muralhas, pouco além da entrada da cidade. Nos aproximamos e percebemos que aquele era o veículo do qual os piratas lançavam seus morteiros. Entramos no enorme veículo, que estava de ponta cabeças, e então ficamos ricos. Aquele devia ser o fruto de muitos saques daqueles piratas. Havia morteiros, armas, bebidas, cigarros e revistas pornográficas. Tudo de extremo valor em uma cidade grande.
-Estamos ricos! Estamos ricos! Hahaha! -gritava Thompson, enquanto pulava e girava na neve.
-É... mas onde vamos vender tudo isso? - perguntei, um pouco mais consciente.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
21. C4
Era um absurdo. Dois morangos jamais deveriam valer mais que dois veículos. Morangos deveriam ser colhidos do natureza, frutos de um mundo vasto, verde e completo. Snowmobiles deveriam ser pesquisados, desenvolvidos e fabricados com dezenas de matérias-primas e componentes eletrônicos, frutos de um mundo tecnológico e desenvolvido. Mas o homem muda tudo, destrói aquilo que o criou e o que ele próprio criou, e agora esse era o preço disso tudo. Eu ainda tinha muito a pensar, mas meu cérebro quase deixou de existir quando um projétil estilhaçou a porta e passou raspando em minha máscara. Os piratas tinham dado pro falta do companheiro e nos encontrado, agora seu objetivo e diversão era nos exterminar.
-É agora Nuke! - disse Thompson. Ele então jogou a planta no bagageiro e tirou um pacote envolvido em fita adesiva preta - Temos um burado para tapar!
-QUE?! - gritei atônito. Mas ele acelerou o snowmobile e derrubou com facilidade a parede dos fundos da oficina. Segui-o de cabeça baixa, para evitar os tiros que não paravam de entrar pelas paredes. Passamos pela entrada do bunker em alta velocidade, mas Thompson ainda teve tempo de derrubar o pacote dentro do buraco.
-Temos cerca de dois minutos antes dessa ilha inteira ir pelos ares!
-Aquilo era o que eu penso que era?
-Sim! Um quilo inteirinho de C4!
-Pelos deuses! - exclamei engasgando, enquanto imaginava o que estaria pensando aquela criatura, no final da escada, com seu pé-de-cabras na mão, quando vindo de lugar nenhum uma bomba caiu aos seus pés.
Os tiros dos piratas ainda perfuravam a neve próxima a nós quando aconteceu. A explosão fez o chão tremer. Nas encostas do rio seco toneladas de neve cairam em avalanche. Uma núvem de fogo, neve e terra subiu centenas de metros no ar, para em seguida uma chuva de destroços cair por toda a planície. Mas Thompson errou novamente em suas previsões, pois apenas três quartos da ilha desmoronaram em uma núvem de poeira e detritos.
-Merda. Tinha esperanças que houvessem explosivos naquele bunker... Provavelmente não destruímos os veículos daqueles piratas.
E dessa vez ele estava certo. Ainda que a maioria tivesse sido pulverizada pela explosão, alguns minutos depois piratas já nos perseguiam com um jipe. Nós matamos seus companheiros, danificamos e destruímos alguns de seus veículos e acabamos com seu objetivo naquele lugar. Nossa morte seria pouco para eles. E ainda que não estivéssemos dispostos a morrer, tinhamos outro problema:
-Thompson! Nós não temos combustível!
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
19. Bunker
-Você já desceu aí?
-Uma vez, dez anos atrás, mas não passei da escada. Éramos em quatro, mas não tínhamos lanternas ou máscaras de gás na cidade, e temíamos que esse cheiro forte que sai daí pudesse ser tóxico, ou até mesmo explosivo.
Não precisou muito para que decidíssemos entrar, já que um bunker com certeza é um lugar muito mais seguro durante um ataque de morteiros. Eu corri até a oficina e peguei duas máscaras de gás, enquanto Thompson pegou em sua casa um par de lanternas. Descemos a escada o mais rápido que pudemos, vencendo seus 50 metros com escorregões e tropeços. Não tínhamos muito tempo para explorar o abrigo, já que tão logo a cidade fosse destruída, os Piratas entrariam para saqueá-la. O ar lá embaixo, mesmo através da máscara, era muito pesado e parado, havia poeira em suspensão e grossas camadas de teias de aranha.
-Há muitas teias de aranha por aqui. Como pode? Supostamente não há insetos aqui para elas se alimentarem.
-Não me pergunte... - disse indiferente a esse aparente capricho do ambiente - Apenas fique próximo de mim para não nos perdermos.
As luzes de nossas lanternas iluminavam pouca coisa adiante, sendo barradas pela camada de poeira e teias. Passamos por algumas salas de escritório, mas não nos demos ao luxo de examiná-las com calma. O tempo era curto e apenas podíamos nos contentar em olha-las pela porta. Cada uma delas parecia um mundo à parte, estático e imutável para todo o sempre, coberto em cada centímetro por uma camada de poeira. Alguns poucos metros adiante o corredor terminou em um grande salão salpicado de pilastras de sustentação. Pelas mesas espalhadas reconhecemos o refeitório, que daria para pelo menos 100 pessoas. Caminhamos até o outro lado, em direção a uma porta que parecia levar a um dormitório. Não fosse pela poeira, era como se ninguém estivesse estado ali. Estávamos para dar mais um passo quando uma explosão fez tremer o chão e um grande estrondo entrar pela escada e chegar até nós.
-Talvez devessemos ir embora, ou podem acabar bloqueando a entrada com um dos morteiros.
-Voce tem razão, eu... - Thompson interrompeu a frase no meio e apontou o feixe de luz para o dormitório. Sobre a cama mais próxima à porta estava um corpo jogado. Eu fiz que não, mas ele se aproximou mais para investigar. Era o corpo de um homem, e apesar de bastante deteriorado, ainda se podia reconhecer o rosto.
-É o corpo de Domn. Ele desapareceu cerca de dois meses depois que descemos aqui. Certamente encontrou uma lanterna e resolveu descer sozinho para saquear -disse apontando para a lanterna quebrada que havia ao lado da cama. - Idiota, morreu por causa de sua própria ganância.
Um barulho de passos e metal arrastando fez nossa adrenalina explodir. Olhamos em volta e vimos um vulto se mechendo por entre as beliches.
-O que aconteceu com os outros dois caras que desceram com você aqui?
-Esqueça isso... Corra!
20. Morangos
Corremos feito loucos o caminho de volta. Ofegantes ao pé da escada, arriscamos olhara para trás, porém só podíamos ver a nuvem de poeira que erguemos ao passar pelo corredor. O som de passos havia parado e tudo estava mergulhado em um mar de silêncio. Também não se ouvia nada vindo da superfície, o que indicava que o ataque havia cessado e logo invadiriam a cidade.
-Vamos Nuke, dane-se o que tem aí. Prefiro viver.
-Sim, vamos.
Thompson já estava no terceiro degrau quando o barulho de ferro recomeçou. Ele esticou a cabeça para baixo do buraco, bem a tempo de ver uma máscara-de-gás negra e desgastada surgir por entre a poeira e as teias de aranha. Não conseguimos identificar quem era, mas o pé-de-cabra em suas mãos estava pintado de sangue e não parecia amigável. Eu estava aturdido. Fosse quem fosse, devia estar lá a muitos anos, mas ainda assim estava vivo. Suas roupas estavam completamente arruinadas, e sua pele parecia queimada. Se Thompson não tivesse me puxado pela gola, talvez eu tivesse ficado em transe, e o barulho que o pé-de-cabra fez na escada teria sido abafado pelo impacto com meu crânio.
Saímos pela escada e encontramos a cidade quase completamente em ruínas. No lugar do portão principal havia um enorme caminhão blindado, completamente adaptado para guerra. Alguns homens trajando coletes e capacetes andavam pelos escombros, conferindo se todos estavam mortos. A oficina, por milagre, estava intacta, então corremos para lá e ficamos em silêncio. Quando um dos piratas entrou na oficina sequer teve tempo para disparar. Eu e Thompson já o golpeávamos incansavelmente com duas barras de ferro, até que seu corpo parasse de se mexer.
-Suba nesse snowmobile que você consertou e prepare-se para sairmos - disse Thompson - Eu já volto.
Mal tive tempo de entender o que eu havia ouvido e ele já estava correndo por entre os escombros até sua casa. Fiquei imaginando quanto tempo levaria para que os outros piratas dessem por falta do que havíamos matado. Mas em menos de dois minutos ele estava devolta, com um sorriso triunfante. Debaixo do braço trazia um pequeno vaso com uma planta de folhas largas caindo para fora. Era a primeira planta que eu via em muitos anos. E esta parecia extremamente verde e sadia como nenhuma outra.
-A cúpula de vidro em que eu a mantinha a salvou de ser esmagada!
-O que é isso?
-Um pé de morangos, oras. Como acha que eu comprei esses dois snowmobiles?
-Você comprou dois snowmobiles com UM MORANGO?
-Não, seu idiota. Foram dois morangos.
18. Piratas da Neve
Thompson quase acertou. A tempestade começou na manhã seguinte, e com ela o primeiro disparo. O morteiro subiu alto, foi pego por uma corrente de vento e arremessado muito além da cidade. O segundo foi um pouco mais perto, porém sem perigo. O terceiro caiu pouco além da muralha, fazendo pedras perfurarem as placas de ferro sem dificuldades. Apenas no quarto disparo eles acertaram a mira, e então a cidade silenciou. Um homem teve um braço semi-amputado por um dos destroços, mas seus gritos não foram ouvidos em meio ao desespero completo que dominava a mente das pessoas e as mantinha completamente paralisadas.
-Thompson! Thompson!- gritava eu, completamente desesperado de cima da muralha, já cansado de acompanhar aquilo.
-Aqui, Nuke! Venha rápido!
Pulei da muralha e corri para seu lado, atrás de uma casa. Ainda tive tempo de ver o lugar onde eu estava ir para os ares, enquanto três dos guardas que continuaram ali viravam pedaços.
-Quem são eles? - gritei acima da explosão, que ainda ecoava em meus ouvidos.
-Piratas, Nuke. Piratas da neve.
-Não vai sobrar muita coisa para saquearem quando a poeira baixar.
-O que eles querem está bem protegido de seus próprios morteiros - disse Thompson, enquanto corríamos por entre os barracos e nos protegíamos das explosões, jogando-nos no chão ao ouvirmos o assobio das bombas caindo. Vendo minha cara de surpresa e dúvida, completou - Vou lhe mostrar. Tente apenas não perder a cabeça.
Corremos por mais algumas casas e pilhas de escombros. Descemos um pequeno desnível e paramos. Ele retirou algumas placas de plástico e restos de tijolos, revelando um alçapão de aço no chão. Fizemos força juntos e erguemos a tampa, que rangeu e estalou. Havia uma escada de ferro que descia por um túnel redondo, com espaço para apenas uma pessoa, e sumia na escuridão.
-É um bunker.
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
17. Neve Vermelha
Foram dois longos meses recolhendo sujeira pelas ruas imundas da vila e empilhando ao lado dos muros. Não havia nada de heróico nisso, com certeza. Mas ao menos meus braços já estavam acostumados ao trabalho e meus músculos se fortaleciam mais e mais. Nas horas vagas eu ajudava Thompson a reparar um snowmobile que ficava num barracão ao lado de sua casa, o que foi muito bom para minha memória, que já começava a esquecer o que meu pai havia me ensinado sobre mecânica. Thompson era um homem bom, sabia reconhecer potencial nas pessoas e ajudá-las a desenvolver ainda mais suas habilidades. Ele me ajudou a ficar longe de problemas naquela fossa esquecida pelos deuses, enquanto todos ali pareciam querer me assar em uma fogueira.
Mas, na vida de um sobrevivente em um mundo como o meu, as coisas nunca dão certo por muito tempo. E, numa "bela" manhã de muito vento e neve, elas voltaram a dar errado. Um dos guardas tinha avistado uma mancha negra se aproximando pelo vale. O pânico tomou conta dos pouco mais de 30 habitantes daquela pequena cidade, e não demorou muito a me culparem pelo destino miserável que os aguardava. Aos gritos e engasgos a velha Mary soterrava-me com palavrões e maldições, mas eu duvidava que alguém fosse capaz de ser tão almadiçoado de uma única vez.
Naquele dia a mancha pareceu não se mecher muito, e isso aumentou bastante a tensão e expectativa. Os guardas estavam especialmente nervosos, já que a maioria nunca havia enfrentado mais que meia dúzia de encrenqueiros juntos. Mas as coisas pioraram muito mais quando, na manhã seguinte, pudemos ver a quantidade e o tipo de veículos que formavam a mancha. Todos de guerra. E em apenas mais um dia já estavam nas proximidades da cidade, estacionados pouco além do alcançe de qualquer arma que tivéssemos na cidade - e não eram muitas, devo acrescentar.
-Thompson, você acha que eles vão atirar?
-Vão - disse seriamente.
-Daquela distância?
-Com morteiros. Assim não correm riscos de perderem homens à toa.
-Mas e o vento? Uma tempestade está para começar.
-Talvez você não tenha reparado ainda, mas estamos em uma ilha, no leito seco de um rio. O vento corre de lá - e apontou para a direção dos veículos - e vai para o outro lado, numa corrente contínua. Em dois ou três disparos eles terão acertado a mira... e então a neve cairá vermelha.
domingo, 30 de novembro de 2008
16. Premonição
-Diga-me, jovem, como você se chama?
-Sou Nuke.
-Só Nuke? - perguntou a senhora, após alguns segundos em silêncio.
-Isso, só Nuke. - respondi paciente.
-Humm... Conte-me, como é o mundo lá fora? Você sabe... é cheio de monstros e mutantes, como dizem por aí?
-Infelizmente. Mas não parece tão perigoso assim quando não se tem nada a perder.
-Você tem algo a perder? -disse com sua voz chiada e fraca, enquanto colocava sua mão sobre a minha com ternura.
-Não.
Ficamos alguns minutos em silêncio, remoendo pensamentos sem fim. Fui o primeiro a quebrar o silêncio.
-Senhora, disse que sonhou comigo. O que sonhou, exatamente?
-Sonhei que um jovem viria do sul, trazendo consigo a morte e o fim.
Ergui as sombrancelhas, num misto de riso e surpresa. Estava para responder alguma coisa quando um homem entrou pela tenda.
-Pare de importuná-lo, Mary! Ele precisa aprender as regras por aqui, se instalar e então começar a pagar pela estadia. - o homem era ainda jovem -maduro, mas jovem-, com no máximo 40 anos. Tinha os cabelos curtos e bem cuidados, e sua aparência era bem saudável. Ele me acompanhou para fora da tenda e me levou devolta pela cidade. - Sabe, acho que Mary ainda sente muita falta de sua filha, mesmo que quase duas décadas tenham se passado. Ela sempre diz que a morte a persegue, tentando encontrá-la em meio a essa imundice. Cá entre nós, acho que ela apenas está gagá demais!
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